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Notícias | Especial Coronavírus Pandemia no RS

Entre a coleta e os resultados: entenda por que a demora para os laudos de coronavírus

Sobrecarregado, Lacen do Rio Grande do Sul não dá conta da demanda de exames e expõe fragilidade na testagem rápida para Covid-19

Por Micheli Aguiar
Última atualização: 26.03.2020 às 18:43

Brasil não tem testes para comprovar coronavírus em toda a população que manifestar sintomas Foto: Agência Brasil
"Testar e isolar." Esta é a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) a todos os países que vivem a pandemia do novo coronavírus. Mas como pôr em prática a orientação de conseguir rastrear toda e qualquer suspeita de infecção com número insuficiente de testes, laboratórios com capacidade limitada, insumo em falta e demanda crescente por laudos? O desafio é grande e parece não existir solução imediata para municípios, Estados e a União. Para muitos especialistas, o Brasil vê apenas a ponta do iceberg provocado pelo vírus Sars-Cov-2. 

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Com mais de 250 mil habitantes, Novo Hamburgo, a maior cidade do Vale do Sinos, ainda não testou nenhum paciente para coronavírus, o que não é a realidade. A própria prefeita Fatima Daudt já admitiu que o vírus está circulando pelo Município, o que justifica a necessidade de seguir a quarentena. Os quatro pacientes que já tiveram Covid-19 confirmados são moradores de outras cidades da região – dois de Campo Bom, um de São Leopoldo e um de Estância Velha – que procuram atendimento na rede privada de Saúde no Município.

Para entender esta situação é preciso olhar por duas óticas. Uma delas é que nem todo o paciente com sintomas – os mais expressivos: febre, coriza, dor no corpo e falta de ar – tem material coletado para análise de coronavírus. A indicação é que apenas pacientes com sintomas graves e que necessitem de internação tenham material coletado. Isso ajuda a mascarar os dados reais, uma vez que não é possível atestar com exatidão os pacientes em isolamento domiciliar e com sintomas brandos. O outro ponto de leitura é a estrutura limitada do Laboratório Central do Estado (Lacen). Com pouco investimento nos últimos anos, o Lacen se tornou local onde só cresce uma fila por respostas.

Segundo o Estado, desde o dia 6 de março, quando o laboratório começou a realizar o procedimento, já foram feitos pouco mais de 2,6 mil testes no Rio Grande do Sul, o que dá uma média 162,5 exames por dia e mostra que o Lacen precisa de ajuda. A referência do Estado pede 72 horas para diagnosticar o novo coronavírus. Esse tempo conta a partir da chegada das amostras na unidade, em Porto Alegre, e não considera o período entre a coleta e o envio, que são de responsabilidade dos municípios.

Citando novamente Novo Hamburgo como exemplo, os 10 exames de moradores da cidade feitos somente nesta quinta-feira (26) pelo Lacen, foram de coletas realizadas entre a última quinta-feira (dia 19) e o domingo (dia 22), mas que chegaram ao laboratório entre segunda e terça-feira. "Em algumas das amostras foi possível ter o diagnóstico final de um dia para o outro, inferior ao prazo estimado de até três dias", destacou a assessoria do Estado. A previsão da Secretaria Estadual da Saúde (SES), lá no início, era que Lacen atestasse em 48 horas o laudo. 

Feevale e UFRGS assumirão papel importante

A experiência internacional mostra que países que adotaram a testagem em massa na população e de forma rápida, como a Coreia do Sul, por exemplo, conseguiram controlar melhoro avanço do coronavírus. Os municípios já perceberam que não poderão contar somente com o Lacen para que isso ocorra. Por isso, parcerias como a firmada com a Universidade Feevale se mostram positivas. O laboratório da instituição conseguirá testar até 50 amostras por dia, com resultado liberado entre 24 e 48 horas. Os municípios farão a divulgação dos casos confirmados e descartados.

Amostra inativa de sars-cov-2 chegou à Feevale Foto: Carlos Rissotto/GES-Especial

Segundo a universidade, as análises devem começar na próxima segunda-feira, dia 30, pois ainda são aguardados alguns reagentes. Novo Hamburgo, Campo Bom e demais cidades que integram a Associação dos Municípios do Vale do Rio dos Sinos (Amvars), além de Esteio, já firmaram acordo. Elas entram com os kits e a universidade com o laboratório. Campo Bom já sinalizou a compra de mil kits. A cidade tem dois casos confirmados de Covid-19, entre eles o primeiro do Rio Grande do Sul.

Em socorro ao Lacen, o Instituto de Ciências Básicas da Saúde (ICBS) da UFRGS também entra na jogada nas próximas semanas.Segundo a diretora do ICBS, Ilma Brum da Silva, voluntários já foram convocados e devem ser capacitados nos próximos dias. Quando começar, o instituto conseguirá fazer de 400 a 500 exames por dia, podendo chegar a 1,8 mil diários, após aquisição de um novo equipamento.

Testes rápidos ainda sem previsão de chegar

Nesta quinta-feira, o Brasil completa um mês do primeiro caso confirmado no País e o Ministério da Saúde admite que devemos ter aumento significativo nos registros de Covid-19. Em casos de vírus já conhecidos, como o H1N1, H2N3 e Influenza B, sabe-se que o ápice ocorre entre a 17ª e 23ª semana epidemiológica. Segundo o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, podemos esperar o mesmo do coronavírus. O Brasil está com 2.915 casos e 77 mortes.

Para tentar rastrear o máximo possível do coronavírus, o Brasil deve usar testes rápidos. A Anvisa aprovou pouco mais de uma dezena de novos tipos de testes para diagnosticar a Covid-19 e o Ministério da Saúde anunciou a compra de 10 milhões de testes rápidos de um fornecedor chinês. Na última terça-feira, o governo disse que ampliará para 22,9 milhões o número de testes disponíveis.

A previsão de chegada aos municípios ainda é incerta. Novo Hamburgo já afirmou que ainda não teve sinalização do recebimento dos testes. Sabe-se, no entanto, que 2 milhões de testes estão reservados aos profissionais de saúde.


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