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Matança nas ruas e dentro do Hospital Municipal tem oito réus

Processo expõe confusa guerra entre facções e sucessão de crimes no Vale do Sinos

Por Silvio Milani
Última atualização: 03.07.2019 às 09:25

Por Silvio Milani

 

Mais de dois anos depois, Polícia Civil e Ministério Público acreditam ter desvendado a ousada e inédita execução de um paciente no Hospital Municipal de Novo Hamburgo. Oito foram denunciados, viraram réus e tiveram a prisão preventiva decretada no decorrer de junho. Três ainda são procurados e há cúmplices não identificados. É caso de júri popular, que será marcado quando se esgotarem os recursos. O processo, ainda em fase inicial, expõe uma fábrica de crimes que envolve outros homicídios, roubos e, principalmente, uma sangrenta e confusa disputa entre facções pelo mercado da droga. A ação menciona até um plano para matar juízes e policiais no Vale do Sinos.

Ataque contou com informações vazadas

Foto por:
Descrição da foto: Leito de morte: depois de postar foto baleado nas redes sociais, o paciente Wellington Bandeira é executado com 15 tiros
O audacioso ataque no hospital, em que dois pistoleiros chegaram ao quarto e abriram fogo contra um acamado, enquanto um comparsa dava cobertura na recepção, na manhã de 2 de março de 2017, foi a sequência de uma matança nas ruas. O alvo, Wellington Jean Brito Bandeira, 19 anos, estava internado há três dias. Tinha sido baleado em intenso tiroteio entre dois grupos rivais, pouco antes de um parceiro ser morto pela Brigada Militar, no bairro Guarani, em Novo Hamburgo.

Mesmo no meio de uma guerra, Wellington transparecia serenidade e bom humor. Chegou a postar, nas redes sociais, uma foto no leito com as cicatrizes da cirurgia. Parecia não temer que os inimigos estavam determinados a eliminá-lo. Tão decididos que não se importaram com a recepção cheia, as câmeras de vigilância e os corredores a serem percorridos para chegar ao quarto, no segundo andar. Os invasores foram direto ao baleado, segundo a investigação policial, através de informação vazada na noite anterior por uma funcionária do hospital.

ELE MESMO

Foto por:
Descrição da foto: Wellington foi assassinado dentro do hospital
Apesar de receberem a localização detalhada, ao entrar no quarto os matadores tiveram o cuidado de perguntar a Wellington se era mesmo ele. E romperam o típico silêncio da casa de saúde com 28 tiros, dos quais 15 atingiram o paciente, que morreu no leito. A mulher dele se salvou ao saltar a janela e quebrar o pé direito. Os atiradores e o olheiro fugiram ameaçando funcionários e familiares de pacientes que apareciam pela frente. Era o desfecho do episódio mais violento e surreal do hospital público de referência regional, fundado em 1.º de novembro de 1947.

Entenda

 

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Juíza

Grupo teria vingado assassinato de rival

Na denúncia, a titular da 1.ª Promotoria Criminal de Novo Hamburgo, Rosângela Mazzuco, considera que a caçada a Wellington e parceiros foi vingança pela execução de André Luís Muniz Gonçalves, o Gordo André, 37, em 1.º de fevereiro de 2017, no bairro Campina, em São Leopoldo. A afirmação da promotora aponta para um confuso jogo de interesses entre as duas principais facções do Estado, dentro e fora dos presídios, inimigas mortais na guerra pelo negócio da droga.

Gordo André era tido como uma das lideranças dos Bala na Cara, supostamente do mesmo grupo de Wellington. E a ordem da execução no hospital, conforme a promotora, partiu de comandantes da facção rival Os Manos, que estariam, então, vingando a morte de um líder inimigo. Seria possível? Rosângela sugere, nos autos, uma espécie de fusão de oponentes, ao mencionar uma "organização formada por parcela conjunta dos Os Manos e Bala na Cara". Ela não quis falar à reportagem sobre a insólita coalizão. O delegado de Homicídios de Novo Hamburgo, Rogério Baggio Berbicz, responsável pela investigação, também não.

 

Delegado revela pacto territorial

O delegado da 2.ª DP de São Leopoldo, Rodrigo Zucco, imerso em inquéritos contra o crime organizado, conta que, no início do ano passado, houve um pacto entre Os Manos e os Bala na Cara. “Os dois lados devem ter chegado à conclusão de que estavam passando dos limites nas retaliações e resolveram definir uma divisão de área, o que acarretou uma expressiva diminuição dos homicídios.” Os Bala na Cara, que surgiram em Porto Alegre, ficaram com a região metropolitana até Sapucaia do Sul. Os Manos, facção nascida no Vale do Sinos, continua mandando a partir de São Leopoldo até a Serra. O acordo também envolve as praias. O litoral norte, a partir de Tramandaí, é dos Os Manos. De Cidreira para o sul, dos Bala na Cara. “Houve um estouro de homicídios há poucos anos no Vale do Sinos, principalmente em São Leopoldo, porque os Bala estavam querendo avançar na região pelo bairro Feitoria”, recorda. O pacto, conforme Zucco, foi relatado por vários presos investigados.

Promotora cita plano para matar juízes e policiais

Ao frisar a periculosidade dos réus, todos com antecedentes criminais, a promotora lembrou que um dos líderes, Márcio Gordo, seria mentor de plano para executar juízes e policiais civis no Vale do Sinos. A intenção imputada ao traficante, recolhido na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc), foi revelada pelo Jornal NH em março do ano passado. Os magistrados passaram a andar com escolta e os policiais adotaram precauções extras. “Chega de não matar polícia. Está na hora de matar polícia”, é uma das mensagens trocadas, na época, pela turma de Márcio Gordo. “Todos os envolvidos nesse plano foram denunciados e já são réus de outros processos, com pedidos para que sejam transferidos para fora do Estado”, comenta o delegado Zucco, que descobriu a trama.

Dois já tiveram liberdade negada

Mesmo foragido, Alexandre da Silveira tentou habeas corpus no Tribunal de Justiça, que foi negado na última sexta (28). Beiço, como é conhecido, está no primeiro escalão da facção Os Manos, segundo a promotora. De acordo com a Polícia, só anda de carro blindado.

Outro que teve liberdade negada é José Fabiano Moreira, o Tigrão. O pedido de soltura teve alegação que ele estava em Santa Catarina no período da execução no hospital. A juíza da 1.ª Vara Criminal de Novo Hamburgo, Angela Dumerque, considerou que o réu não conseguiu provar a estadia fora do Estado, salientou a gravidade do crime e lembrou dos antecedentes.

"Não foge aos olhos deste Juízo que o histórico do acusado, somado ao delito em tela, demonstra que este não conseguiu se afastar da vida delitiva, pelo que não há dúvidas que a segregação cautelar impera para a garantia da ordem pública e instrução criminal", destacou a juíza em seu despacho.

EXTORSÃO

Segundo o supervisor da 1ª DP de Novo Hamburgo, inspetor Jorge Luz, Tigrão é referência na região em extorsão a vítimas de carros furtados ou roubados. "Já foi investigado e preso em flagrante por esse tipo de crime, cobrando resgate para devolver o veículo à vítima."

 

Bangue-bangue na região

SÃO LEOPOLDO

Foto por: Polícia Civil
Descrição da foto: 24 de fevereiro: dois mortos e três baleados no bairro Vicentina
Dois homens foram mortos e três baleados no intervalo de três horas na Avenida João Alberto, bairro Vicentina, em São Leopoldo, na noite de 24 de fevereiro de 2017. Por volta das 20h30, Giovani Souza da Silveira, 24, foi surpreendido por dois homens que desceram de um carro atirando contra ele. Tentou se esconder em uma oficina mecânica, mas foi seguido enquanto era baleado. Morreu pouco depois no Hospital Centenário. Às 23h20, quatro homens foram alvejados em um bar, também por dupla que chegou em um carro. Deomir Andrade, 40, morreu na hora. Outros três sobreviveram.

NOVO HAMBURGO

Foto por:
Descrição da foto: 27de fevereiro: Eduardo Silveira morreu em confronto com policiais
Os desdobramentos vieram com intensos tiroteios, três dias depois, que levaram pânico a moradores dos bairros Guarani e Operário, em Novo Hamburgo. Os confrontos aconteceram no raio entre as Ruas Men de Sá e Araújo Viana, das 21h40 às 22 horas de 27 de fevereiro. Começaram quando quatro homens em uma Tracker preta tentaram matar rivais em um Nissan March. Os dois veículos eram roubados e clonados. Houve revide. Os criminosos da Tracker fugiram, e até hoje não se sabe se algum deles foi atingido. Eles deixaram dois do March baleados. Wellington nas costas, que perfurou o pulmão, e Jeferson Luís Souza da Silveira, irmão de Giovani, morto há três dias, com um tiro na perna direita. Irmão de Jeferson e do falecido Giovani, Eduardo Gutierres Souza da Silveira, 29, saiu ileso. Mas morreu no segundo tiroteio, desta vez contra brigadianos. Ele teria tentando roubar um carro para fugir e buscar socorro aos feridos, sem saber que estava abordando policiais em uma viatura discreta. Houve troca de tiros e Eduardo morreu no local. Uma soldado foi baleada na perna, sem gravidade. Wellington foi hospitalizado e Jeferson, preso. Com o trio, foram apreendidos coletes balísticos, rádio na frequência da Brigada, armas e munições.

Como foi internado na condição de vítima, segundo a Polícia Civil, não havia escolta para Wellington. Funcionários do hospital confidenciaram o medo de trabalhar com a presença de baleado em confronto de facções. O temor não era em vão. Às 8h23 de 2 de março, o grupo da Tracker invadiu a casa de saúde para consumar a morte do rival. Foi um terror. Dois executaram Wellington no quarto onde se recuperava de cirurgia e fugiram, com o comparsa que dava cobertura na recepção, em um Corolla conduzido por um quarto criminoso. O carro, que era roubado, foi abandonado na Rua Germano Friederich, no Guarani.

Testemunhas denunciam ameaças

Testemunhas seguidas, ameaçadas com perfis falsos nas redes sociais e algumas aterrorizadas pessoalmente por homens mostrando arma na cintura formam relatos de pavor no processo. O medo da família fez com que Wellington Bandeira nem fosse velado. Um parente recebeu recado que não era para por os pés no velório se não queria morrer também.

 

Apenas um executor foiidentificado

Três entraram no hospital, mas somente Renato Magaiver de Oliveira Alves foi identificado como executor. Ele, Tigrão e Gustavo Rodrigues dos Santos são os únicos presos no mês passado em razão das preventivas. Outros três já estavam recolhidos e três seguem foragidos.

 

Mortos foram excluídos da lista

Se não tivessem morrido, Wellington Bandeira e Eduardo da Silveira também seriam réus no imbróglio de confrontos em São Leopoldo e Novo Hamburgo. Ao receber a denúncia, o juiz Marcos Braga Salgado Martins julgou extinta a puniblidade dos dois em razão das certidões de óbito. Já os oito réus estão em prazo para apresentar a defesa.

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