Publicidade
Notícias | Novo Hamburgo Novo Hamburgo

Sindicato dos sapateiros vai ao MPT após funcionária de fábrica urinar nas calças

Jovem de 19 anos foi impedida de usar o sanitário devido à restrição imposta por empresa. Sapateiros protestam, nesta segunda, contra restrições

Por Matheus Chaparini
Publicado em: 29.06.2021 às 09:31 Última atualização: 29.06.2021 às 09:36

Uma privada colocada na porta da fábrica e um cartaz com a frase “libera o banheiro já” simbolizavam a indignação de trabalhadores de uma fábrica de calçados de Novo Hamburgo. O Sindicato das Sapateiras e Sapateiros do município fez, ontem, um ato de protesto em frente à fábrica da Zenglein e Cia LTDA, no bairro São José.

Sindicato dos sapateiros protesta contra restrições Foto: Matheus Chaparini/GES-Especial

O ato foi organizado após o relato de que uma funcionária da empresa urinou nas calças, na última quinta-feira (24), após ter sido impedida de usar o banheiro. Representantes do sindicato usavam tecidos simulando fraldas, como forma de protesto. Os cartazes traziam frases como “fralda não” e “chega de chave”.

“Ela pediu a chave, mas ainda não eram 16 horas. Pediu novamente, mas não tinha ninguém para ficar no lugar dela. Pediu de novo e não deixaram. Quando ela sentiu, já havia feito nas calças”, diz Neiva Barbosa, integrante da diretoria do sindicato.

Segundo o sindicato, é comum, nas fábricas de calçados, que os banheiros fiquem chaveados e os funcionários precisem de autorização para saciarem suas necessidades fisiológicas. Funcionários da fábrica, que estavam no intervalo durante o ato, confirmaram as restrições para uso do banheiro.

O movimento pelo fim das portas chaveadas é uma reivindicação antiga da categoria. Normalmente, a chave fica com um supervisor ou um funcionário conhecido como “coringa”, um auxiliar, que atua em diversas funções e pode substituir que precisar deixar o posto momentaneamente.

De acordo com Neiva, após tomar conhecimento do episódio da quinta-feira, o sindicato recebeu relatos de outros funcionários da empresa, que teriam passado pela mesma situação.

“No inverno, temos mais necessidade de ir ao banheiro. Daí a pessoa passa a humilhação de sair do seu posto de trabalho, ir ao Departamento de Pessoal, ser liberada e ter de ir até em casa toda mijada. Não dá mais para nós simplesmente ficarmos quietos”, defende.

A sindicalista cita ainda que, no caso das mulheres, a situação é mais complicada, em função da menstruação. Na sexta-feira, a trabalhadora retornou à fábrica e foi liberada para fazer exames, em função de ter problema na bexiga.

A reportagem entrou em contato com a Zenglein para buscar uma posição sobre o episódio da última quinta-feira e as regras de uso do banheiro. A resposta foi: "assim que a empresa tomou conhecimento do ocorrido, todas as medidas necessárias foram realizadas."

Sindicato dos sapateiros protesta contra restrições para usar o banheiro Foto: Matheus Chaparini / GES-Especial

Sindicato fará denúncia

Além do ato de ontem, o sindicato vai acionar o Ministério Público do Trabalho. De acordo com o sindicato, a decisão foi tomada após se tentar contato com a direção da fábrica, sem obter retorno.

"Fui pra casa chorando", conta funcionária de 19 anos

A funcionária de 19 anos - que tem a identidade preservada pelo Jornal NH - conta que trabalhava em uma esteira da produção e pediu à supervisora para ir ao banheiro, mas ouviu que a chave não estava no local. Outros colegas também pediam para usar o sanitário. Em seguida ela pediu e, novamente, ouviu a mesma resposta.

"Na terceira vez, eu falei que não estava mais aguentando, estava muito apertada e não ia conseguir esperar. Ela não deu bola. Eu não me aguentei e acabei me mijando. Ela chegou lá, deu risada. Depois que eu tinha feito, ela disse que eu podia ir ao banheiro."

Grávida

A jovem conta que iniciou na empresa em 14 de junho e este é seu primeiro emprego de carteira assinada. Após encaminhamento ao departamento de pessoal, ela foi liberada para ir para casa. Vestindo a mesma roupa, caminhou da empresa até o bairro Kephas, onde mora. "Eu me senti constrangida. Fui para casa chorando, ainda suja. Só passava na minha cabeça que eu não queria mais voltar ali." A jovem conta que no dia seguinte ao episódio, durante exames, descobriu que está grávida de um mês.

Ministério Público do Trabalho esclarece situações do tipo

A procuradora Mônica Fenalti Delgado Pasetto, coordenadora da Procuradoria do Trabalho em Novo Hamburgo (PRT 4ª Região), explica que é preciso analisar situações caso a caso:

"O trabalhador está submetido ao poder de gestão do empregador. Por isso, o trabalhador está obrigado a entregar aquilo para o que foi contratado, não podendo ficar o dia sem fazer suas atividades, no celular, conversando, trancado no banheiro, etc. Por outro lado, o trabalhador não perde sua dignidade, sua qualidade de ser humano, suas necessidades fisiológicas quando assina o contrato e ingressa nos muros da empresa. Por isso, a situação precisa ser analisada com base no caso concreto."

Ela acrescenta: "Se a limitação do uso do banheiro for usada como recurso para fiscalizar a atividade produtiva do trabalhador e da trabalhadora, como gestão do tempo, de modo constrangedor, desproporcional, pode ser considerada abuso do poder empregatício e violação do direito à privacidade (artigo 5, X da Constituição Federal de 1988) e, em certa medida, até do princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1, III)."

A procuradora esclarece que não há impedimento legal para que o banheiro fique chaveado, "desde que os trabalhadores tenham acesso às chaves livremente".

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.