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Aos 80 anos, aposentado vende panos de prato para viver

Um reflexo da renda muito baixa e do mercado sem trabalho

Por Alecs Dall'Olmo
Última atualização: 14.08.2019 às 11:38

Foto por: Alecs Dall Olmo/GES-Especial
Descrição da foto: ALTERNATIVA: sem trabalho, Justin comercializa seus produtos

Maria Leopoldina (1797-1826), arquiduquesa da Áustria e imperatriz do Brasil, responsável por incentivar a proclamação da República e esposa de Dom Pedro I, dá nome a Avenida Imperatriz Leopoldina. É nessa via que o mecânico Ondino Justin, sem nenhuma realeza, mas com uma determinação invejável, enfrenta as instabilidades do tempo no Brasil. Aos 80 anos, praticamente todos os dias, ele vai para o canteiro central da via vender panos de pratos para reforçar a renda de uma aposentadoria de 980 reais.

"Vou levando. A maioria das pessoas que passam aqui são bem atenciosas e ajudam. Às vezes compram, às vezes colaboram com alimentos. Foi a solução que encontrei para seguir trabalhando, pois preciso. Não tem como parar", destaca."De uns três anos pra cá não consegui mais trabalho na minha área. Na verdade, em qualquer área. A gente envelhece e é esquecido. Mas aí é que temos que lembrar que ainda estamos na luta. Parado não posso ficar", enfatiza.

Natural de Osório, mas vivendo há 32 anos em São Leopoldo, Justin mora no bairro Feitoria. Com bom humor em meio as adversidades de estar em uma cadeira simples de plástico, outra cadeira de praia que faz às vezes de mesa, ir de ônibus todos os dias ao "local" de trabalho e protegido parcialmente por um guarda-sol, ele ressalta que vender os panos de prato seria uma boa opção de trabalho.

Trabalho

"É trabalho. Todo mundo precisa de panos de prato, não é mesmo?", ressalta ele, que vende e conta histórias da época que era mecânico industrial. E o reforço no orçamento é fundamental. "Minha esposa sofreu um AVC e tem 76 anos. Ficou três meses hospitalizada. Um momento muito difícil."

 

Esforço reconhecido pela comunidade

E seu Ondino é famoso na comunidade. Várias pessoas fazem comentários sobre a determinação dele em redes sociais. Com direito até mesmo a foto e mensagens de apoio. "É um trabalho tranquilo e que posso fazer. Poderia fazer mais, mas o mercado de trabalho é complicado. Está cada vez mais complicado."

Para o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Ondino está em trabalhos precários, com maior informalidade, menor cobertura previdenciária. Está em uma ocupação típica de uma economia com baixo dinamismo. Mesmo assim procura criar oportunidade de fazer a vida um pouco melhor. Em uma idade que deveria estar mesmo é descansando e aproveitando o tempo, o presente vale cinco panos por dez reais.

Na luta diária

É cada vez mais comum se deparar com pessoas vendendo algo em avenidas, semáforos, próximo de lojas, na frente de hipermercados e dentro dos vagões do metrô. É um contingente imenso de pessoas que estão de alguma maneira tentando o sustento. Muitos que perderam o emprego e não conseguem retornar ao mercado de trabalho. Uma situação complexa, pois há a informalidade e a necessidade caminhando juntas.

TAXA DE INFORMALIDADE

Na última semana, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio - Contínua (Pnad Continua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 24,1 milhões de pessoas estão na informalidade. Conforme comparativo da Agência Brasil, 1,6% a mais do que no trimestre anterior e 5% a mais do que no segundo trimestre do ano passado.

 

 

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