Publicidade
Acompanhe:
NH Hoje
Notícias | Região Meio ambiente

Parcão: pulmão verde de Novo Hamburgo

Por Débora Ertel
Última atualização: 29.06.2019 às 19:36

Área de 54,1 hectares é lar de várias espécies e ponto de passagem de centenas de aves

Reportagem: Débora Ertel
Fotos/ Vídeos: Débora Ertel | Marcelo Collar | Divulgação 


Quando visto do alto, o Parcão é uma grande mancha verde em meio à zona urbana de Novo Hamburgo. Quando se está dentro dele, uma verdadeira fonte de ar puro. Se muita gente está descobrindo o espaço desde que foram iniciadas as obras de revitalização, ainda são poucos os que conhecem a importância da biodiversidade presente dentro dos 54,1 hectares. 

A Área de Interesse Relevante Ecológico (Arie) Parque Municipal Henrique Luís Roessler é uma unidade de conservação municipal integral de uso sustentável criada a partir da Lei no 167/1999. O espaço leva o nome de um dos precursores do movimento ecológico no Brasil, Henrique Luís Roessler. O ambientalista nasceu em 1896, em Porto Alegre, e foi servidor público em São Leopoldo. Atuou no Ministério da Agricultura, como delegado florestal regional. Em 1955, fundou a União Protetora da Natureza, a primeira no Brasil.

 

 

O Parcão é o maior espaço de lazer na região central de Novo Hamburgo e uma das maiores áreas de preservação ambiental localizadas dentro da zona urbana no Estado, com 54,1 hectares. O Parque da Redenção, de Porto Alegre, por exemplo, tem 37,5 hectares. O Parcão, conforme o biólogo da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semam) Carlos Normann, é responsável por cerca de quase três metros quadrados de área verde por habitante do Município. "É o pulmão de Novo Hamburgo, um verdadeiro laboratório a céu aberto", define. Além disso, é o lar de várias espécies e ponto de passagem para centenas de aves.

Revitalização modernizou área de convívio

A primeira etapa das obras de revitalização do Parcão, no valor de R$ 2 milhões, foram concluídas em junho de 2017, momento que marcou a reabertura do espaço para a comunidade. O local ganhou quadras poliesportivas, pracinha de brinquedos, novos bancos, sanitários, melhorias nos acessos e nos caminhos centrais. Aos finais de semana, o parque chega a receber entre 3 mil e 4 mil visitantes, incluindo pessoas de outras cidades.

A segunda etapa de melhorias, no valor de R$ 4,38 milhões, inclui iluminação na trilha de 1,5 quilômetro, cercamento total da área, construção de pórtico e lancheria, reforma da sede administrativa, com instalação de climatização e elevador, além de melhorias nos acessos.

  • Revitalização do Parcão
    Foto: Débora Ertel/GES-Especial
  • Mais de R$ 6 milhões em melhorias
    Foto: Débora Ertel/GES-Especial
  • Calçamento foi melhorado
    Foto: Débora Ertel/GES-Especial
  • Área de brinquedos foi totalmente renovada
    Foto: Débora Ertel/GES-Especial

Equilíbrio em defesa do meio ambiente

Recentemente foi dado início à revisão do plano de manejo, que teve sua última produção em 2010. O plano é uma ferramenta fundamental para definir os usos do espaço e as políticas de manutenção e preservação da área. Para o titular da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semam) e primeiro gestor do Parcão, Udo Sarlet, existem várias questões que precisam ser refletidas. "Nós vamos manter o campo ou privilegiar a sucessão natural? Se na década de 90 era quase tudo campo, hoje tem cerca de cinco hectares", comenta.

Foto por: Débora Ertel/GES-Especial
Descrição da foto: Biólogo Carlos Normann e secretário de Meio Ambiente, Udo Sarlet

Outra questão que Sarlet comenta é sobre o uso do parque. De acordo com ele, quando a área foi comprada, pessoas com pelo menos dois interesses distintos contribuíram com a aquisição. "Um grupo tinha a expectativa que esse espaço tivesse um uso urbano e outro que fosse preservado o máximo possível. Mas se fosse um parque urbano não teria tido todo esse esforço de proteção ao longo dos anos. É preciso haver um ponto de equilíbrio", pondera.

O secretário define as ações de educação ambiental como ponto chave para levar informação à população sobre o que representa o Parcão para o Município e o meio ambiente. 

"As pessoas podem vir aqui visitar, aproveitar e desfrutar com algumas regras para impedir que haja alguma degradação. A Semam terá que achar uma forma de atender essas duas partes e, por vezes, isso não é fácil."

Sarlet ainda destaca que é preciso reconhecer o esforço que foi feito no passado para a aquisição das terras, uma decisão tomada pelo Executivo a partir da mobilização da população hamburguense. "Não tenho notícias de outra área que tenha sido adquirido desta forma. Se fosse feito isso hoje, não teria as mínimas condições", finaliza.

 

História do parque se confunde com a da cidade

Além da importância ambiental, o Parcão integra a história de criação de Novo Hamburgo. O local é remanescente dos lotes divididos em 1825, no início da colonização alemã, e pertencia ao comerciante João Pedro Schmitt, considerado um dos fundadores de Hamburgo Velho. Em 1985, o artista plástico Ernesto Frederico Scheffel, vizinho do Parcão, já se manifestava sobre a necessidade de manter as características históricas da cidade, principalmente de Hamburgo Velho, marco da fundação do Município. Ele era apoiado pela historiada Ângela Sperb. Paralelo a isso, pessoas da comunidade também discutiam uma maneira de proteger a área que sofria com a forte especulação imobiliária.

Neste período, a então estudante de Arquitetura e Urbanismo Jussara Kley, elaborou o seu trabalho de conclusão de curso (TCC) propondo que a zona de campo fosse transformado em um parque. Segundo Jussara, o seu estudo era centrado no zoneamento urbano, com a ideia de criar um espaço urbano verde, justificado por estar localizado dentro do centro histórico de Hamburgo Velho.

Em 31 de janeiro de 1986, uma comissão denominada Grupo do Parque, que era liderada por Jussara, a jornalista Jane Schmitt e o economista Luiz Jacintho (já falecido), se reuniu com o então prefeito Atalíbio Foscarini para a implantação do projeto. Foi dado início à campanha comunitária liderada pelo Projeto "NH como Meta", que contou o apoio da União Protetora do Ambiente Natural (UPAN) de São Leopoldo e Movimento Roessler, além de outras lideranças da cidade e região. Jussara e Jane recordam que foi feito um abaixo-assinado, com 4.304 assinaturas. "Em uma época que não tinha wathsApp e mal tinha telefone, foi uma grande mobilização", emociona-se Jane.

Foto por: Reprodução/ Ernesto Scheffel
Descrição da foto: Obra ENTITY_apos_ENTITYA sangaENTITY_apos_ENTITY, pintada por Scheffel para retratar um das nascentes do Parcão

Em outubro de 1986 foi assinado o Decreto Municipal nº 108/86, declarando a área de utilidade pública para fins de desapropriação. Em abril de 1989, foi promulgada a Lei Municipal nº 12/89, autorizando o Executivo Municipal a instituir a Fundação Pró-Parque de Novo Hamburgo. Em agosto do mesmo ano, o Decreto nº 203/89 instituiu a Fundação Pró-Parque. Em 19 de fevereiro de 1990, o então prefeito Paulo Ritzel compra a área da Paquetá por NCr$ 40.000.000,00 (quarenta milhões de cruzeiros novos), atualmente 1 milhão de dólares. Em 3 de abril de 1990 foi editada a Lei Municipal n° 020/1990 denominando o Parcão como Parque Municipal Henrique Luis Roessler.

Educação ambiental

O trabalho de educação ambiental é considerado uma das ações mais importantes desenvolvidas dentro do Parcão, resultado de parceria entre as secretarias de Meio Ambiente e de Educação, criado em 2002. No ano passado, 11.851 pessoas, a maioria estudantes, estreitaram seu contato com a natureza graças às atividades desenvolvidas no projeto. Hoje, as ações são promovidas pelas educadoras ambientais Adriana Backes e Claudia Marisa Vogel que atuam em quatro frentes.

Foto por: Divulgação
Descrição da foto: Cogumelos do Parcão
1 - Trilha de educação ambiental

A atividade é aberta para escolas, grupos, entidades e pessoas que desejam conhecer melhor a fauna e flora presentes no parque. Uma das curiosidades desta caminhada é a descoberta de cogumelos, que se destacam pelas diferentes cores e tamanhos. A trilha pode ser agendada pelo e-mail smedparcao@novohamburgo.rs.gov.br. Quando a reforma na sede administrativa estiver concluída, também será possível agendar pelo telefone (51) 3524-0356.

 

Foto por: Divulgação
Descrição da foto: Crianças estreitam contato com a natureza
2 - Conexão Parcão Amigos e Guardiões

É uma parceria firmada com as escolas localizadas no entorno do parque: Ana Neri, Marcos Moog, Anita Garibaldi, Castelo Branco, São Jacó e Machado de Assis. As educadoras visitam os colégios e apresentam o Parcão como uma área de preservação ambiental e um espaço importante para a biodiversidade. Depois, as crianças são convidadas a serem guardiões do parque. Aqueles que demonstrarem interesse são convidados, com suas famílias, a participarem de um momento de integração no Parcão. A partir disso, passam a auxiliar em determinadas atividades, como distribuição de mudas. No entanto, o objetivo do Conexão, é que as crianças auxiliem no cuidado efetivo da área, já que moram próximas ao lugar. Atualmente, cerca de 40 crianças são guardiãs.

 

Foto por: Débora Ertel/GES-Especial
Descrição da foto: Lagostim é o mascote da educação ambiental
3 - Criança e natureza

Voltado para as crianças menores, em especial àquelas da educação infantil, a proposta se apoia no lúdico para cativar os pequenos e proporcionarem a integração deles com a natureza. Tudo começa com a história “Odara a floresta”, uma narração criada pela professora Adriana que conta a aventura fantástica vivida por uma menina dentro do Parcão. Odara caminha pelas trilhas, conhece as árvores, animais e descobre que o arroio tem água limpa e transparente. As crianças são convidadas a conhecerem o parque, assim como a personagem, e fazem uma trilha de 40 minutos. Como eles se tornam investigadores, utilizam binóculos feitos com rolinhos de papel higiênico. Assim, elas soltam a imaginação ao escutarem as raízes das árvores e voam como fadas e seres mágicos. Por fim, todos fazem um piquenique na grama e brincam nos brinquedos do playground.

 

4 - Escola sustentável

É um trabalho de assessoria ofertado às escolas, com a distribuição de mudas de chás e temperos. Também é ensinado a elaborar o relógio de chás e a construção de espirais de ervas, entre outros. 

Biodiversidade do Parcão - Flora

O Parcão de antigamente não lembra muito o parque de hoje em dia. Isso ocorre porque não houve mais interferência da urbanização e a mata literalmente cresceu. A partir do momento em que foi estabelecida a unidade de conservação, houve um processo de regeneração de flora. Assim, as áreas de campo que antes tomavam conta de praticamente toda a paisagem, foram substituídas por vegetação arbórea e arbustiva, antes restrita a zonas ao redor de nascentes e arroios. O resultado foi que uma verdadeira riqueza natural nasceu na área. Para Normann, isso comprova que mesmo unidades pequenas, sem expressão regional, podem ser importantes para a manutenção da biodiversidade na região.

Pinos colocam Parcão em risco

Hoje, um dos maiores problemas para a manutenção e preservação da flora do Parcão não vem do homem, mas da própria natureza. São as árvores de pinus, espécie exótica que não integra o bioma mata atlântica e nem o bioma pampa, presentes no parque. O problema desa árvore, de grande porte, é que provoca um fenômeno chamado de antibiose, ou seja, impede que a vegetação nativa cresce, colocando em risco o equilíbrio da biodiversidade.

 

Foto por: Débora Ertel/GES-Especial
Descrição da foto: Manejo e controle do crescimento de pinus é preocupação constante

Por conta disso, a Semam realiza um controle rigoroso da quantidade de pinus existentes dentro do Parcão, promovendo o manejo da espécie. De acordo o secretário Udo Sarlet, há pelo menos 900 exemplares da árvore na unidade de conservação. "Para salvar o parque, precisamos cortar o pinus, pois o prejuízo ambiental pode ser muito grande", alerta Sarlet.

No entanto, o secretário adverte para uma prática que pode fazer toda a diferença na preservação do Parcão. Ninguém está autorizado a plantar na área, assim como soltar animais. Quem controla o plantio no Parcão são os técnicos ambientais da Semam. Já a soltura de animais é proibida, visto que o local é uma unidade de conversação, onde a fauna se organiza de maneira natural, sem interferência do homem.

Nascentes

É do Parcão que nascem três arroios. Dois deles são o Vila Kunz e o Wiesenthal, sendo que este último fica ao lado da escadaria da trilha, com acesso para que os visitantes possam visualizar a água límpida e transparente que brota do chão.

 

Fauna - aves

Foram catalogadas 63 espécies de aves, de 29 famílias e 16 ordens. Destas, 53% são pertencentes a ordem passeriformes, que são aves tamanho pequeno a médio, canoras, com alimentação baseada em sementes, frutos, pequenos invertebrados e alguns vertebrados. No estudo anterior, feito no outono e por um período maior, 114 espécies de aves foram encontradas. O Parcão, no entanto, tem potencial 287 espécies, levanto em conta os eventos migratório ou de deslocamento. Normann costuma dizer que o parque funciona como um trampolim. No lugar é possível encontrar surucuá-variado, aracuã-escamoso, coruja-buraqueira e o bacurau-tesoura.

 

Foto por: Divulgação
Descrição da foto: Mariquita pode ser vista pelas árvores do Parcão

 

AVES APROVARAM O CERCAMENTO

Se a população aprovou o cercamento do Parcão, dizendo que a proteção aumenta a segurança dos frequentadores, os animais que vivem ali também gostaram da medida, como explica o biólogo Normann. A cerca restringiu a entrada de predadores, como os cães domésticos. Dessa maneira, é evitada a predação, principalmente, de ovos e filhotes de aves que ficam à baixa altura ou mesmo no solo.

Anfíbios e Répteis

O Parcão tem potencial para ser o habitat de 30 espécies de répteis e 20 de anfíbios. No entanto, há 13 espécies de répteis e 12 de anfíbios com registro comprovado. No Parcão existe a cobra-coral, que apesar de venenosa, não é uma espécie agressiva. Ali também vivem exemplares da tartaruga tigre d'água nativa da região Sul. Esta espécie sofreu com a hibridação com a T. scripta e virou uma espécie de febre nas pet shops, sendo descartada em arroios depois que começava a crescer.

 

Foto por: Divulgação
Descrição da foto: Tartaruga tigre dENTITY_apos_ENTITYágua

Lagostim, a estrela do Parque

Dentro da área de preservação vivem duas espécies de lagostins que são endêmicas, ou seja, só crescem e se desenvolvem no Parcão. Inclusive, essa descoberta é motivo de uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Assim que as espécies forem catalogadas já deverão entrar na lista de animais ameaçados. O lagostim mede oito centímetros e vive dentro de tocas subterrâneas ao lado do arroio Wiesenthal, que nasce dentro do parque. Esses crustáceos podem consumir detritos, plantas aquáticas e carcaças de organismos aquáticos. Também comem moluscos, insetos, vermes, larvas, girinos e mesmo alguns peixes doentes ou debilitados. Assim, proporcionam o equilíbrio ecológico do local e entorno.

Lagostim é o mascote da educação ambiental

 

Peixes e mamíferos

Existem quatro espécies, com potencial para que ocorram mais. Destaque para o barrigudinho (Phalloceus caudimaculatus), caracterizado como um voraz devorador de larvas de mosquito. Esse peixinho, de reprodução ovovivípara (a fêmea dá à luz a filhotes, e não põe ovas), é fundamental para controlar as populações de mosquitos.

No Parcão os mamíferos são poucos, sendo que já foram vistos tatu-galinha, ouriço-cacheiro, o graxaim e o furão. Também há gambás e preás.

Foto por: Divulgação
Descrição da foto: Captura noturna de imagem de um gambá

 

Rã touro sob controle

No Parcão, a rã-touro é uma predadora em potencial para as espécies de lagostim. Essa é uma espécie de anfíbio americano que foi introduzida no Brasil na década de 30 com o intuito de criação e comercialização de carne. Como foi baixa a aceitação, muitos criadores desistiram e acabaram libertando diversos animais. Atualmente ela está entre as 100 espécies exóticas invasoras que causam maiores prejuízos à biodiversidade.

 

 

Rã touro

No Parcão, esse tipo de anfíbio vive no açude localizado próximo à sede. Mas como a rã pode se deslocar pelos cursos d'água, é feito um controle da população para não ameaçar o ecossistema do parque, sendo que o manejo consiste na contagem e abate dos indivíduos adultos e girinos.

Saiba mais

Os dados primários sobre a fauna e a flora presentes no Parcão foram obtidos durante a atividade de campo realizada entre os dias 04 e 05 de abril, 11 e 12 de abril, 04, 06 e 07 de maio de 2019. Como há animais que são migratórios, os especialistas indicam que seria necessário uma observação das quatro estações, ou seja, durante um ano, para se mapear toda a fauna presente.

Consultoria técnica - biólogo da Semam Carlos Normann

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.