Publicidade
Notícias Em crescimento

Polo de logística: por que os gigantes do comércio estão instalados na região

Influenciadas pela expansão on-line, empresas implantam Centros de Distribuição (CDs) na Região Metropolitana e Vale do Sinos

Por Bianca Dilly
Publicado em: 08.05.2021 às 07:00

Centro Logístico de Nova Santa Rita abriga a Amazon Foto: Marcelo Collar/GES-Especial
A organização funciona como em uma esteira de fábrica. Cada etapa é planejada e previamente calculada. Primeiro, recebe o material. Armazena no local indicado. Quando chega a encomenda, é a vez de retirá-lo da prateleira. Carrega. Planeja a rota. Destina para o endereço de entrega. Blim, blom. Campainha tocou e o pedido chegou.

É tudo rapidamente preparado, chegando a tempos recordes. O que costumava demorar cerca de uma semana, está batendo na porta de casa no dia seguinte à compra. E muito disso se deve a uma questão, em especial. Já reparou na quantidade de grandes armazéns que estão surgindo? São os Centros de Distribuição (CDs) instalados por empresas, que vêm ampliando cada vez mais espaços na Região Metropolitana e Vale do Sinos.

Como exemplos, há a chegada da Amazon no maior parque logístico do Estado, o 3SB, em Nova Santa Rita, onde uma grande rede de refrigerados também foi anunciada na última semana; além da Magalu, Lebes e Droga Raia na RS-118, em Gravataí; Quero-Quero na RS-239, em Sapiranga; Johann Alimentos, em Estância Velha; e Fruki, em Canoas.

Polo de logística

É um movimento que surge nos últimos anos, delineando um novo polo na região: o de logística. E ele aponta para uma tendência nacional. Apenas 14,3% dos condomínios logísticos de alto padrão fecharam 2020 sem ocupação. A taxa é a menor desde 2013, conforme a companhia JLL.

Na região, o Sindicato da Habitação (Secovi-RS) e a Associação Gaúcha de Empresas do Mercado Imobiliário (Agademi) informam que ainda não há dados oficiais de acompanhamento para este segmento, mas confirmam a expansão. "Trabalhamos com amostragem e temos percebido uma redução no número de ofertas, porém, não podemos afirmar se foram alugados e também para qual finalidade", diz, em nota.

On-line é definitivo

Há diferentes motivos que impulsionam o crescimento na procura pelos CDs, mas um deles interfere no resultado. "Houve um aumento muito grande do comércio on-line e do volume de compras. A pandemia acelerou esse processo, até porque estando mais em casa e a exigência do consumidor quanto a prazos também está aumentando", afirma o professor do programa de pós-graduação em Ciências Contábeis da Unisinos Roberto Frota Decourt.

De acordo com pesquisa da agência Conversion, o e-commerce no Brasil cresceu 40% em março deste ano, em um comparativo com o mesmo período de 2020. Nos últimos 12 meses, foram mais de 20 bilhões de acessos a este tipo de site. Samsung, Extra, Magazine Luiza e Amazon Brasil estão entre os que mais cresceram: acima dos 50%, se forem levados em consideração também os meses de março de ambos os anos.

Centros de Distribuição Melhorias em rodovias

Mas não é o único fator que contribui para a difusão dos antigos "galpões". "Outro ponto que faz parte dessa disparada é o investimento em infraestrutura. Aqui, podemos citar a BR-448, a finalização da BR-101 até Santa Catarina e a duplicação da RS-118", exemplifica o professor de Gestão da Produção Industrial da Universidade Feevale Fabiano Nunes.

Como 60 a 65% da logística brasileira é formada pelo modal rodoviário, Nunes diz que o resultado não seria outro. "Para os CDs, as rodovias precisam ter acesso muito rápido, possibilitando a chegada de material. Só assim, há um escoamento forte", resume. E depois das estradas principais, a distribuição é ramificada. "É o que chamamos de capilarizar. A última milha é feita com pequenos fornecedores de transporte, muito regionais. Novo Hamburgo já tem empresas com pessoal exclusivo para isso, assim como Esteio e Canoas."

Com a migração dos empreendimentos para cá, Decourt detalha que há outras vantagens. "Na capital, os espaços são muito mais caros, mais antigos e com pouco espaço de armazenagem. Na Região Metropolitana, permanecem perto de grandes centros, têm a possibilidade de compartilhar áreas, já que são maiores, e há aumento de escala", pontua.


Novos negócios garantem ampliação

Para seguir com a ampliação do polo logístico regional, as boas notícias continuam a chegar. Na última semana, uma nova empresa anunciou a implementação no parque de Nova Santa Rita. Trata-se da Superfrio, considerada a maior operadora brasileira de serviços logísticos em ambientes com temperatura controlada, ou seja, de refrigerados e congelados. O investimento é de cerca de R$ 23 milhões, em uma área de 12 mil metros quadrados no 3SB. De acordo com o prefeito nova santarritense, Rodrigo Battistella, a companhia está finalizando o licenciamento para poder iniciar o trabalho. A expectativa é de que 300 empregos diretos e indiretos sejam gerados. Além disso, as negociações para novos CDs não param. Uma delas é a do novo centro da rede de farmácias São João, que estuda a implementação entre as cidades de Nova Santa Rita, Canoas e Gravataí. Outras, dos setores calçadista e supermercadista, analisam o eixo da RS-239 no Vale do Sinos.

Parques expandidos e com novas possibilidades de mercado

Quem passa ocasionalmente pelas principais rodovias da região pode ter se impressionado com o crescimento do segmento nos últimos tempos. O retorno do Litoral Norte pela RS-118, 20 anos depois de esperar a duplicação, rendeu mais do que apenas a surpresa com a estrada em si. É porque o condomínio logístico GLP, em Gravataí, ganhou novos adeptos, a exemplo do 3SB. Além de ser o maior do Estado, o parque de Nova Santa Rita segue trabalhando com ampliações, como ocorre com a Superfrio. "Atualmente, temos 150 mil metros quadrados de área construída e iniciamos a implementação de mais 25 mil. O total que a área comporta vai a 205 mil metros quadrados", afirma o sócio de ambos os empreendimentos Eltamar Salvadoril.

Segundo o professor Decourt, há outra explicação para isso. O e-commerce, que impulsionou os CDs, também é estimulado pelos marketplaces. "Hoje em dia, cada vez mais a loja vai perdendo importância, enquanto que o centro de distribuição ganha relevância. E os sites de vendas são fundamentais para isso. Milhares de pequenos lojistas utilizam as plataformas dos grandes, como a própria Amazon, Magalu e Americanas, ligando-se aos sites delas", descreve. Nestes locais, também podem ficar estoques das lojas menores. É por tudo isso que a desistência do Mercado Livre, que abriria um CD em Gravataí, foi tão sentida. "Quando o RS perdeu a instalação para Santa Catarina foi uma tristeza", aponta, sobre o imbróglio que envolveu a questão de tributos.

Municípios e a região saem ganhando

As empresas e os consumidores não são os únicos que ganham com a instalação dos CDs na região. Para os municípios, os novos negócios são um alívio na contramão da crise econômica, como é o caso de Nova Santa Rita. "As empresas começaram a se instalar pela facilidade de acesso. Com isso, vieram grandes logísticas, também beneficiadas pela desburocratização", afirma o secretário municipal da Indústria, Comércio e Desenvolvimento, Moacir Serpa Godoi. A partir disso, ficam visíveis as transformações no município. "Há um número considerável de novos moradores, empreendimentos imobiliários em expansão, refletindo no comércio e na prestação de serviços, impulsionando novas atividades, gerando um efeito multiplicador com externalidades positivas para toda a economia local e com reflexos regionais", completa.

Empregos gerados e mão de obra mobilizada

Se forem considerados quatro dos novos centros abertos, mais de quatro mil empregos diretos e indiretos já foram gerados. Com isso, a mão de obra é mobilizada na região. "Percebemos que o crescimento da logística vem trazendo a busca por esta formação nas diversas unidades operacionais do Senai", comenta o gerente de operações do Instituto Senai de Tecnologia em Logística Industrial, Rodrigo Ourives da Silva. De acordo com ele, questões de produção a entrega passam a receber mais atenção. "Gerando a busca por cursos de gestão que exploram custos industriais, processos de exportação e processos produtivos", diz. Sem falar de conhecimentos mais tradicionais necessários nestes espaços, como o de assistente administrativo, auxiliar de depósito, entre outros.

A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos no Rio Grande do Sul (ABRH-RS), Crismeri Corrêa, ressalta que os CDs são uma oportunidade de trabalho e desenvolvimento. "As empresas estão investindo pesado nisso e é um movimento que veio para ficar. Por isso, a nossa dica é que os trabalhadores se especializem nas questões logísticas, de dados", sublinha.

Tecnologia ainda pode ser melhor explorada

Com o gerenciamento pelos gigantes do mercado, os CDs ganham em tecnologia. "Se pegamos os centros modernos, eles estão utilizando intercâmbio eletrônico de dados. Tudo é monitorado, desde quando o produto saiu da prateleira", frisa o especialista em ciências contábeis, ressaltando que assim há menor perda de material e maior ganho econômico. Porém, o professor de gestão da produção industrial adverte que falta muito para chegar ao nível de países desenvolvidos. "Há pouca automação nos armazéns, poucos robôs funcionando. Por que ainda não estamos fazendo testes com entregas em drones, por exemplo?", questiona.

A partir dos CDs, a roda da economia gira

Na maioria dos CDs da região, há mais coisas em comum. Uma delas é a empresa SH Estruturas Metálicas, de Novo Hamburgo, que foi a responsável por erguer grande parte das estruturas. "Começamos com os centros logísticos em 1995. De lá para cá, já fizemos CDs em todo o Brasil", conta o diretor comercial, Gerson Paulli. E foi há três ou quatro anos, também com o incremento do comércio eletrônico, que o negócio expandiu de vez. "Estamos com a produção a pleno e a expectativa é de manter isso nos próximos dois anos", acrescenta. Até o momento, todos os espaços que foram construídos estão ocupados.

O exemplo mostra que a partir dos empreendimentos, a roda da economia gira para toda a região. "Os CDs também movimentam o comércio local, com a instalação e ampliação das atividades do comércio e da prestação de serviços. Assim, geram novas oportunidades de emprego e renda", afirma o secretário nova santarritense. Ainda que determinados municípios não tenham recebido as empresas, podem participar do processo de outra forma. "Fornecendo matéria-prima e mão de obra, por exemplo. Com os trabalhadores tendo renda, voltam para as cidades de origem e consomem. Até salões de beleza, restaurantes, instituições de ensino são beneficiadas", detalha Decourt.

Investimentos podem acelerar processo

Apesar dos avanços no polo logístico, é possível fazer mais. Para isso, o professor Nunes avalia que outros investimentos são necessários. "Um deles é o advento do Porto Santa Clara, em Triunfo, que deve fazer crescer o escoamento", analisa. Nesse sentido, o Porto de Itapeva também é citado. "Vai facilitar a importação e exportação da Serra, causando impacto na Rota do Sol e no Litoral", diz. Por fim, ele avalia dois pontos estratégicos. "Pelos nossos estudos, a região de Canoas é o melhor ponto no RS. Tem o acesso rodoviário, fluvial e ferroviário, tão escasso no País", aponta. A vantagem é confirmada pela secretária de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Inovação, Simone Sabin. "Com acesso facilitado para as rodovias, como a BR-386, BR-448, BR-116 e outras, estamos bem posicionados geograficamente. Atrativos não faltam e temos projetos de ampliação dos parques já existentes, como o Parque Canoas de Inovação e o Parque Jorge Lanner", diz. Além do caso de Canoas, o professor lembra de outro endereço com potencial. "É a Scharlau, que fica em um ponto estratégico. Se a BR-448 chegar até lá, atenderá à região da Serra", conclui.

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.