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Mais Mundo

Jornalismo construtivo: Quando a imprensa internacional faz sua mea culpa

Constata-se hoje na Europa que a distância entre a realidade e a percepção da realidade atinge dimensões perigosas para a democracia.

Aarhus University
Congresso Jornalismo Construtivo na Tunisia, 2017.

Na Europa, eventos políticos recentes tais como o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), a ascensão da extrema direita ao governo na Áustria e ao parlamento na Alemanha, suscitaram um debate societal de grande amplitude em torno da qualidade da comunicação social e do jornalismo, da credibilidade da imprensa tradicional e do impacto crescente das falsas notícias – as ditas fake news.


Tanto nas esferas governamentais quanto na sociedade civil, constata-se que a distância entre a realidade e a percepção da realidade atinge hoje dimensões perigosas.


Os franceses por exemplo, acreditam que 31% da população do pais é de confessão musulmana, quando na realidade, apenas 8% são adeptos desta religião. Outro exemplo: Na Áustria, o atual chanceler, Sebastien Kurz, venceu as eleições parlamentares em outubro passado com o slogan « Fazer da Áustria um país seguro ». Ora, segundo estatísticas da polícia austríaca, o país nunca foi tão seguro quanto hoje.

Essa discrepância entre os fatos e sua percepção tem efeitos políticos e econômicos importantes.


As fake news certo, são parte do problema. Para lutar contra elas, governos tendem a utilizar cada vez mais a arma jurídica, o que provoca críticas veementes por parte da mídia, que teme um recuo da liberdade de expressão.

Assim, na Alemanha, uma lei entrou em vigor no dia 1º de janeiro deste ano, exigindo que as plataformas de informação digital e as redes sociais retirem qualquer conteúdo ilegal, incluindo fake news – no prazo de 24 horas, sob pena de levar uma multa que pode atingir 50 milhões de euros. Na França, o presidente Emmanuel Macron anunciou no mês passado que seu governo está elaborando uma proposta de lei com novas regras sobre os conteúdos publicados nas redes sociais durante período eleitoral, exigindo mais transparência sobre a identidade dos anunciantes e patrocinadores do dito conteúdo e limitando o valor máximo a ser pago pelos mesmos.


Porém, para além das « fake news », a qualidade do jornalismo e a falta de confiança na mídia tradicional é um agravante importante da distorção da realidade, embora pouco citado.


Segundo uma pesquisa realizada pelo Reuters Institute for the Study of Journalism (Instituto Reuters de Estudo do Jornalismo - Universidade de Oxford, Inglaterra) junto a milhões de pessoas no Reino Unido e nos Estados Unidos que decidiram parar de seguir as notícias na mídia tradicional, 48% acham que as notícias tem um impacto negativo no seu estado de espírito e 37% não confiam naquilo que lêem, assistem ou escutam. Para os jovens entrevistados, a imprensa é « deprimente, mentirosa, um barulho de fundo”.

A mesma pesquisa também mostrou que o eleitorado que votou a favor do Brexit ou de Donald Trump, foi quem mais perdeu confiança na imprensa. E que, consequentemente, quem tornou-se mais exposto às fake news.

Mea culpa

« A mídia tradicional deve deixar de acusar governos e redes sociais e fazer uma auto-crítica», diz Ulrik Haagerup, jornalista, ex-diretor da televisão pública dinamarquesa e fundador do « Constructive Institute » (Instituto Construtivo- IC) na cidade de Aarhus, Dinamarca.

Segundo ele, os jornalistas devem sair dos seus pedestais e assumir as consequências graves da falta de confiança do público no trabalho deles. « E se o problema não fosse apenas a falta de educação do público, mas a qualidade do jornalismo que produzimos? », acusa Haagerup.


Sabemos que nas últimas décadas, o sensacionalismo deixou de ser monopólio dos tablóides para ganhar a imprensa tradicional. Para vender notícias são precisas manchetes fortes. O resultado é que o mundo relatado nos jornais, rádio e televisão é um mundo apocalíptico.

«Falando apenas das coisas que não funcionam, da violência, dos problemas, nós não traçamos um portrait fiel da realidade », afirma Haagerup, um otimista para quem o mundo nunca foi tão próspero e inovador quanto hoje.


Segundo ele, o jornalismo construtivo não é um jornalismo rosa-bombom do tipo praticado na Coreia do Norte. O jornalista deve ser crítico e denunciar o mau funcionamento das instituições. Mas ele deve fazer isto de forma inteligente e construtiva, sem viés negativo.

 
As regras de base do jornalismo construtivo incluem uma linguagem serena; entrevistas que buscam junto aos entrevistados idéias e soluções ao invés de sentimentos ou opiniões; foco no futuro e não no imediato; mediação de idéias ao invés de afrontamento nos debates. Regras estas que correspondem ao novo tipo de jornalismo que vêm sendo proposto gradualmente pela BBC inglesa, o chamado « solution focused journalism » (jornalismo baseado em soluções).


O objetivo do IC é ambicioso: mudar a cultura global da informação em menos de cinco anos. « A falta de confianca na imprensa é gravíssima e perigosa para a democracia. Não há tempo a perder », diz Haagerup.


Neste ano de eleições presidenciais no Brasil, urge aproximar a realidade da percepção da realidade. E para isto, quem sabe o jornalismo construtivo seja uma ferramenta útil.

Veja também:

• Constructive Institute
• BBC Academy

Suécia: Novas palavras, novas tendências

Palavras criadas em 2017 são indicadores das principais tendências comportamentais no país. .

Jens Magnusson/Sprak Tidningen
Palavras criadas em 2017 na Suecia

Todos os anos, o Conselho da Linguagem da Suécia publica uma lista das palavras inventadas mais utilizadas pela imprensa e pelo público em geral. Estas palaras são imediatamente incluídas em todos os dicionários.


Tal procedimento, dizem alguns, é simbólico da permeabilidade dos suecos à todo tipo de inovação. Outros, mais críticos, acusam o desapego crescente dos seus compatriotas com suas próprias língua e cultura.


A famosa lista anual de palavras novas no entanto, é esperada com ansiedade por analistas, políticos, e pela própria imprensa, pois ela revela acima de tudo as mais fortes tendências comportamentais da população.


Mais Mundo propõe uma breve seleção do total de 38 novas palavras oficialmente criadas em 2017 pelos suecos :


Direktare : Quando o corpo de um morto é levado do hospital diretamente ao crematório ou cemitério, sem funeral. Segundo estatisticas publicadas em 2016, cinco por cento dos mortos no país não beneficiam de uma cerimônia funeral. Seja porque morrem completamente sozinhos ou porque não desejam que seus familiares “sofram a inconveniência” de organizar uma cerimônia. O Direktare reflete a evolução de uma sociedade cada vez mais individualista e pragmática.


Plogga: Uma contração das palavras “plocka » (colher) e « joggar » (correr). Refere-se à ação de recolher o lixo deixado no chão enquanto se está exercitando. Quintessência das duas obsessões suecas : a reciclagem do lixo e a forma física.


Serieotrohet: A tradução literal seria “traidor em série”. No entanto, a palavra não refere-se à traição conjugal clássica, mas ao cônjuge que, uma vez o casal decidido a assistir uma série de televisão juntos, assiste a um episódio sozinho, sem esperar pelo outro. A pior das traições, segundo os suecos !


Skogsbad : Ou « banho de floresta ». Cada vez mais em voga no país, o skogsbad é um tratamento para o stress. Trata-se de um período pré-determinado quando uma pessoa fica isolada na floresta sem contato com a civilização e, sobretudo, sem acesso ao telefone celular ou à internet.


Expresskidnappning: « Sequestro rápido », que dura apenas o tempo necessário para esvaziar a conta bancária da vítima. Sim, isto existe na Suécia!


Klickfarm : Empresa ou grupo de pessoas pagas para « likar » e/ou clicar o dia inteiro em anúncios, promoções ou artigos na internet, com o objetivo de obter apoio virtual para os seus clientes. Em geral, a atividade das klickfarms é conduzida por trabalhadores mal pagos da economia paralela, e é considerada ilegal no país.


Spetspatient : Um paciente que obteve tantas informações na internet sobre a sua própria doença que ele torna-se capaz de tomar certas decisões relacionadas com seu próprio tratamento. O termo foi criado por médicos do Instituto Karolinska de Estocolmo, o mesmo encarregado da escolha do prêmio Nobel de Medicina.


Fejknyheter: É o termo sueco para ”fake news”, ou “notícias falsas”. Consagrado por Donald Trump e sua administração, ele preocupa particularmente as autoridades suecas neste ano de eleiçoões parlamentares (setembro de 2018).

#Me too na Suécia: um movimento histórico

Campeã mundial no ranking da igualdade homens-mulheres, a Suécia vive uma verdadeira convulsão social em torno do movimento hashtag #Me too..

Desde que o movimento hashtag #Me too levou mulheres do mundo todo a denunciarem agressões sexuais sofridas no trabalho*, a Suécia vive uma verdadeira convulsão social. Alguns comparam a amplitude das denúncias ao movimento que levou à obtenção do direito de voto para mulheres no país, em 1919.

Tudo começou há três semanas, quando 450 atrizes (número que vem aumentando desde então), denunciaram em uma carta publicada no jornal Svenska Dagbladet ”a cultura do silêncio” nos bastidores de televisão e de teatros do país, onde segundo elas, as agressões e o assédio sexuais são calados. ”Nós sabemos quem vocês são” ameaçavam elas na carta.

Desde então, 690 cantoras líricas, 5965 juristas e advogadas, 1993 mulheres trabalhando na indústria da música, 1300 políticas mulheres, 4000 jornalistas, 4000 atletas, 8000 estudantes, e muitas, muitas outras professionais, denunciaram em cartas abertas os assédios e as agressões sexuais que elas sofreram no ambiente de trabalho. E o número continua a crescer todos os dias.

Na semana passada, mais de 1300 mulheres que trabalham para a igreja luterana da Suécia (igreja majoritária no país), denunciaram em carta aberta as agressões cometidas ”por pastores e fiéis”. ”A vergonha deve ficar lá onde é o seu lugar, ou seja, do lado deles. Não somos nós que devemos carregá-la”, desabafavam elas.


Este tsunami de denúncias não tem caído em orelhas surdas. Uma onda massiva de expurgos nos escalões mais altos do poder vem fazendo um arrastão no meio político, das empresas e das artes.


Homens ocupando cargos proeminentes foram demitidos, processos estão sendo abertos todos os dias. Personalidades como o porta-voz do Partido Verde (que faz parte do atual governo), acusado de abusos sexuais cometidos nos últimos dez anos; ou Fredik Virtanen, jornalista conhecido em todo o país; ou ainda Martin Timell, apresentador de televisão (que nega as acusações). Todos demitidos. Um inquérito no seio de 40 grandes empresas acaba de ser aberto pelo mediador da República.


Nem a Academia sueca de letras, cujos membros são responsáveis pela escolha do prêmio Nobel de Literatura, escapou intacta. Na última semana, todos os jornais relatam os detalhes funestos de um escândalo denunciado por 18 mulheres.

Elas acusam de estupro, abuso e assédio sexual um homem (cujo nome não foi publicado, mas que o país todo parece conhecer) próximo dos membros da Academia de Letras e detentor de um vínculo financeiro com a mesma (a instituição financia seu café literário). O tal homem teria utilizado sua influência no mundo literário para chantagear mulheres para que mantenham o silêncio.

Segundo um comunicado oficial da Academia, além destas 18 mulheres, ”membros femininos da Academia, esposas de membros, filhas de membros e funcionárias da instituição foram sujeitas a uma intimidade não desejada e objeto de tratamento inapropriado por parte deste mesmo homem”.


Como explicar que o #Me too teve tal repercussão em um país como a Suécia, número um mundial no ranking da igualdade homens-mulheres?

Segundo especialistas, é justamente porque as mulheres suecas sabem que os seus direitos serão garantidos que elas ousam denunciar as agressões. Prova disto é que a Suécia é o país europeu com o maior número de denúncias de estupro.


No entanto, o número de condenações resultantes destas denúncias é ainda muito baixo. Segundo Ida Ostensson, fundadora da ONG Make Equal, entrevistada pelo jornal Le Monde, o sucesso do movimento # Me too na Suécia está ligado a uma frustração das mulheres com os Tribunais, ”que tem uma dificuldade enorme de julgar este tipo de caso”.


Em 2010, quando Julian Assange, o sueco fundador da Wikileaks, foi acusado de estupro e assédio sexual durante uma visita à Estocolmo, ele protestou dizendo que a Suécia é “a Arábia Saudita do feminismo”. No entanto, a acusação foi arquivada e não resultou em condenação.


Domingo passado, durante uma passeata do movimento # Me too na Praça Sergel, no centro de Estocolmo, que reuniu 1500 pessoas, sa Regnér, ministra para a igualdade de gêneros, anunciou que o governo deve propor ainda antes do Natal uma legislação mais restritiva sobre o ”consentimento sexual”.


Críticos deste novo projeto de lei alertam para a dificuldade de elaborar tal lei sem obrigar todo e qualquer casal prestes a ter uma relação sexual a dar seu consentimento verbal e explícito antecipadamente. Segundo eles, uma lei assim poderia ter como efeito colateral a criminalização de toda relação sexual praticada espontaneamente, sem acordo verbal.

Seria este o preço a pagar para que as relações entre homens e mulheres sejam mais equilibradas e respeitosas? Julgando pela aclamação da proposta de sa Regnér domingo passado, as mulheres suecas parecem dispostas a pagá-lo.

*Em outubro passado, dez dias depois que o jornal americano The New York Times tornou públicas as acusações de abuso sexual contra o produtor de cinema Harvey Weinstein, a atriz de Holywood Alyssa Milano escreveu no seu tweet: « se você foi agredida sexualmente, responda a este tweet dizendo: eu também (# Me too) ». Em poucas horas, a mensagem recebeu 37000 respostas. Um dia mais tarde, 12 milhões de mulheres no mundo todo haviam respondido. O movimento Me too (sem o #) no entanto, não foi criado por Milano, mas por Tarana Burka, uma militante afro-americana em Nova Iorque que, em 2006, fez um apelo similar ao de Milano junto à mulheres afro-americanas da sua cidade.


Paraísos

Por que pagar impostos quando existem formas legais de evitá-los? A resposta talvez esteja no aumento das inegalidades e da instabilidade política e financeira mundial..








Na semana passada Bill Emmott, ex-redator-em-chefe da revista The Economist, visitou Lausanne (Suíça) para participar como palestrante do Fórum da Fundação da Alta Relojoaria (Forum de la Fondation de la Haute Horlogerie). Diante de um público de empresários, Emmott declarou-se preocupadíssimo com a « perda do sentimento de igualdade nas sociedades ocidentais e com a emergência de uma plutocracia hereditária » nestes países. O que o senhor quer dizer com isso, exatamente ?, perguntou-lhe um dos jornalistas presentes. « Quero dizer que nos países desenvolvidos hoje, a riqueza esta tornando-se cada vez mais hereditária, como foi o caso durante a Idade Média, e que o sentimento de que apenas contam os poderosos, os lobbies, os ricos, e as multinacionais ameaça a estabilidade nestes países», respondeu-lhe Emmott.


Estas palavras tomam uma dimensão particularmente forte porque elas não foram pronunciadas por um ativista, mas por um defensor convicto da economia liberal : Emmott acabou de publicar o livro « The Fate of the West. The Battle to Save the World`s Most Successful Political Idea” (O Destino do Ocidente. A Batalha para Salvar a Melhor Idéia Política. The Economist Books, 2017).


Elas também foram pronunciadas durante uma semana de grande debate na mídia internacional em torno do escândalo conhecido como “Paradise Papers” revelado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ)*. O Paradise Papers descreve os mecanismos por trás de esquemas massivos de sonegação de impostos utilizados sistematicamente pelos detentores das maiores fortunas mundiais e por grande parte das multinacionais. Sonegação esta que está intimamente ligada ao aumento das desigualdades socioeconômicas sobre as quais falava Bill Emmott.


Segundo o economista Gabriel Zucman, professor na Universidade de Beckerly nos EUA e autor de « The Hidden Wealth of Nations» (A Riqueza Escondida das Nações. University of Chicago Press, 2015), a sonegação de impostos em massa revelada pelo Paradise Papers constitui uma verdadeira economia paralela internacional, cujas principais consequências são a queda da receita dos estados, o aumento das desigualdades e da instabilidade financeira mundial.


Ele explica que a sonegação tem efeito direto no aumento das desigualdades socioeconômicas, não somente porque ela permite às grandes fortunas tornarem-se ainda mais ricas mas, sobretudo porque ela priva de financiamento os Estados, que são os principais vetores de redistribuição de renda via investimentos públicos em escolas, hospitais, transporte, etc.


Ao contrário dos escândalos financeiros precedentes revelados pelo ICIJ tais como o do “Panama Papers”, o Paradise Papers revela esquemas considerados em grande parte como totalmente legais.

Nestes esquemas muito mais sutis e sofisticados, advogados especializados em fiscalização são pagos para encontrar todas as falhas na legislação de cada país que permitem pagar o mínimo possível de impostos sem infringir a lei – é o que se chama « otimização fiscal ». O escândalo Paradise Papers, portanto, não é um escândalo legal, mas um escândalo moral.


Por que pagar impostos quando existem formas legais de evitá-los? A reposta a esta questão está intimamente ligada ao nível de adesão ao modelo social do país no qual a pessoa vive ou a empresa atua. « O problema com a maior parte dos sonegadores ultra-ricos é que eles continuam a beneficiar dos serviços providos pelo Estado com o dinheiro dos impostos que eles próprios recusam-se a pagar », explica um jornalista do jornal Le Monde e participante do ICIJ. « O escândalo Paradise Papers mostra que as empresas multinacionais e os ultra-ricos estão dispostos a tudo para não pagar impostos », acusa Pierre Moscovici, comissário europeu para questões fiscais.


Segundo Scott Galloway, economista e professor da New York University, em entrevista ao canal de televisão CNN, as empresas GAFA (Amazon, Apple, Google e Facebook) juntas geram 418 mil empregos, mas ganham mais de 200 bilhões de dólares anuais em valorização na bolsa de valores. Esta quantia é equivalente ao PIB da França, um país de 67 milhões de habitantes. « Por que não pagar impostos? », pergunta-se ele.


Historicamente, pagar impostos sempre foi um assunto controvertido, capaz de provocar guerras e revoluções. De forma geral, cidadãos considerados politicamente como “de direita” ou economicamente como “liberais” (como é o caso de Bill Emmott) defendem um nível baixo de impostos que seja atraente para os negócios e logo, para o crescimento da economia. Enquanto que cidadãos considerados “sócio-democratas”ou “de esquerda” não acreditam na capacidade de redistribuição de renda do mercado, e preferem que o Estado o faça, através de impostos mais consequentes. Nas últimas décadas, o equilíbrio entre os dois campos vem sendo afetado rapidamente, com a balança virando “grotescamente” (como denuncia Bill Emmott) na direção da redução de impostos. Resultado: os Estados estão falidos.


Segundo o economista Gabriel Zucman, 40% dos seus ganhos das multinacionais passam por paraísos fiscais. E os 0,01% mais ricos do mundo conseguem escapar de 30% dos impostos que eles deveriam ter pago. Estes investimentos em paraísos fiscais privam os Estados de 350 bilhões de euros por ano.


Países como a França e o Canadá, antigamente considerados como modelos de redistribuição de renda, perdem anualmente em torno de 20 bilhões de euros aos paraísos fiscais. E segundo o jornal, isto acontece com total conhecimento de causa da parte dos governos. « O problema é que os Estados deixam brechas mais ou menos voluntárias na lei, que podem ser exploradas pelos mais ricos. Enquanto isso o cidadão médio, que não tem acesso a estas brechas, paga seus impostos », explica um jornalista do jornal Le Monde e participante do ICIJ.


O exemplo do Canadá ilustra bem o problema da conivência dos Estados : em 2016, o terceiro parceiro comercial do Canadá foi a minúscula ilha caribenha de Barabados, um paraíso fiscal que não produz bens de consumo. Atrás somente dos Estados Unidos e do Reino Unido, e muito na frente da China, do Japão, da Alemanha ou da França.


Como explicar esta conivência? A perda de confianca nos Estados, o crescimento do individualismo e principalmente, a concorrência do « dumping fiscal » praticada ao longo das últimas décadas pelos paraísos fiscais são explicações palpáveis.

Há duas ou três décadas atrás, preconizava-se aos países sub-desenvolvidos a redução de impostos como forma de atrair negócios. Hoje, mesmo no seio da União Européia, países membros tais como a Irlanda, a Holanda, Luxemburgo e o Reino Unido são considerados paraísos fiscais na medida em que propõem condições fiscais que permitem a multinacionais tais como Google, Apple e Amazon vender seus produtos dentro do Mercado Cumum Europeu pagando quase zero impostos**.


É como se o mundo inteiro estivesse se transformando em um grande paraíso fiscal. Um paraíso onde o termo « otimização fiscal » é totalmente aceito e completamente desconectado do termo « sonegação». O paraíso de 0,01% de população e o inferno dos 99,9% outros.

* Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigativos reúne 400 jornalistas de 96 mídias e 67 países que apoiaram-se sobre mais de 13 milhões de documentos revelados ao jornal alemão Süddeutsche Zeitung em 2016 provindos principalmente do escritório de advocacia internacional Appleby, baseado nas Bermudas, assim como de empresas baseadas em 19 paraísos fiscais no mundo todo.
**Em outubro a União Europeia exigiu que Apple e Amazon paguem seus impostos. No caso da Apple, a Irlanda foi condenada por não-recolhimento ilegal de 13 bilhões de euros da Apple. E no caso Amazon, Luxemburgo deverá recolher 250 milhões de euros. Em julho deste ano, após 7 anos de processo, a União Europeia condenou a Google a pagar uma multa de 2,4 milhões de euros por abuso de monopólio. Mas uma legislação fiscal comum européia resta ainda a ser criada.



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