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Sétima das Artes

Crítica: Era Uma Vez em... Hollywood

A primeira coisa que deve ser dita sobre Era Uma Vez em ... Hollywood, novo filme de Quentin Tarantino,  é que ele visa o Oscar. Não que o próprio cineasta já não tenha suas estatuetas -- duas como roteirista --, mas ele jamais teve um filme sagrado como o maior do ano.

Este novo longa (que, ao contrário da publicidade, é seu décimo, não nono) é pensado para obter múltiplas indicações. O tema em si apela para os instintos mais arraigados da Academia: uma celebração da própria Hollywood em um dos seus momentos cruciais, o fim da década de 1960.

Foto por: Alexi Lubomirski - Esquire
Descrição da foto: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Quentin Tarantino

O marco tem a ver com a mudança nos paradigmas dos estúdios, enfrentando franca competição com a TV (que, por si só, é quase um coadjuvante do filme: inúmeras cenas começam com a câmera fixada no que a TV do ambiente está exibindo). Saía a época ingênua dos anos dourados para a era dos autores.

Então, Era Uma Vez em... Hollywood se posiciona assim: uma celebração cinéfila. A narrativa lembra um pouco o formato mais solto de Pulp Fiction, onde a história central não importa tanto, mas sim uma espécie de "tempo presente filmado" dos protagonistas.

Muitas cenas não levam a lugar nenhum e estão ali por exaltação apenas da ação que acontece nelas. É o caso da falada sequência onde o personagem de Brad Pitt, o dublê Cliff Booth, luta com Bruce Lee (interpretado por Mike Moh).

 

Modo geral, o filme usa os assassinatos reais cometidos
pelos seguidores de Charles Mason -- em especial o da atriz Sharon Tate -- como pano de fundo.

 

Mas isso é o que menos importa no desenrolar da projeção. Os protagonistas são os fictícios Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e Cliff Booth. Um é um astro western decadente e amargurado, o outro é seu dublê com um passado sombrio.

A maior parte da película -- todo o seu miolo -- se concentra no que Dalton, Booth e Sharon Tate fazem num único dia em fevereiro de 69. As três narrativas pouco ou nada têm a ver uma com a outra, e mesmo com o desfecho geral da obra. Porém, aquele estilo "tarantinesco" de filmar e conduzir a cena mantêm nosso olhar curioso para o que assistimos.

Há quem irá adorar essa abordagem narrativa mais descompromissada -- que, de fato, contrapõe-se ao roteiro atual do cinemão americano, onde as narrativas são apertadas em reviravoltas atrás de reviravoltas, para que o público não desvie a sua atenção (mesmo que não entenda o que está acontecendo).

Foto por: ALFREDO ESTRELLA / AFP
Descrição da foto: Brad Pitt durante lançamento do filme no México

Há quem vai achar isso problemático e, por que não, meio picareta. Afinal, em alguns momentos parece ser um filme sobre nada. Ao chegar no clímax, quando Tarantino volta a brincar com sua violência cartunesca, pensamos que ele já fez melhor -- talvez porque a narrativa não é tão apaixonante quanto a de outros trabalhos.

Mas também acredito que Tarantino não fez um filme pensando tanto assim num público mais amplo. Seu alvo é o cinéfilo de carteirinha e a satisfação que esse espectador terá ao ver a repetição de um take num seriado que Rick Dalton está atuando, como se estivesse ele mesmo, o espectador, no set.

Não que seja um filme isento de problemas, mesmo se o vermos com uma ótica muito otimista. Em que pese as excelentes atuações da dupla Pitt e DiCaprio (a química entre eles é ótima, e Brad está particularmente bom), há atuações claramente ruins (ainda bem que em papeis pequenos).

 

Mais problemático é o viés excessivamente
sexista das personagens femininas, todas muito rasas.

 

A personagem de Margaret Qualley, Pussycat, é uma representação totalmente fetichista (basta ver o nome) e bastante objetificada pela câmera. Há uma espécie de crítica às denúncias contra homens assediadores no passado do personagem de Brad Pitt, que fica no limite do incômodo.

Então, se gostei: eu não sei. Me sinto como se tivesse participado de uma festa de criança de 2h40, onde me empurraram doces deliciosos na esperança em que eu achasse essa a festa mais bacana do mundo. Fico cheio de açúcar, mas talvez isso não faça muito bem pra minha saúde.

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