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Notícias | Novo Hamburgo Incentivo à renda

Marlene escapou da fome e hoje combate a miséria com o Mão na Massa

Advogada mobiliza mulheres para gerarem renda com o projeto Kipling em Ação, em Novo Hamburgo

Por Ermilo Drews
Publicado em: 20.07.2021 às 06:30 Última atualização: 20.07.2021 às 10:13

Ainda criança, Marlene Silva de Souza, 47 anos, descobriu a fome. Não aquela entre o almoço e o jantar. Mas aquela que provoca desmaio. Foi o que aconteceu na escola. Aquele tipo de fome que manda criança para hospital. Foi o que aconteceu com um dos seis irmãos. Era desnutrição.

Marlene, entre Maria Sirlei e Sônia, reuniu mulheres para produzir bolachas e garantir renda Foto: Inézio Machado/GES

Sete crianças, padrasto e mãe com subempregos, que migravam de cidade em cidade, trabalhavam de dia para comer à noite. A conta da despensa não fechava. Nunca vai fechar. Foi assim que Marlene aprendeu a pedir. Comida, esmola, atenção. Sempre tinha uma professora, uma vizinha, um conhecido para estender a mão. "Era o que chamam de criança carente."

Nesta vida sem rumo e que o único plano é a refeição seguinte, Marlene parou na casa do pai, em Novo Hamburgo, ainda na adolescência. Largou os estudos e foi trabalhar. Quando não se tem o básico, estudo vira "luxo". Já casada, vida adulta, um dia bateu à porta de uma empresa pedindo emprego e percebeu que o ensino fundamental fazia falta. Voltou sem trabalho, mas com uma decisão. Recomeçou. Supletivo, ensino médio e, quem diria, faculdade de Direito.

E foi quando precisou pagar a matrícula que mais uma pessoa estendeu a mão. "Um professor conseguiu a liberação de um empréstimo e pude começar a estudar. Trabalhava de costureira e fazia o curso na Feevale." Depois do empréstimo, veio a bolsa de estudos, formatura, lições pela Internet e aprovação na OAB. A criança que desmaiou de fome virou advogada.

E se muita gente estendeu a mão para Marlene na saga da fome ao estudo, ela resolveu retribuir. A advogada defende mulheres e crianças. Mas não é nos fóruns e salas de audiência. É na casa dela, no bairro Canudos, em Novo Hamburgo, que Marlene formou uma rede de mulheres. Antes mesmo do termo "empoderar" viralizar, esse já era o objetivo do grupo. Foi assim que nos últimos 10 anos mobilizou uma série de ações sociais no bairro.

Com a pandemia, o dinheiro minguado em muitas famílias virou artigo em extinção e Marlene mobilizou uma ação de doação de marmitas. A ideia seguiu, assim como a falta de dinheiro de muitas famílias, situação acentuada pelo preço do gás, da luz. "Perguntei para elas o que fazia mais falta. Todas falaram dinheiro. Então falei, vamos ganhar dinheiro."

Foi assim que nasceu o projeto Kipling em Ação - Mão na Massa. Forma de uma, farinha de outra, ovos da vizinha. Levaram tudo para o galpão improvisado construído pelo vizinho Waldir Luís Lemos de Oliveira, 62, no terreno dos fundos do Ciep. É ali que começaram a fazer bolachas num forno de barro moldado pelo Seu Waldir. Sobra improviso e disposição. Das 13 mulheres envolvidas na iniciativa, seis atuam na produção e sete nas vendas. "A maioria delas não tem renda. A ideia é que a gente consiga juntar dinheiro e dividir entre todas", explica Marlene.

Renda extra mais que bem-vinda

Donas de casa que cuidam de netos. Este é o perfil de muitas das mulheres que cruzaram o caminho de Marlene e buscam no Mãos na Massa uma maneira de conseguir seu próprio dinheiro. É o caso das amigas Sônia Porto Pereira, 49, e Maria Sirlei Fühber, 62.

Os filhos de Sônia já estão casados e não moram na mesma casa, mas é com ela que os netos costumam ficar enquanto os pais trabalham. "Não tenho um emprego fixo e fico mais com eles. O projeto é uma forma de conseguir uma renda própria, já que só meu marido trabalha", conta Sônia.

Já na casa de Maria Sirlei, a renda da família vem da aposentadoria dela. "Meu marido está sem serviço." Assim como Sônia, Maria Sirlei costuma cuidar dos netos, enquanto os pais trabalham. Mas para participar do projeto, o avô tem ficado com os netos durante o período que ela toca a produção. "Faz muito tempo que eu participo das ações desenvolvidas pela Marlene. A gente vai aprendendo a ajudar uma a outra e a se ajudar. É muito bom."

Saiba como ajudar o projeto

A primeira leva de bolachas já foi vendida e serviu para comprar mais ingredientes e alguns equipamentos. A segunda já saiu do forno e foi para a rua. Mas para acelerar e incrementar a produção, contribuindo para a geração de renda das 13 mulheres, a comunidade pode ajudar.

Quem puder colaborar com equipamentos e utensílio, como cilindros, formas e embalagens, além de ingredientes, pode entrar em contato com a própria Marlene, pelo (51) 99929- 2474. Por este mesmo número podem ser feita encomendas dos produtos (por enquanto bolachas, mas a intenção é expandir para outras receitas, como cucas).

Para os ingredientes, podem ser doados açúcar, farinha de trigo, ovos, banha, nata, sal amoníaco, fermento em pó e açúcar colorido. Como tudo é feito no forno de barro, também são aceitas lenhas.

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