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Lesbianidades no Brasil República e a visibilidade lésbica

Parte do título deste post - Lesbianidades no Brasil República - é de uma live realizada recentemente pela doutoranda em História na Brown University e integrante do Centro de Referência da História LGBTQI+ do RS (Close) Augusta de Oliveira (@gutaslvr). Vídeo este disponível no Instagram do perfil @historize.se, que possui um acervo maravilhoso em seu IGTV. A outra parte é porque estamos no mês da visibilidade lésbica - o 29 de agosto é reconhecido como o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.

Para falar mais sobre as duas questões - história e atualidade -, convidei a Guta para um pingue-pongue, um papo rápido e bem esclarecido. E é a graduada e mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que dá o pontapé inicial deste espaço para debatermos diversidade sexual e identidade de gênero. No final do post, tem dicas de filmes e leituras. Bora lá?


Guta, para começarmos, poderia falar um pouco sobre a história das lésbicas enquanto sujeito social no Brasil?

Augusta de Oliveira - Essa história é muito marcada pela invisibilização das experiências de mulheres lésbicas. Violência, espaços de sociabilidade restritos, uma profunda marginalização das que ousavam desviar dos padrões hegemônicos de feminilidade e uma crescente luta por maior visibilidade e representatividade na sociedade nas últimas décadas. Não há uma “história das lésbicas” como aposto da história do Brasil, não são coisas separadas. Apesar disso, é muito fácil simplesmente excluir marcadores de gênero e sexualidade na produção historiográfica. É preciso reconhecer essas vivências, reconhecer a responsabilidade pelo seu apagamento e exclusão na pesquisa acadêmica.


Quando e como foi o surgimento do movimento lésbico no Brasil?

Augusta - O movimento lésbico brasileiro se insere no contexto de ampliação dos movimentos sociais do final da década de 1970 e início da década de 1980, ainda durante a Ditadura Militar. Oriundo da movimentação política homossexual que acontecia em São Paulo, no Grupo Somos, criado em 1979, o grupo Lésbico-Feminista (LF) continuou como subgrupo até 1981. Mais tarde, ativistas deram continuidade ao criarem o Grupo de Ação Lésbica Feminista (Galf), primeira auto-organização independente de lésbicas no Brasil que temos registro até o presente momento. Precursor de movimentos regionais posteriores, o Galf é até hoje é um grupo chave para as pesquisas sobre lesbianidade no Brasil. O boletim Chanacomchana (1981-1987), produzido pelo Galf, fez circular as ideias do grupo no período e é uma fonte rica para o estudo da imprensa lésbica e da reivindicação por visibilidade e protagonismo social.


Quais são as principais pautas do movimento lésbico atualmente e qual sua proximidade com as pautas feministas?

Augusta - As pautas do movimento lésbico são plurais e diversas, como é o próprio movimento. A interação com as pautas feministas é semelhante à aproximação com pautas do movimento negro, do movimento LGBT+. São alianças políticas. A luta de mulheres lésbicas é pela maternidade, por saúde pública de qualidade e inclusiva, pela não fetichização do corpo lésbico, pela representatividade política, pelo fim do sistema de dominação branco e patriarcal e contra a violência e o lesbocídio. Aliado a isso, uma pauta central é a desnaturalização de papéis sociais e de modelos de feminilidade heteronormativos, responsáveis pela reificações de divisões generificadas desiguais, que desconsideram experiências particulares de subjetivação. São muitas as coalizões que possibilitam esses enfrentamentos, que não são independentes entre si. A luta contra o heteropatriarcado, contra o sexismo, o elitismo e o racismo é interseccional.


Você acha que houve influência da mídia, principalmente televisiva, para o apagamento ou construção de estereótipos da figura da mulher lésbica? E como isso influenciou a vida de mulheres lésbicas?

Augusta - A recepção ruim de personagens lésbicas na televisão é sintomática de como a lesbianidade é vista na sociedade. Ainda hoje existe maior quantidade de personagens gays do que de lésbicas na TV aberta. Um debate pertinente é se vale à pena qualquer representatividade, mesmo que sejam personagens estereotipados, mal construídos, que não retratem fielmente experiências comuns de mulheres lésbicas. No fim, é certo que somos influenciadas pelas imagens que vemos (ou não vemos, quando não há representação) ao longo da vida. A estética e representatividade também é parte da nossa constituição como sujeitos, como nos colocamos em sociedade. Quando a ativista Rosely Roth foi ao programa da Hebe Camargo falar sobre ser lésbica em 1985, o Galf recebeu centenas de cartas de mulheres que se viram representadas naquela participação. Isso ainda é poderoso, 35 anos depois.


Atualmente, como você vê as figuras lésbicas serem representadas por cantoras e atrizes publicamente assumidas, produções audiovisuais voltadas a lesbianidade e outros segmentos artísticos que mergulham neste nicho sexual?

Augusta - Não acho que seja um nicho somente sexual, mas um nicho social, constituinte das nossas relações. Vejo como consequência da luta por visibilidade, da luta contra o apagamento dessas experiências e da maior organização de mulheres na produção audiovisual, um meio tradicionalmente dominado por homens. Tudo isso reflete para que se representem as mais diversas realidades na ficção. A mesma coisa vale para as artistas que se assumem. O medo da rejeição e da perda de oportunidades profissionais em decorrência da lesbofobia provavelmente eram fatores que impediam viver assumidas. Naturalmente, isso não mudou completamente, mas mostra que há ao menos uma rede de apoio que possibilita que essas pessoas vivam abertamente.


Em questões raciais e sociais, quais são os panoramas que tu, enquanto pesquisadora, enxergas em relação às vivências da homossexualidade feminina?

Augusta - Nas maneiras de performar feminilidade, na inserção na sociedade. Há uma reivindicação muito grande por parte de lésbicas negras pela resignificação de terminologias como "caminhoneira”, pelo fim da fetichização entre as próprias lésbicas. Parte da luta é pelo reconhecimento de que não há uma experiência única em ser lésbica, visto que somos atravessadas por diferentes marcadores sociais que nos colocam em circunstâncias distintas, opressões que não são operam uniformemente. Não podemos partir do princípio que temos o mesmo lugar de fala. Branquitude, cisgeneridade, classe social, são categorias que nos inserem em sistemas de dominação, dos quais a lesbianidade é um elemento chave, mas que não anula a necessidade de pensarmos de maneira interseccional. Recentemente, uma live sobre experiências de lésbicas butchs foi muito útil pra pensar esse debate (clique aqui para conferir).



Qual a importância da visibilidade lésbica?

Augusta - É demarcar um espaço na sociedade. Desde antes do “Stonewall brasileiro”, como é chamada a resistência lésbica à repressão no Ferro’s Bar, em 1983, a movimentação das lésbicas pautou-se pela demanda por visibilidade e representação. Isso também se insere na ampliação da luta contra a heterossexualidade compulsória do sistema patriarcal. A data do 29 de agosto é referência à primeira edição do Seminário Nacional de Lésbicas - Senale (hoje Senalesbi - o Seminário Nacional de Lésbicas e Mulheres Bissexuais), em 1996, que tratou de direitos humanos e políticas voltadas às lésbicas, organizado por mulheres lésbicas negras. É uma data representativa, que sinaliza nossas vitórias e nos mobiliza para os enfrentamentos contemporâneos.


E, para encerrarmos, uma pergunta complexa e bem pessoal: o que significa, para você, ser lésbica em 2020?

Augusta - É sinônimo de luta política, em todos os âmbitos. Na família, no trabalho, no ambiente acadêmico, nos movimentos sociais. Lutar contra a heteronormatividade e o sistema patriarcal. Ser lésbica é uma das várias coisas que sou, além de historiadora, ciclista, vegana, acadêmica. Pessoalmente, reconheço que tive uma trajetória particular enquanto mulher branca, cis, de classe média. É desse lugar de reconhecimento do meu privilégio que pauto minha luta por justiça social.

Para assistir

Sobre lesbianidades, Guta indica o filme Rafiki (2018), que trata da história de duas jovens quenianas, e recente documentário Secreto e Proibido (2020), sobre a relação longeva entre duas jogadoras de beisebol nos EUA. Este último está diponível na Netflix, veja o trailer:

Para ler

Amora (Natália Borges Polesso): vencedor do Prêmio Jabuti em 2016, na categoria Contos, o livro reúne várias histórias de amor e de vivência lésbica. Você pode seguir a Natália no Instagram, pelo perfil @nataliaborgespolesso.

Revista Brejeiras: é uma publicação independente de e para mulheres lésbicas, atravessada pelo desejo e pela resistência. Só existe na versão física, mas você encontra os perfis do título no Instagram (@revistabrejeiras) e Facebook (fb.me//revistabrejeiras/).

ChanaComChana: a publicação lésbica produzida por ativistas do Galf, e vendida no Ferro’s Bar, foi digitalizada e as edições podem ser conferidas clicando aqui.

Jornal Lampião da Esquina: foi um periódico homossexual brasileiro que circulou durante os anos de 1978 e 1981. A boa noticia é que todas as edições foram digitalizadas e você pode conferir clicando aqui.

Nos anos 70, ninguém foi mais censurado no Brasil do que Cassandra Rios: a escritora Cassandra Rios foi a primeira mulher a vender um milhão de exemplares no País e, infelizmente, a artista mais censurada pela Ditadura Militar. Em 1976, de seus 36 livros publicados até então, 33 estavam proibidos e apreendidos. O Acervo Globo reuniu matérias digitalizadas que falam sobre a perseguição a Cassandra. Você lê clicando aqui.

Poeta Formigão: publicações independentes, com estilo autêntico, no Instagram, sobre vivências lésbicas. O perfil é @formigaoreal e eu separei esse poeminha para você que chegou até o fim deste post (obrigado!):


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