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Cotidiano História

Novas pesquisas provocam reviravolta na história contada sobre o Veleiro Cäcilia

Quase naufrágio na travessia dos imigrantes alemães seria motivo para fundação de várias cidades da região

Por Moacir Fritzen
Publicado em: 27.03.2021 às 03:00 Última atualização: 27.03.2021 às 08:37

Ilustração de veleiro de três mastros semelhante ao Helena e Maria, navio que trouxe os imigrantes que saíram da Alemanha e sofreu quase naufrágio no Canal da Mancha Foto: Adobe Stock
Ao longo de gerações foi contada a história do veleiro Cäcilia, que teria transportado imigrantes alemães para o Brasil no final da década de 1820, sofrido um desastre durante uma tempestade no Canal da Mancha e ficado à deriva. Durante o momento crítico, passageiros teriam feito uma promessa de consagrar um feriado ao santo celebrado na chegada ao destino, caso sobrevivessem. Supostamente, essa data teria sido 29 de setembro, Dia de São Miguel Arcanjo. Esse é o mito fundatório de Dois Irmãos e que justificaria inclusive a escolha pelo padroeiro e a celebração do Kerb de São Miguel.

Publicações sobre a lenda do Cäcilia chegaram a ser feitas e aumentaram a crença popular. Alguns historiadores afirmavam que existiam contradições.

Em 2013, o professor e pesquisador Friedrich Hüttenberger, de Kaiserslautern, na Alemanha, recebeu de um americano um documento antigo para decifrar. Era uma carta do imigrante Johannes Weber, professor e pastor auxiliar de Dois Irmãos no século 19 e testemunha ocular da tragédia no Canal da Mancha. Ele escreveu as páginas quando estava em Falmouth, na Inglaterra - cidade para onde os "náufragos" foram rebocados por um navio postal inglês que passou nas proximidades do local do infortúnio. Mais tarde, a mãe e um irmão de Weber emigraram da Alemanha para os Estados Unidos e preservaram uma cópia da carta, como documento histórico, numa biblioteca de Ohio. Lá, a correspondência foi redescoberta por um pesquisador da família Weber (Weaver, nos EUA).

Na carta, Johannes Weber escreve que foi passageiro do navio veleiro Helena e Maria, fala sobre o roteiro da viagem e descreve o acidente do navio, apanhado pelo furacão. Essas informações se tornaram referência para pesquisadores e permitiram a descoberta de centenas de documentos inéditos nas localidades do roteiro da viagem e também de notícias em jornais da época na Alemanha, Holanda, Inglaterra e Brasil.

O pesquisador gaúcho Décio Aloisio Schauren encontrou um artigo escrito por Hüttenberger ao pesquisar na Internet. A parceria estabelecida entre eles depois resultou no livro A lenda do veleiro Cäcilia - Desvendando um mito.

A obra lançada recentemente com apoio do grupo GenealogiaRS contém mapas, fotos e trechos de documentos E A relação de quem estava a bordo e chegou às terras tupiniquins. Os capítulos traçam todo o cenário sócio-político da época e permitem que os leitores tenham acesso às provas e conheçam sobre personagens.

"As listas dos passageiros e um histórico de cada família fazem parte do livro. Certamente, muitas famílias vão ter um prato cheio para aperfeiçoar sua genealogia, com dados sobre os pais e avós dos imigrantes e informações sobre sua origem e história", destaca Schauren.

As listas de passageiros a bordo dos navios Helena Maria e Alexander

O livro está à venda por 100 reais e mais 20 reais para envio pelo Correio normal. Contatos com Nélio Schmidt, do GenealogiaRS, pelos telefones (51) 3019-7791 e (51) 99185-9712 ou pelo e-mail nelioschmidt@gmail.com.

Por enquanto, a obra está disponível em formato impresso. Em breve, a publicação também deve ganhar uma versão em alemão.

Mais de 193 anos depois daquela situação dramática, finalmente a verdade sobre o que aconteceu no mar e em terra veio à tona.

Impacto em várias cidades da região

A superação de quem esteve a bordo do navio Helena e Maria foi maior do que as gigantescas ondas. As famílias deixaram seus lares na Alemanha. Ainda na Holanda, famílias foram separadas. Quem conseguiu embarcar, enfrentou a fúria da natureza, as doenças e as incertezas. Ficaram só com as roupas que vestiam. Dezenas de imigrantes sucumbiram em solo inglês.

Depois, os sobreviventes reuniram coragem para continuar a saga em outros navios até chegar ao Brasil em 1829. Aqui, novos desafios se impuseram para a colonização.

"Será um incentivo para novas pesquisas e para a publicação de novos livros. Foram 106 as famílias angariadas no Palatinado, no Hunsrück e no Vale do Rio Mosel. Pode-se presumir que existam hoje mais 1 milhão de brasileiros descendentes daqueles imigrantes", estima Schauren.

A história não impactou somente a fundação de Dois Irmãos, mas também o povoamento de inúmeras outras cidades e localidades da região como Ivoti, São José do Hortêncio e Bom Princípio.

O autor destaca que as novas revelações não desmerecem os relatos anteriores, que já viraram tradição. "Tanto a lenda como o mito têm um cerne de verdade", destaca Schauren.

Lendário navio Cäcilia era Helena e Maria

Na Europa não existe comprovação sobre um navio chamado Cäcilia que tivesse transportado imigrantes para o Brasil. Com base em documentos, cartas e registros, chegou-se à conclusão que se tratava do Helena e Maria, um navio de carga de mais de 40 anos de uso na época, transformado às pressas para o transporte de passageiros.

"O hoeker (nome holandês) era um navio veleiro de três mastros, na sua construção parecido com um brigue. Era muito usado na pesca e marinha mercante no Mar do Norte. Tinha apenas a entrecoberta como espaço de proteção dos passageiros", explica o pesquisador Décio Aloisio Schauren.

Segundo ele, foram abertos buracos no convés para levar ar e luz para a entrecoberta e colocados estrados de dois pisos de tábuas soltas. Durante o temporal, as camas desmoronaram e as ondas invadiram a entrecoberta por esses buracos. Os três mastros se partiram e a embarcação ficou à deriva.

O Cäcilia só existiu na imaginação popular. "O veleiro Helena e Maria, nome verdadeiro do navio, que partiu da Holanda com os colonos no dia 6 de janeiro de 1828 e seis dias depois foi avariado pelo furacão, foi consertado de forma precária. Mas, após inspeção da Marinha inglesa, foi constatado que não tinha mais condições de navegar em alto mar. Foi posto à venda."

Rota feita pelo veleiro Helena e Maria

A rota do navio Helena e Maria desde a partida em Texel, na Holanda, até o ponto aproximado de onde enfrentou a tempestade e ficou à deriva Foto: Divulgação

O veleiro Helena e Maria partiu de Texel, na Holanda, mas foi apanhado por uma forte tempestade no Canal da Mancha, na costa da Inglaterra. Os três mastros do navio não resistiram à fúria das ondas gigantes e do vento.

A embarcação ficou à deriva no mar. Todas as pessoas a bordo estavam condenadas à morte, mas um navio postal inglês passou pelas proximidades e os rebocou até o porto de Falmouth.

Segundo o pesquisador Décio Aloisio Schauren, a informação de que perderam 20 colonos no temporal, não confere. "Na verdade, eles morreram depois que os destroços do navio, com todos os passageiros, chegaram a reboque de um navio na Inglaterra. Os motivos foram hipotermia, alimentos deteriorados, água contaminada e tifo", detalha.

Chegada em 29 de setembro está descartada

Décio Aloisio Schauren afasta totalmente a hipótese dos imigrantes terem chegado no dia 29 de setembro como anteriormente se considerava. "Está definitivamente descartado que 29 de setembro, dia do Kerb de São Miguel, seja o dia da chegada, conforme propagado pela lenda. O navio da tragédia jamais chegou a Rio Grande nesse dia. Muito menos e Cäcilia", afirma, categoricamente. 

O pesquisador cita várias descobertas que apontam para outras datas. "Os colonos não permaneceram dois anos na Inglaterra, como diz a lenda, mas partiram em 2 de janeiro de 1829 e chegaram no Rio de Janeiro, a bordo do navio James Laing, no dia 8 de fevereiro de 1829. Isto está provado por documentos e notícias de jornais da época. É incontestável! Ali estavam os principais personagens que Theodor Amstad (padre suíço que escreveu a respeito do Cäcilia) coloca na conta do “Cäcilia”: os dois Philipp Schmitz (o sênior e o júnior), a matriarca Bohnenberger, Johannes Spindler, Johannes Weber, junto com todos os outros passageiros. Isso está tudo comprovado com documentos desde a saída da Alemanha, a entrada na Holanda, a permanência na Inglaterra, comparados com a lista dos passageiros do navio Florinda que os trouxe para Porto Alegre e, finalmente, com a lista de chegada em São Leopoldo no mês de maio de 1829, elaborada por Hillebrand.

Outra hipótese para justificar a homenagem ao padroeiro também é descartada por Schauren. "Alguém poderia dizer que 29 de setembro de 1829 foi o dia da chegada nas colônias. Não condiz com os fatos da época. Tanto em Dois Irmãos, quanto em Ivoti e São do Hortêncio já havia colonos estabelecidos. As frentes dos lotes estavam medidas. Não havia motivo para os imigrantes 'náufragos' se demorarem em São Leopoldo. Deve-se levar em conta o fato de que, logo em seguida, no mês de junho, nova leva de quase 200 colonos chegaria a São Leopoldo e eles precisavam de abrigados na Casa da Feitoria. Portanto, urgia que se encaminhasse os colonos o mais rápido possível aos seus lotes", destaca.

Duas cartas, o mesmo navio

A primeira página da carta escrita por Johannes Weber Foto: Divulgação

A lenda do navio Cäcilia por muitos tempo esteve "ancorada" em uma carta escrita por um outro imigrante alemão chamado Johannes Spinder, que narrava situações semelhantes, mas não citava o nome do navio. 

"A carta de Spindler, também escrita de Falmouth, já era conhecida há mais tempo. Ela traz informações importantes. Mas, não cita o nome do navio em que viajaram, nem o ano de partida", destaca Décio Aloisio Schauren. Isso levou alguns pesquisadores a supor que o navio teria partido em 1827.

"A informação de que passaram por Bremen para obter documentos do Consulado Brasileiro, dá a entender que partiram de lá. Mas, nas listas dos emigrantes, descobertas na Holanda, está a família de Johannes Spindler, junto com as demais que partiram no navio Helena e Maria", confirma.

A segunda página da carta de Johannes Weber Foto: Divulgação

Os autores

Para escrever o livro A lenda do veleiro Cäcilia - Desvendando um mito, novamente foi firmada uma parceria teuto-brasileira.

Friedrich Hüttenberger

Friedrich Hüttenberger nasceu em 1943, em Kaiserslautern, na Alemanha. Ele estudou Línguas Românicas (francês, italiano, espanhol e português), Inglês e História na Universidade de Saarbrücken, na Alemanha, e Nice, na França. De 1970 a 2020, Hüttenberger ensinou línguas modernas em escolas de gramática na Renânia-Palatinado e na Escola Alemã de Estocolmo. Desde de 1980, ele pesquisa sobre emigrações do Palatinado para a Hungria, a América do Norte e o Brasil.

 

Décio Aloisio Schauren Décio Aloisio Schauren nasceu no dia 21 de junho de 1948 em Arroio do Meio (RS). Ele é formado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Schauren também atua como genealogista e pesquisador da história da imigração alemã no Brasil.



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