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Sétima das Artes

Gaúchos em Produção: Histórias Estranhas

Antologia de fantasia e terror estreia no país e tem participação de cineastas gaúchos.

Histórias Estranhas Estreia nesta quinta o longa antologia Histórias Estranhas, formado por oito filmes de fantasia e horror realizados por cineastas brasileiros. Entre eles, há o trabalho de cineastas gaúchos. O filme estreia nos cinemas da rede Cinemark na programação especial do Projeta às 7, uma iniciativa da rede de salas para trazer produções independentes nacionais para o público. 

Histórias Estranhas veio da inciativa de produtores daqui do Rio Grande do Sul, que já tinham feito outras antologias do gênero fantástico, entre eles o especialista em efeitos de maquiagem Ricardo Ghiorzi. Ele que encabeça a curadoria do filme, que inclui três segmentos dirigidos por gaúchos -- incluindo um comandado pelo próprio Ghiorzi. Os outros cinco episódios foram produzidos em outros estados. 

Os segmentos são: 

"Ninguém", de Rodrigo Brandão
"A Mão", de Kapel Furman
"Mulher Ltda.", de Taísa Ennes
"No Trovão, Na Chuva ou Na Tempestade", de Paulo Biscaia Filho
"Os Enamorados", de Claudio Ellovitch
"Invisível", de Filipe Ferreira
"Sete Minutos Para a Meia-Noite", de Ricardo Ghiorzi
"Apóstolos", de Marcos DeBrito

Os capítulos produzidos aqui no estado são "Mulher Ltda.", "Invisível" e "Sete Minutos Para a Meia-Noite". Eles incluem em suas equipes e elencos alguns dos melhores artistas do audiovisual gaúcho, como os atores Leandro Lefa, Martha Brito e Marcello Crawshaw, os compositores Chico Pereira e Renan Franzen, o diretor de fotografia Rafael Duarte e a diretora Taísa Ennes, entre vários outros.  

Aproveite para prestigiar o cinema feito por aqui.

Crítica: Duas Rainhas

Drama de época sobre as rainhas Elizabeth I e Mary da Escócia vai engrenando aos poucos.

Duas Rainhas É de se perguntar o porquê de mais um produto audiovisual contar a história do conflito entre Escócia e Inglaterra no período elisabetano. Nas últimas décadas,não foram poucas as representações nas telas das rainhas Elizabeth I da Inglaterra e Mary I da Escócia. Até recentemente, a mesma história foi contada na série Reign, por exemplo, encerrada em 2017. 

Por motivos comerciais, claro: histórias da realeza britânica vendem bem mundo afora. Como nem todos os monarcas da ilha são suficientemente conhecidos, essas recriações acabam se concentrando nos períodos das rainhas mais famosas, como Vitória ou a própria Elizabeth II, atual rainha (no seriado The Crown). Há um grande interesse em especial do público feminino contemporâneo por essas figuras que desafiaram as convenções sociais e políticas do passado. 

É neste contexto que Duas Rainhas se encaixa. Ele é primordialmente um produto da nossa era, feito para ser um retrato consumível e acessível. Não é inesquecível, ainda que bem realizado, nem arrebatador, ainda que respeite o desenrolar dos fatos históricos. 

Apesar do título (e o primeiro ato da projeção) implicar que a narrativa traçará um paralelo constante entre Mary (Saorise Ronan) e Elizabeth (Margot Robbie), logo o roteiro vira o seu foco na história da rainha da Escócia. Não à toa, já que o título original é Mary Queen of Scots. No início, o filme começa confuso e trôpego, tendo que ser muito didático para o espectador entender seu contexto político e social. Aos poucos vai se aprumando. No fim, conta a história de maneira eficiente -- ou melhor, suficiente. 

A diretora Josie Rourke vem do teatro, e isso garante que o elenco cumpra bem o seu papel. Talvez Saorise Ronan e  Margot Robbie estejam muito focadas em receber novas indicações ao Oscar, o que deixa um leve afetamento no ar em determinadas cenas. Há aqui e ali algum bom momento visual, num plano mais bem fotografado. Mas, sob uma ótica mais analítica, seu acabamento não é muito diferente de um produto televisivo bem realizado. 

Há escolas interessantes, porém. É um dos poucos retratos menos glamourosos de Elizabeth, mencionando inclusive as suas cicatrizes faciais por causa de uma doença. Questões da sexualidade e do comportamento da realeza são abordados, mas não espere por nada muito chocante. Há também a decisão de trazer diversidade para o elenco, com atores negros e asiáticos em papéis importantes. Essa liberdade poética, porém, parece neste caso condescendência comercial para que o público compre o título como tendo uma proposta inclusiva. Acaba soando mais como um agrado puramente mercadológico do que um resgate da posição de pessoas não-caucasianas naquela sociedade. 

No fim, talvez isso transforme Duas Rainhas num produto datado com o passar do tempo. Mas note quantas vezes eu usei palavras relacionadas a consumo neste texto, tais como "comercial", "produto", "comprar". É isso: Duas Rainhas é um produto consumível. Quanto mais rápido for assistido, melhor. 

Crítica: Shazam!

Novo filme da DC investe no humor ingênuo e bem sacado para público juvenil (e para o jovem que habita em nós).

Shazam! É fato que Shazam! (o sétimo filme do que supostamente seria o Universo Estendido DC) é um rearranjo de rota. Quando a DC Comics resolveu enfrentar a Marvel e seu universo compartilhado nos cinemas, abandonado a estratégia de franquias separadas, definiu-se que todos seus principais heróis teriam sua película solo . Boa parte destes projetos foram caindo pelo caminho, fruto de problemas internos da DC com seu estúdio parceiro, a Warner. Saíram das grades de planejamento - ou foram adiados indefinidamente - filmes do Flash, do Batman, do Superman, da tropa dos Lanternas Verdes.

Então é meio que incrível que Shazam!, logo ele, tenha sobrevivido. 

Quem tem mais idade conheceu esse herói como Capitão Marvel. Uma complicada disputa de direitos autorais acabou colocando o personagem na posição de hoje: com um nome diferente e uma posição um pouco menor no panteão da editora. Mas nem sempre foi assim. 

Quando foi lançado nos gibis, em 1939, o Capitão Marvel original chegou a superar em popularidade o Superman. Os dois eram parecidos, mas o background atrás deles era distinto. Superman era cria da ficção-científica: um ser extraterrestre cujos poderes advêm das condições do planeta Terra. Já o Capitão tirava sua força da mitologia: ao gritar a palavra mágica Shazam, o menino Billy Batson virava um herói.

Isso, convenhamos, tem muito apelo. Se a fantasia de toda a criança ainda hoje é se transformar num ser superpoderoso, Capitão Marvel (ou Shazam) é a personificação deste faz-de-conta. É onde Shazam! acerta. É, para todos os fins, um filme "infanto-juvenil" feito para a criança que vive dentro de um adulto. O diretor David F. Sandberg e o roteirista Henry Gayden buscaram nas suas próprias referências de infância o que os motivava como espectadores.

Daí que Shazam! tem um espírito claramente de matinês dos anos 1980 e início dos 90. É quase um "Quero Ser Grande versão super-herói" - ao ponto de ter uma referência nada sutil a este título. Mas quem se criou nessas décadas vai se lembrar - mesmo sem entender o porquê - de obras como Os Caça-Fantasmas ou E.T.

Quer dizer que Shazam! é um pastiche dessa época? Não. Os realizadores querem dar alma ao filme, por mais ingênua que esta alma seja. Então, passamos boa parte do tempo com os personagens antes de Billy Batson ganhar seus poderes. Vemos o protagonista criando laços com a família que o acolhe e essas relações bem-cuidadas fazem a diferença. O filme é previsível, mas gostamos tanto dos personagens que passamos a torcer para que o previsível realmente aconteça. 

O roteiro (e o elenco) investem pesado na comédia. Há dúzias de piadas já clichês em filmes de heróis. Mas há outras que fazem graça com o universo dos quadrinhos e com os próprios personagens da DC. Porque sim, Shazam! se passa no mesmo mundo de Batman vs Superman, Mulher Maravilha e Aquaman. As menções à existência dos personagens permeia toda a projeção (incluindo os maravilhosos créditos finais). Mas é uma espécie de "primo anárquico" destes filmes, com mais verborragia e senso de humor. Um Deadpool da DC para crianças, se quiserem. 

Há que se falar que o elenco vai muito bem neste quesito, com performances cômicas bem realizadas. Há personagens genuinamente fascinantes e é fácil criar empatia por todos. Inclusive pelo vilão clássico Dr. Silvana (interpretado por um especialista em antagonistas, Mark Strong). É interessante que o roteiro ensaia um paralelo entre as famílias de Silvana e de Billy Batson, que poderia ser melhor explorado se Shazam! tivesse uma inclinação dramatúrgica mais sisuda. 

No entanto, o filme entrega a sua proposta: excelente diversão. E ainda, pode ser o filme que fará a transição dentro do Universo DC. Ele parece encerrar a era compartilhada e criar novas possibilidades para os filmes futuros. Ou, quem sabe, revitalizar e recuperar de vez uma franquia problemática. 

Há uma cena no meio dos créditos e outra bem no final. 

Crítica: Vox Lux - O Preço da Fama

Apesar da boa atuação de Natalie Portman, drama se perde em pretensões exageradas.

Vox Lux Desde o início da projeção, fica bem claro que Vox Lux - O Preço da Fama leva-se exageradamente a sério. A pretensão do seu realizador, o desconhecido Brady Corbet, é fazer um profundo retrato da alma ocidental nas últimas duas décadas, usando para isso como backgroud a indústria cultural. Contudo, o filme se perde ao se atribuir tamanha importância. 

Vox Lux pode ser um daqueles casos de amor e ódio. Há boas ideias; mais do que isso, há boas cenas. Porém, a vontade de soar e parecer arrojado resulta em inúmeras derrapagens. Para cada eventual momento brilhante, há uma execução preguiçosa e auto-indulgente logo em seguida. 

Mas vamos à história: indicando na tela cada um dos seus atos, o roteiro conta a história fictícia da cantora Celeste, desde sua adolescência (quando é interpretada por Raffey Cassidy) até o 2017 (quando é encarnada por Natalie Portman). A personagem tem uma construção interessante: quando jovem, sobrevive a um massacre na sua escola e faz uma música que se torna imenso sucesso. Já adulta e na casa dos 30 anos, tenta sobreviver aos excessos e pressão da fama, enquanto sua imagem pública se desgasta e a relação com familiares fica atribulada. 

A protagonista quase salva o filme, muito pela entrega de Portman -- atriz que alterna em sua carreira algumas performances inesquecíveis com diversas outras burocráticas e sem graça. Ela faz um bom trabalho com Celeste, criando tiques nervosos que representam as dores constantes que a personagem sofre por conta da tragédia que viveu na escola. Jude Law também é um coadjuvante que entrega um bom trabalho, inclusive fazendo uma voz mais grave e diferente do seu registro comum. 

Contudo, a própria atuação de Natalie é prova dos desequilíbrios de Vox Lux. Como comentei antes, a fita demarca seus atos claramente. No primeiro (chamado "Gênesis"), quem dá vida à personagem é uma pouco expressiva Raffey Cassidy. Uma pena, porque narrativamente este é o segmento mais bem resolvido do filme. Ou, por outra, é o único a contar realmente uma história: como Celeste entrou na indústria da música pop e se consolidou.

Portman aparece somente a partir do segundo ato ("Regênese"), com já quase uma hora de projeção. Se ela é melhor que sua contraparte mais jovem, encontra aqui um roteiro bagunçado, com ares de virtuose  pela virtuose. A cena no restaurante, por exemplo, é demasiadamente longa e inicia conflitos familiares que jamais serão resolvidos. O diretor e roteirista Brady Corbet parece encantado demais com seu texto longo (e raso) -- aliás, são vários os momentos em que o diretor parece deslumbrado consigo mesmo. 

No início do filme, por exemplo, os créditos inciais são apresentados na forma de créditos finais, passando em rol pela tela e incluindo quase toda a equipe. A justificativa para isso? Nenhuma, a não ser parecer arrojado. Esse virtuosismo vazio vai dando as caras com maior ou menor intensidade durante a projeção (como nas sequências rodadas com baixa definição e montadas em fast foward) e explode de vez no terceiro ato, "Finale", quando Corbet simplesmente joga a narrativa pela janela e fica meia hora mostrando um show como se fosse um mero DVD. 

Talvez devêssemos dar mérito ao cineasta (que é inciante, apenas em seu segundo longa) por tentar apresentar uma experiência cinematográfica diferente. Entretanto, Corbet parece pouco interessado no público, apenas no seu (hipotético) aplauso. O espectador investe emocionalmente seu tempo numa história que deixa em aberto todas as questões que planta, o que é decepcionante. 

Mas Cobert acredita ter feito grande obra. O filme encerra abruptamente (mas não era sem tempo), com um letreiro que afirma abertamente que ele se pretende como grande reflexo de uma época. Tal ambição e soberba passou desapercebida: lançado no final de 2018 nos EUA para aproveitar a temporada de premiações, Vox Lux foi massivamente ignorada por elas. 

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