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O apoio para reconstrução da vida após a violência doméstica

Vítima conta sua história e descreve como a rede de apoio de Novo Hamburgo foi importante para a retomada de sua vida Reportagem: Suélen Schaumloeffel

“Quando eu criei coragem de fugir, eu corri e só parei quando entrei no Viva Mulher. Foi ali que eu me senti segura depois de muito tempo”. É assim que Ana (nome fictício) descreve o início de sua reconstrução como mulher que sentiu física e psicologicamente a dor das agressões sofridas pelas mãos de um ex-companheiro.

Mesmo se considerando curada dessas marcas, as lembranças dos meses de extrema violência que viveu em 2018 ainda se refletem no dia a dia, considerando o constante estado de alerta ao sair de casa, mesmo que seja para uma ida rápida ao supermercado. “Eu sempre fui uma mulher forte, independente, que batalhou muito. Nunca imaginei que me veria passando por tudo que passei. A gente acha que isso acontece só com mulheres mais fragilizadas, que dependem dos companheiros. Eu vivi na pele e só consegui fugir quando tive consciência de que meu agressor iria me matar”, conta.

Ana conta que se viu vítima da violência doméstica quando já estava no ponto mais crítico. Os problemas no relacionamento de seis meses acontecerem após uma breve separação. Os dois conversaram e resolveram reatar. “Ele propôs irmos morar juntos e aceitei. Era uma casa alugada em local bem isolado de Lomba Grande. Foi lá que começou meu inferno”, lembra.

Eu sempre fui uma mulher forte, independente, que batalhou muito. Nunca imaginei que me veria passando por tudo que passei.

A partir da reconciliação, o relacionamento mudou. “Eu fiquei isolada. Ele me afastou da minha família e quando eu dizia que iria visitar meu pai ou meus filhos, ele ia junto, nunca me deixava sair sozinha. Para mim não era nada anormal, era ele querendo fazer parte da minha vida”, conta.

Dias depois, começaram os insulto verbais. Os xingamentos e insinuações de traições começaram a aumentar culminaram na agressão física. “Lembro que pegamos o ônibus, cumprimentei o motorista, como normalmente acontece. Aí virou guerra”, conta, sobre a primeira agressão sofrida.
A rotina de violência acontecia diariamente. “Ele me agredia e depois buscava gelo para os machucados, pedindo desculpas, dizendo que havia se passado”, recorda.

Por esse comportamento não se dava conta de que algo estava errado. “Aí me perguntam: por que não fugi antes? Porque eu achava que ele iria mudar, que era só porque bebeu. Que ele não era sempre assim”, relembra.

"As pessoas te julgam"

Ana chegou a ficar um período e cárcere privado, presa em casa, sem comida. “Ele recolhia tudo da casa, deixava só água”, relembra. A vergonha e o julgamento das pessoas faziam o pedido por socorro ser calado. “Por que eu nunca falava, me queixava? Vergonha. As pessoas te julgam, elas dizem que ninguém apanha de graça. Apanham sim, eu apanhei de graça”.

Após um das agressões mais graves que sofreu, resolveu fugir. “Nós iríamos ir para Florianópolis no final daquele ano. Eu me peguei pensando que ele iria me tirar daqui, me matar e sumir com meu corpo. Foi aí que ouvi uma voz me dizendo 'foge'. Peguei minha bolsa e corri. Só parei quando entrei no Viva Mulher”. O local havia ficado e sua memória após ver alguns cartazes de divulgação em ônibus.

Do acolhimento para a rede

O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) Viva Mulher é um serviço da Secretaria do Desenvolvimento Social que realiza o acompanhamento psicossocial de mulheres que, por estarem em situação de violência encontram-se em risco pessoal e social. “Cheguei lá só com a roupa do corpo. Lá eu fui encaminhada para a psicóloga, que ouviu toda minha história. Falei tudo porque me senti protegida”. Foi naquele dia que iniciou o atendimento que acompanhou ao longo da luta por justiça e, principalmente, segurança.

Em seguida foi orientada a fazer o registro policial. “Disse que não queria, senão ele iria me matar”, relembra Ana. Depois de receber orientação, inclusive no emprego, no dia seguinte foi até a delegacia para fazer o boletim de ocorrência. “Vi que não estava mais sozinha e resolvi seguir até onde precisasse”, relembra.

Na delegacia fez pedido de medida protetiva, que impedia o agressor de se aproximar dela e foi encaminhada para exame de corpo de delito. “As mulheres precisam se encorajar a denunciar. Saí de casa sem nada, mas não fiquei desamparada. A rede me levava para todos os lugares, me acolheu e ajudou a me reconstruir como mulher”. Ana também chegou a ir para um abrigo para mulheres, mas acabou voltando para ficar com familiares. “Me deram alternativas, oferecendo tudo que fosse preciso para manter minha segurança”.

Medida protetiva foi a forma de manter o agressor longe Foto: Suélen Schaumloeffel/GES-Especial

“Em geral, quando a mulher chega ao serviço, encontra-se bastante fragilizada, com dúvida e medos. Por vezes, a violência que sofrem reflete sobre seu trabalho, seus estudos e seu convívio social. O acompanhamento psicossocial consiste na oferta de um espaço de escuta e reflexão para que a mulher consiga pensar de forma segura quanto à sua situação, possa dirimir dúvidas, se fortalecer e reconstruir sua vida”, destaca a coordenadora do Viva Mulher e psicóloga, Elis Regina de Barros Evaldt.

O espaço mantém estreita relação com os órgãos do sistema de justiça e de garantia de direitos da infância e adolescência, da rede de saúde e da rede socioassistencial. A articulação com os serviços da rede é fundamental para a garantia de proteção das mulheres atendidas. “Temos em nosso município uma rede efetiva no enfrentamento à violência contra a mulher denominada Rede Lilás, da qual fazemos parte junto a outros serviços de proteção à mulher vítima de violência”.

Patrulha Maria da Penha

A partir da medida protetiva, Ana também passou a ser acompanhada pela Patrulha Maria da Penha. O acompanhamento foi constante, com rondas nas proximidades e visitas. “A equipe vinha até minha casa, conversando sobre como estava tudo, dando orientação. Um serviço maravilho que me dava muita segurança”, explica.

Além disso, Ana recebeu o contato direto da patrulha, onde poderia tirar dúvidas, comunicar situações e também atualizar sobre sua localização. A Patrulha, assim como a equipe do Viva Mulher a acompanharam também para a audiência no Fórum.

"A rede funciona muito bem, mas é preciso aceitar essa ajuda. É preciso coragem para enfrentar os processos, mas dá certo e saímos mais fortes”.

Onde buscar ajuda

Atualmente, devido à bandeira preta em razão da pandemia, a busca por atendimento no CREAS Viva Mulher pode ser feito através dos telefones (51) 3097-9482 e (51) 9959-05527. Neste primeiro contato será combinada a forma de atendimento.

Em Novo Hamburgo, a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) atende na Rua Júlio de Castilhos, 806, Centro, e pelos telefones (51) 3584-5805 e (51) 3584-5804. Montenegro e São Leopoldo são outras cidades da região com Deam.

Os contatos de todos os locais de atendimento à mulher vítima de violência podem ser encontrados em nosite da Secretaria de Segurança Pública.

Denúncias podem ser encaminhadas pelo Disque Denúncia181 e no WhatsApp da Polícia Civil - (51) 98444-0606.

O registro de ocorrência ainda pode ser feito por meio da Delegacia On-line.

Em caso de emergência contate a Brigada Militar pelo 190.

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