Publicidade
Cotidiano | Gente

Entrevista

Publicado em: 12.06.2021 às 08:30

Fala um pouco sobre a tua relação com a cidade de Novo Hamburgo já que tu és praticamente um hamburguense. Nasceu em Porto Alegre, mas saiu do hospital e já veio para cá…

Werner Schünemann - É, eu me considero hamburguense, sim, porque a minha infância foi aqui. Novo Hamburgo naquela época tinha 30 mil habitantes e eu achava ela uma cidade enorme por causa disso. Foi uma infância muito legal aqui em Novo Hamburgo, na região onde os meus pais moravam, que se chama Vila Rosa. Era uma região que não tinha nem calçamento nas ruas, e era muito bacana para um garoto crescer nessa época aqui. E isso marca a gente, né? As coisas de Novo Hamburgo. É um pouco chocante voltar, passar na Pedro Adams Filho e ver a diferença. A Pedro Adams era muito bonita, ela era mais bonita do que a Bento, essas casas que tinham na Pedro Adams. E ela tá, aquele excesso de letterings e luminosos são muito agressivos, eles não atraem a gente, a gente se sente um pouco intimidado pelo lettering. Eu fico com pena, porque eu volto com vontade de ver aquele vigor que havia, e tinha um vigor, tinha uma coisa indo para frente, tinha uma coisa crescendo, e eu noto só uma histeria ali, não noto vigor.

E com que frequência consegue visitar a cidade?

Werner - Ah, é pouco… Apesar da minha mãe morar aqui. Agora, com a Covid eu não vi mais a minha mãe. Eu estou aqui em Novo Hamburgo, mas eu não vi a minha mãe em função de que sempre, sei lá, a gente fica um pouco preocupado. Ela tá com 84, mas ela é supersaudável, é uma pessoa fisicamente vigorosa, ela tá muito bem. E minha irmã trabalha aqui. Meu irmão não, é Porto Alegre. E eu fico Rio de Janeiro, basicamente, nos últimos 20 anos, mas agora montei uma estrutura em Porto Alegre porque é onde eu quero ficar como base.

Um dia vou terminar meus dias num sítio, com um açude na frente, uns cavalinhos, umas ovelhas, umas galinhas, pescando ali e escrevendo as minhas coisas.

Em vez de usar o Rio de Janeiro como base, e ficar pipocando em São Paulo, onde eu trabalho muito, e Porto Alegre, onde está meu filho, agora não, agora eu estou centrado em Porto Alegre e tenho lá o apoio no Rio de Janeiro. A estrutura menor, digamos assim, é no Rio de Janeiro. E eu acho que é o melhor porque eu não me adaptei muito bem fora. Nesses 20 anos, não consegui me adaptar.

Com o que exatamente?

Werner - Não sei, em São Paulo é superfácil, eu passo três meses em São Paulo e eu sou paulista. No Rio de Janeiro não rolou.

Para morar, então, Rio Grande do Sul...

Werner - Para morar, Rio Grande do Sul. Um dia vou terminar meus dias num sítio, com um açude na frente, uns cavalinhos, umas ovelhas, umas galinhas, pescando ali e escrevendo as minhas coisas… E pegando um avião quando precisar fazer algum trabalho.

Falando em escrever, eu soube que você estava escrevendo bastante nessa pandemia, né? Como está sendo esse processo?

Werner - Eu via as pessoas ao meu redor, começou a ficar uma coisa assim: ‘eu me sento de manhã, começo a ver séries no sofá, fico comendo pipoca, não sei o que’. E eu disse: ‘cara, eu vou fazer só isso?’ E resolvi retomar uma coisa que eu tinha largado há uns 30 anos, que era escrever. E comecei escrevendo uma peça, ficou bacana a peça, e eu disse: ‘vou pegar o meu romance’. E esse romance já tem editora. Vai ter lançamento Brasil-Portugal ainda este ano. Além disso, tem mais dois livros, mas não é romance, são histórias mais curtas, que eu escrevi e fiz toda a revisão, porque eu consegui me disciplinar muito para este período. Às 8h30, eu abro o escritório, todos os dias. Esteja ou não inspirado.

Vai de pijama?

Werner - Não, eu me visto. O (Miguel) Falabella uma vez me disse: ‘olha, tem que escrever no mínimo uma página por dia, nem que seja para jogar fora, mas não pode deixar de escrever.’ Cara uma página por dia, quando você termina aquela página, já tá fazendo a segunda. Pode jogar fora? Muitas vezes joga fora, mas aquelas ideias ali, elas estão entrando num outro lugar e você só vai mudar formalmente. Eu não faço domingo e sábado, então eu trabalho corrido. Porque eu tô recolhido em casa, qual é a diferença de sábado, domingo e segunda? Não faz diferença nenhuma. Então, eu vou escrevendo. Com o maior prazer eu fico vivendo naquele mundo, naquela história da ficção, eu gosto disso.

E que tipo de história é?

Werner - O primeiro livro chama-se Alice deve estar Viva. Acho que é a primeira vez que eu falo disso numa entrevista. É muito legal. É um romance, com uma perseguição e busca, mas ao mesmo tempo uma história de um relacionamento meio impossível. Uma história ágil, da minha experiência de escrever cinema, né?

De onde veio a inspiração?

Werner - Veio de mim, eu vivo de fantasia, criei meus filhos com isso.

Como está a tua carreira no cinema, na TV?

Werner - Na TV, os trabalhos foram suspensos. Nas outras duas vezes em que a Globo tentou voltar a trabalhar, deu problema e parou de novo. Na última, foi acho que em dezembro, ou janeiro, chamaram a equipe de uma novela para fazer uma reunião de elenco, aquelas reuniões grandes, e 24 estavam positivos para o vírus. Aí cancelaram tudo de novo. O Projac tem umas 9 mil pessoas lá trabalhando. E dentro do estúdio, fechado, é fácil virar uma epidemia, uma pandemia. O meu trabalho era uma série, que seria rodada em São Paulo… Eu saí da novela “Éramos Seis”, no dia 12 de março (de 2020) foi o último capítulo. Treze, 14 e 15 nós estávamos fazendo uma leitura da série com o elenco todo e uma parte da equipe. Aí teve um intervalo em que eu não precisava estar lá, resolvi passar três dias em Porto Alegre para ver meu filho. No dia 17, tudo foi fechado, inclusive o transporte aéreo. E fiquei, não saí mais. Aquele trabalho está suspenso. A novela que eu ia fazer, uma novela das 9, está suspensa, suspensa assim: olha, parece que é no segundo semestre de 2022. É tudo 2022, 2022, 2022. Aqueles oito, dez trabalhos simultâneos que a Globo faz, em vários estágios, não tem, tá parado. O cinema está muito parado em função de que todas as fontes financiadoras estão muito resistentes.

Está faltando verba…

Werner - O governo federal, na verdade a presidência da República, fala contra uma determinada lei de incentivo, apesar de ele não poder fazer nada porque é uma lei, isso não está na atribuição de um presidente legislar. Mesmo assim, o empresário fica atento: ‘vamos esperar um pouquinho, vamos esperar esse governo passar, vamos dar um tempo’. 

Não existe uma ideia, uma proposta cultural, no atual governo. Não tem nenhum tipo de projeto, ideia, proposta, só tem a proposta de destruição.

Tá todo mundo assim, grandes empresas, grandes grupos econômicos, que são aqueles que normalmente incentivam, usam seu imposto de renda, não é dinheiro da empresa, é o dinheiro do imposto de renda, usam para colocar em produção cultural, isso tudo, o pessoal está muito ressabiado.

Como é que o meio artístico está vendo isso?

Werner - Vivendo. Como é que o meio artístico está vivendo? Muito difícil.

Primeiro, a gente viu a cultura saindo de um status de ministério para uma secretaria, depois, uma série de acontecimentos e troca de gestores dessa pasta…

Werner - Não existe uma ideia, uma proposta cultural, no atual governo, não tem nenhum tipo de projeto, ideia, proposta, só tem a proposta de destruição. Mas digo assim: ‘olha só, nós queremos fazer um programa cultural, que o Brasil se volte para esse tipo de coisa aqui, com isso aqui na música, isso lá no teatro, um cinema desse tipo’... Não, não tem nada. Você não consegue se opor porque não tem ideias. Nunca tivemos esse tipo de postura por parte de nenhum tipo de governo, de qualquer tipo de orientação, seja de direita, de centro ou de esquerda.

E não tem perspectiva…

Werner - Não, daí acontece isso… Se você pegar a média dos meus últimos 20 anos, eu fiz uma novela por ano, fiz dois, três filmes por ano. Agora, eu tenho um filme, faço esse filme média, vou fazer um filme agora em Belo Horizonte. Mas não tem uma atividade permanente como ela era. Eu tenho 42 anos de carreira, eu cheguei num ponto em que eu trabalho sem parar, não tenho problema de demanda. Mas parou...

Conta um pouquinho do filme Moscow e dos projetos daqui para frente. Onde o público vai poder te encontrar?

Werner - Moscow é um filme muito legal, um filme de gângster, a história desse gângster, a filha dele, a Thaila Ayala, que é minha filha, e nós temos um clube jazz, onde é a sede dessa espécie de máfia, que é uma mistura de máfia russa com máfia italiana. Passa numa cidade fictícia, um filme muito violento, meu personagem é muito violento, um filme meio Tarantino.

E já tem data de estreia?

Werner - Não, falei com o diretor na semana passada. Não tem data. Tá todo mundo esperando a pandemia passar, ninguém vai estrear no meio da pandemia. O filme que eu fiz há duas semanas foi rodado aqui em Pareci Novo, do lado de Montenegro. Uma cidade muito bacana, nos recebeu muito bem, o pessoal muito profissional lá, o pessoal da prefeitura lá. E foi uma grata surpresa descobrir esse município tão disposto a trabalhar uma proposta cultural. É uma história muito bonita sobre um homem abusivo. É um filme difícil, um personagem muito forte de fazer, mas ao mesmo tempo vai ser um belo filme. Um filme desses para a gente pensar sobre essa violência excessiva das pessoas.

Ele foi todo rodado em Pareci?

Werner - Todinho. Durante oito dias. É um filme curto. Mas Moscow é um longa-metragem feito em 13. Os filmes agora são rapidíssimos. Eu tô ensaiando teatro e cinema, esse filme também, Moscow também, ensaiando online. Cada um na sua casa, a gente ensaia, ensaia, ensaia. E quando a gente se reúne já é um estágio posterior, já saiu da leitura de mesa, já vai direto.

E tem mais novidades?

Werner - Tem novidades sim. Tem um filme que deve sair, filme sempre a gente não sabe, quando a gente acha que ele vai sair, ele para e leva quatro anos. Mas deve sair um filme sobre um soldado, um cabo do Exército Brasileiro, que foi voluntário para a 2ª Guerra Mundial e morreu lá. Chama-se Cabo Weber o filme. E a princípio vai sair, já tem elenco, tem tudo, não vou falar, mas é um filme dirigido por duas pessoas, uma pessoa que não sabe dirigir e que quer dirigir comigo, que é o Thiago Lacerda. E nós vamos trabalhar juntos nesse filme e em mais um depois, mas sobre esse eu não posso falar. E tem um filme que eu vou fazer, agora, no inÍcio de agosto, que chama O Martelo e a Coroa, que é o encontro do Nietzsche com O Dom Pedro II, sendo que eu faço o Dom Pedro II, num vagão de trem, no interior da Sardenha (ilha do mar Mediterrâneo). Esse vai ser rodado em BH (Belo Horizonte). Então, tem coisas acontecendo, apesar das dificuldades da gente. Eu estou apenas com 42 anos de carreira, já fiz a primeira terça parte, faltam mais dois terços. Vou fazer muita coisa ainda.

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.