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Criptomoeda e promessa de lucro mensal de até 15% atraem investidores da região

Em Novo Hamburgo, volume de contratos na cidade é tão alto que cartório, onde são reconhecidas assinaturas, precisou de funcionário extra

Última atualização: 20.02.2019 às 17:26

João Carlos Ávila e Nicolle Frapiccini

Em 2009, o mundo ouviu pela primeira vez o termo criptomoeda. Dez anos depois, a possibilidade de ganhos fáceis e significativos, acima de qualquer outro índice proporcionado pelo mercado financeiro, leva a uma verdadeira corrida a este tipo de investimento na região. Desde meados do ano passado, investidores dos mais diferentes níveis e recursos procuram corretoras especializadas neste negócio, para investimentos que variam de R$ 1 mil a R$ 100 mil e promessa, no caso de uma empresa local que atraiu as atenções, de ganhos mensais de até 15%.

O movimento é tanto, que o Tabelionato Fischer, um dos locais onde contratos celebrados pela Indel vem sendo autenticados, precisou de um funcionário extra só para tratar destes casos. O Tabelionato Barreto também presta o serviço e, conforme uma funcionária, a mesma Indeal têm demanda "bastante grande" de reconhecimentos. O assunto já causa polêmica e preocupação em investidores, além de despertar a desconfiança em especialistas.

A possibilidade de ganhos fáceis e significativos fez acender o sinal de alerta. Especialista em mercado financeiro, André Momberger diz que milagre não existe: "É impossível manter esse ganho de forma constante e garantida." A Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha (ACI-NH/CB/EV) não esconde a preocupação com o assunto.

Em Novo Hamburgo, a InDeal, que se apresenta como corretora especializada em fazer uma cesta média, vem dizendo garantir o rendimento e, por isso, tem atraído, ao mesmo tempo, atenção de investidores e o receio de especialistas. "É grande o volume de contratos de investimentos em moedas virtuais desta empresa", diz o tabelião Flávio Fischer. "E todos os contratos são neste sentido: oferecer rendimento mínimo garantido", acrescenta. O Jornal NH tentou contato com representantes da InDeal, a fim de esclarecer como são os investimentos e de onde vem a garantia, mas não obteve retorno.

Em 2017, as criptomoedas atingiram o auge, com a mais conhecida delas, a Bitcoin, alcançando valorização de 1.300%. No ano passado esta euforia recuou e a mesma moeda virtual desvalorizou 80%. Em Novo Hamburgo e em outras cidades da região, o clima parece ser de entusiasmo. Mas a dúvida é se ele permanecerá ou se, a exemplo do cenário global, pode se transformar em frustração.

arte criptomoeda

Movimento começou ano passado

A febre dos investimentos em criptomoedas, em Novo Hamburgo, começou a ser mais visível nos tabelionatos locais entre junho e julho do ano passado e teve seu pico de movimento em setembro. Nos dois tabelionatos, uma mesma empresa, a InDeal, concentra a maioria dos contratos. "Não se faz análise jurídica. Fizemos o reconhecimento de firma (assinaturas) destes documentos", explica a funcionária do Barreto.

Foto por: GES
Descrição da foto: FISCHER: amigos já perderam
Fischer explica que trata-se de uma corretora de moedas virtuais. "Nestas condições, fazem contratos de investimento e dizem ter uma cesta de produtos e selecionam de acordo com o mercado para que tenha retorno garantido", explica o tabelião. E faz um comparativo com o mundo não virtual, quando os corretores oferecem aplicações em empresas que oferecem menos risco de perdas.

Fica a dúvida, no entanto, da garantia de retorno. "O rendimento oferecido é bem acima de outros do mercado financeiro", acrescenta. Ao mesmo tempo, o tabelião, considerado um cidadão tecnológico, não investe neste mercado. "É um negócio muito misterioso, não compreendo como funciona a criptomoeda." E revela que amigos seus que investiram neste mercado estão perdendo dinheiro.

Funcionário oferece ganhos de até 15%

Pessoa interessada em investir nas criptomoedas procurou o escritório da InDeal esta semana. O funcionário que atendeu trabalha há oito meses na empresa e ofereceu rendimento de 15% ao mês, com aporte mínimo de R$ 1.200. O contrato é de 30 dias, mas, se o investidor quiser resgatar antes, o rendimento cai para 7,5%.

A corretora aceita investimentos de pessoa física e jurídica, mas exige que seja informado nome completo, CPF, RG, e tem que ser maior de idade. Diz, ainda, que é feito um contrato reconhecido em cartório e a pessoa abre uma conta na InDeal, "que não se trata de pirâmide".

Além de investimentos, explica este funcionário, a InDeal também já estaria no mercado das máquinas de cartões. Faz parceria com comércio, com a possibilidade de disponibilização, sem custo e com possibilidade de ganhos ao comerciante.

Arte criptomoeda

Garantia de lucro é incerta

O administrador de empresas com especialização em mercado de capitais e sócio-fundador da Focus Invest, André Momberger, conta que no mercado financeiro existem instrumentos onde é possível ganhar qualquer coisa. "Ganhar 20, 50% em um mês é possível, mas é impossível manter esse ganho de forma constante e garantida", fala. Momberger lembra que em janeiro deste ano o Ibovespa subiu quase 11%, mas alguns índices fecharam com alta de 40%.

"Agora, em fevereiro, o Ibovespa está caindo 4% e aquela ação que subiu 40% em janeiro está com queda de 15%. É um mercado de risco de volatilidade", fala o administrador, ao dizer que não existe a menor possibilidade de ter garantia de lucros dessa magnitude. "Muito menos no mercado de criptomoedas. Além de ser um mercado não regulado, é ainda mais volátil e que está neste momento em decadência. Eles (os clientes) vêm consultar a gente porque é uma proposta sedutora. Isso é estelionato por meio de pirâmide financeira. É uma proposta sedutora e aciona o instinto da ganância," finaliza o consultor.

Para ACI, riscos são elevados

Nas reuniões mensais do Conselho Jurídico da ACI do ano passado, o risco dos investimentos no mercado financeiro, principalmente quando relacionados às criptomoedas, já estava em pauta. E na próxima semana, no primeiro encontro do grupo, o assunto deve voltar a ser debatido, conta a vice-presidente Jurídica da entidade, Izabela Lehn Duarte. "Um ganho de 15% por mês é bem elevado e podemos dizer que merece uma atenção das pessoas em saber qual é o histórico dessa empresa, a comparação com outros investimentos, entre outros cuidados. É um mercado ainda incipiente, os riscos são mais elevados. Hoje está em alta, amanhã pode não existir mais nada", afirma Izabela, ao frisar que nessa área as coisas mudam muito rápido.

A vice-presidente destaca ainda que não temos no País uma instituição que controle esses investimentos em criptomoedas. "É uma situação importante, a palavra da vez seria cautela. É uma questão que merece avaliação. É um mercado novo e não ter uma regulamentação fica mais arriscado. Os riscos que as pessoas estão correndo me parecem mais elevados", pontua Izabela, ao dizer que a ACI está atenta. "Orientamos as pessoas que vão investir a buscar um consultor financeiro de confiança para não investir todo o seu dinheiro em algo volátil."

Economista alerta para o mercado

“Na economia não existe almoço de graça, alguém está pagando a conta”, fala a economista e professora da Feevale Lisiane Fonseca da Silva. Para ela, nenhuma aplicação financeira que não tenha certo risco remunera a uma taxa tão alta. Sobre as empresas que garantem um ganho de capital de até 15% nos contratos de operações de criptomoedas, a economista salienta que se isso está em contrato tem que ser cumprido. “A empresa tem que pagar isso que está no contrato, até se no meio do caminho a criptomoeda tem uma desvalorização, como já aconteceu. Agora, provavelmente tenha uma cláusula no contrato que fale da volatilidade do mercado financeiro.”

E no contrato da InDeal, a cláusula VIII ratifica que “sempre que a prestadora contratada julgar necessário, visando adequações às mudanças de mercado, podendo promover alterações no presente contrato”, consta no documento. “Se já diz que pode ter ajustes, o contrato já está dizendo que os 15% não estão garantidos. Se pensar em outros indicadores do mercado financeiro, este índice é muito fora do contexto”, pontua Lisiane, ao comentar que caso a empresa, realmente, entregue esse ganho, esta é uma aplicação muito fora da curva. “Se tiver ganho nesta operação é muito alto, mas se tiver perda, também pode ser alta.”

Independentemente do investimento de alto risco, a professora orienta a procurar o histórico da empresa, avaliar bem os termos do contrato para se calçar em relação ao que está sendo condicionado.

Entenda

CRIPTOMOEDA

Meio de troca descentralizado que se utiliza da tecnologia de blockchain e da criptografia para assegurar a validade das transações e a criação de novas unidades da moeda. É produzida, coletivamente, por um sistema de criptomoeda a uma razão definida quando o sistema é criado e disponível publicamente. Os recursos técnicos sobre quais moedas descentralizadas são baseadas foram criados pelo grupo (ou indivíduo) conhecido como Satoshi Nakamoto.

DERIVAÇÕES

Centenas de especificações de criptomoedas existem, a grande maioria sendo similar e derivada da primeira moeda descentralizada implementada, a Bitcoin.

BITCOIN

A primeira criptomoeda descentralizada, criada em 2009 por um usuário que usou o pseudônimo Satoshi Nakamoto. Desde então, muitas outras criptomoedas foram criadas.

SATOSHI NAKAMOTO

É o pseudônimo utilizado pela pessoa ou pessoas que criaram a moeda virtual Bitcoin. Há diversas teorias a respeito de quem poderia estar por trás da verdadeira identidade de Satoshi Nakamoto, mas por enquanto são apenas especulações.

O COMEÇO

Em 2009, Nakamoto apresentou o conceito Bitcoin no grupo de discussões chamado The Cryptography Mailing. Em 2009, lançou a rede Bitcoin que começa a funcionar com o lançamento do primeiro cliente Bitcoin open source e a emissão das primeiras Bitcoins.

QUANTO VALE

Ontem, ao final do dia, um Bitcoin valia R$ 13.274,29. Como tem fortuna avaliada em 1 milhão de Bitcoins, Nakamoto já teria acumulado o equivalente a R$ 13,2 bilhões.

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