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Sétima das Artes

Crítica: Rocketman

Rocketman Com o sucesso de Bohemian Rhapsody, cinebiografia de Freddie Mercury (e da banda Queen), era esperado que fôssemos assistir a filmes semelhantes: na mesma época, evocando ícones do rock famosos por sua genialidade, excessos e sexualidade. Então parece que Rocketman é um produto lançado para capitalizar em cima deste sucesso. Uma cópia barata. Mas não é. 

Recentemente, assisti a um ensaio em vídeo do youtuber Patrick H. Willems chamado "The Broken Formula of Music Biopics" (em livre tradução, "A Fórmula Desgastada de Cinebiografias Musicais"). Nele, debate-se o quanto que filmes que tratam de artistas musicas acabam recorrendo sempre ao mesmo modelo narrativo. Não importa o gênero musical do artista retratado: do hip hop à música country, esse tipo de película se alimenta dos mesmos clichês. Estrutura-se de igual maneira. Não raro, de forma folhetinesca e rasa.

Rocketman tenta fugir desses clichês, em especial por ser, efetivamente, um musical. O projeto joga a realidade pela janela e retrata da vida de Elton John não de maneira documental ou como se fosse uma novela. A vida do músico é contada em números elaborados de dança e canto, com os pés fincados no surrealismo típico dos grandes musicais da era dourada de Hollywood. No caso aqui, usando os próprios sucessos do cantor.

Podemos dizer Rocketman é o que Bohemian Rhapsody queria (ou melhor: deveria) ser.

Os primeiros dez ou quinze minutos de um filme, quando em casos excepcionais, podem ser um banquete cinematográfico, já que é ali que os realizadores usam o melhor do seu repertório para fazer o público "grudar" na tela. Esse tempo funciona como uma "carta de intenções" da obra, criando a necessidade da audiência de passar pela experiência completa. É o caso de Rocketman. Seu início é cinema da primeira qualidade. 

Começamos com Taron Egerton, que interpreta o cantor, devidamente paramentado para um show. Ele cruza um corredor e imaginamos, pelo clichê que nos é imposto, que ele ruma para o palco. O filme já nos quebra a expectativa aí, e a cena seguinte se liga com a próxima através de um número musical que também é uma passagem de tempo. Vale a pena notar o trabalho de cores, onde há um inteligente uso de elementos mais berrantes com um universo à volta quase monocromático. 

Enquanto a narrativa vai avançando nas décadas, jamais se perde de vista esse fascínio. Talvez a mais bela cena seja a do show na boate Troubador, onde artista e público começam a flutuar, fascinados pela música tocada ali. A expressão do próprio protagonista é de espanto, fazendo uma linda simbologia com o poder que a arte tem e que mesmo o criador ou performer desconhece. 

Depois da primeira metade de projeção, o título acaba caindo mais nos clichês. É quando se retrata a ascensão e consequente queda nas drogas e abusos. Pelo menos, ao final e na inescapável redenção, ela acontece não de maneira forçada, mas dentro do próprio personagem principal. 

A situação me lembra novamente os musicais clássicos, em especial aqueles da MGM. Em 1951, o grande estúdio lançava Sinfonia em Paris, luxuoso filme estrelado por Gene Kelly. Foi tão incensado que ganhou imensa quantidade de Oscars (seis). Ano seguinte, estreou uma obra ainda maior, Cantando na Chuva, que transcende seus gênero e é um dos melhores filmes da história. Mas por conta da "ressaca" de Sinfonia de Paris, não ganhou o mesmo reconhecimento na época, somente depois. 

Espero que Rocketman não sofra dessa mesma síndrome, e que ultrapasse aos olhos do público a sensação de ser um anexo a Bohemian Rhapsody. Porque é um grande filme por si só. E sim: melhor que a falha cinebiografia do Queen. 

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