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Notícias | País

Leia a íntegra da entrevista com Ciro Gomes

Última atualização: 02.06.2020 às 17:47

Jornal NH - Qual é o cenário político do Brasil em meio à pandemia?
Ciro Gomes - O Brasil caminha para a mais grave crise de saúde pública da história. Provavelmente, as simulações dos institutos universitários e a própria comunidade científica internacional projetam que aqui teremos entre 80 mil e 120 mil mortes até o fim de agosto. Transformou-se o Brasil no epicentro da pandemia no mundo, estamos nesse momento apenas atrás dos Estados Unidos e isso não é coincidência. A responsabilidade por isso chama-se Jair Messias Bolsonaro. Ele não fez aquilo que os governantes têm que fazer. Sabendo que não existe nem vacina, nem remédio, você tinha que aplicar um isolamento social radical. Para que ele tivesse eficácia e ser breve, o governo deveria indenizar as pessoas mais vulneráveis e as empresas para atravessar [esse momento] com crédito sem juros. No Brasil, Bolsonaro foi na contramão, desorienta sistematicamente a população, mistifica quase que como um charlatão propondo remédio. [Ele] Não tem formação para isso. O resultado prático [disso] o brasileiro, que for isento, vai perceber basicamente o seguinte: praticamente todos os países da América do Sul juntos tem maior população e maior território que o Brasil. Juntos, todos, vão dar a metade das mortes que estão acontecendo no País. Neste momento, 29.937 pessoas morreram no Brasil e menos de 10 mil morreram nesses outros países. A diferença é a desorientação do governo. Em função, também, de não ter preparado um plano para a economia, Bolsonaro está destruindo empregos como nunca se viu na história do Brasil.

Jornal NH - Por quê?
Ciro Gomes - Ainda antes da pandemia, entre janeiro e o começo de abril, Bolsonaro tinha destruído cinco milhões de empregos. E só no mês de abril, antes dos efeitos mais graves da pandemia, 860 mil carteiras assinadas foram dadas [como] baixas no Brasil. Isso quer dizer que os números de maio vêm acima de 1,2 milhão de empregos destruídos. Ou seja, a maior crise econômica da nossa história sem nenhum rival, porque quando o Brasil caiu com a [ex-presidente] Dilma [Rousseff] 3,2% num ano e 3,6% no outro, foi a maior crise econômica da nossa história produzida ali pelo PT [Partido dos Trabalhadores] no governo Dilma antes do impeachement. O Bolsonaro está destruindo a economia brasileira. Todos os estudos mostram que o Brasil cairá [em 2020] um mínimo de 6% podendo chegar até 10%. Não tendo nenhum plano ou proposta para a pandemia e nem para a economia, Bolsonaro introduz um ambiente de exacerbação e radicalização política para tentar criar um ambiente onde ele possa prevalecer ideologicamente já que não tem respostas práticas para os verdadeiros problemas. Ele incita de forma radicalizada e odienta, e agora descambando para a violência, as pessoas contra as instituições da democracia, cita referência de [Benito] Mussolini, militantes dele pedem despudoradamente em confraternização com ele o fim da democracia, a volta do AI-5, da censura à imprensa, do fechamento do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal, a intervenção militar. Tudo isso é um cometimento sistêmico de crimes de responsabilidade, mas o Bolsonaro está puxando essa crise política na intenção de praticar um golpe de Estado para o qual ele não tem condição objetiva nem interna ou externa [de conseguir]. Portanto, é um momento grave e a gente tem que ter muito cuidado para proteger o povo brasileiro da violência que, infelizmente, pela intenção do Bolsonaro, vai acabar produzindo cadáveres nas ruas.

Jornal NH - Ocorrem manifestações constantes a favor do governo e, no último fim de semana, começaram movimentos de oposição a Bolsonaro. De que forma o senhor analisa essas mobilizações?
Ciro Gomes - Eu considero verdadeiros heróis [valentes e bravos] os que estão se dispondo, como regra são jovens da periferia do Brasil, que estão saindo para defender nossas liberdades, a nossa democracia. São heróis, merecem nosso aplauso e reconhecimento, mas com sentimento de pai e avô e de muita responsabilidade pela vida [da população] brasileira – que eu sempre cultivei – quero ponderar que nós não podemos fazer serviço do Bolsonaro. Não tem nenhum sentido. Nosso lado defende a vida e nesse momento defender a vida significa estimular o isolamento social para quem puder ficar em casa e não promover aglomerações. Vamos deixar que as ruas sejam ocupadas por grupos cada vez mais ridículos, mais agressivos e muito diminuídos. Se você reparar, as manifestações pró-Bolsonaro estão ficando pequenas, agressivas e quase risíveis se não fossem trágicas e nazistas. É grupo de gente com tocha em frente ao STF, malucos hidrófobos em frente ao Palácio da Alvorada e do Planalto insultando e agredindo jornalistas, eles por aí vão se desmoralizar.
Não quero ver nenhum de nós mortos, nem deles. Precisamos ficar em casa e deixar que a nossa bala, aqui num sentido metafórico, seja usada se de fato alguma coisa real de fato acontecer para violentar a democracia. As manifestações dele estão ficando pequenas, pífias e ridículas.

Jornal NH - Há clima e condições políticas para se pensar em um impeachment do presidente?
Ciro Gomes - Hoje não há ambiente objetivo para fazer o impeachment. Eu sou signatário, o PDT é signatário, de um processo de impeachment junto dos nossos companheiros do PSB, da Rede e do PV. Estamos trabalhando unidos, há mais de 30 pedidos de impeachment, [mas] a gente sabe que não há condição [de avançar], porque o Bolsonaro permanece com algo ao redor de um terço do apoio do povo brasileiro. Então, os políticos não vão votar um impeachment contra um presidente que ainda tem um terço de apoio da população, que é bom lembrar com todo respeito e humildade que são brasileiros tão respeitados quanto nós. Podemos discordar deles e de seus méritos, mas uma minoria aí é nazista. A outra parte, que não é nazista e nem racista, é de gente que votou para protestar contra a situação macroeconômica, o desmonte moral do Brasil que foram produzidos pelo 'lulo-petismo' corrompido. Entendo isso com muito respeito e humildade. Portanto, não há ambiente para um impeachment. A democracia precisa usar as ferramentas que tem para punir quem comete crime de responsabilidade. Impeachment não é remédio para governo ruim. Remédio para governo ruim é voto, é o povo votar, escolher, aprender a votar. Se votar bem, recebe um bom governo de volta e se eleger mal aguenta as consequências de uma escolha errada. Isso é o que nos amadurece como nação e responsabiliza o corpo da nação com os destinos do País para não deixar isso confinado na mão de meia dúzia de políticos em gabinetes.
Porém, Bolsonaro cometeu e está cometendo crimes de responsabilidade. Atenta contra o regular funcionamento das instituições quando postula fechamento do Congresso e do Supremo, ou pelo menos confraterniza com quem defende isso na porta do quartel general do Exército. Atenta contra o regular funcionamento das instituições com a obstrução da Justiça e aparelha a Polícia Federal para proteger amigos e familiares bandidos. Expõe à morte milhares de brasileiros, quando se contrapõe a ciência e do seu próprio Ministério durante a pandemia. Por tudo isso, ele tem que ser punido por crime de responsabilidade. A tarefa agora é construir no povo brasileiro consenso pra isso, com humildade e diálogo mostrando que o Bolsonaro está levando o País a um caos de saúde, econômico, político e de violência, porque não respeita as instituições.

Jornal NH - O ex-presidente Lula diz que não pretende participar de manifestos suprapartidários. Qual é o tipo de peso que essa decisão tem em meio ao momento político do Brasil?
Ciro Gomes - O Lula não está nada bem, para quem o conhece há 40 anos como eu, posso dizer com muita clareza que ele não anda nada bem. Perdeu os amigos sérios, está cercado de bajulador e puxa-saco, se considera um semideus inatacável e não tem a menor humildade para perceber que ele e sua arrogância deram causa a tudo que está acontecendo no Brasil, que ele é parte central do problema e não por si, mas pela contradição, intransigência e incoerência. E por uma coisa que está se tornando flagrante: o Lula tomou-se de ódio pela população brasileira. Na minha opinião, acho que o Lula pensou que o povo brasileiro iria descer lá em Curitiba, quebrar a delegacia da Polícia Federal e levar ele nos braços ao poder sem eleição. Como isso não aconteceu, acho que ele tomou- se de ódio pelo povo brasileiro. Ele acostumou a manipular, a manipular os estudantes pelo controle das instituições, a manipular os sindicatos pelo controle da CUT [Central Única dos Trabalhadores], manipular a luta dos sem-terra pelo controle e até suborno dos movimentos como o MST [Movimento dos Sem-Terra]. Tudo isso deformou o Lula completamente. Ele não compreende a necessidade que nós temos de dialogar entre os diferentes. O Brasil só vai sair dessa gravíssima e encalacrada [crise] se a gente restaurar um ambiente de diálogo. E não é sincero o argumento do Lula. Ele diz que não fala com o [ex-presidente] Fernando Henrique [Cardoso], porque o Fernando Henrique apoiou o golpe. O Lula se abraçou com Renan Calheiros, que fez o golpe. Se houve um golpe como ele fala, esse golpe foi pelo Senado no impeachment da Dilma. E o presidente do Senado era Renan Calheiros e Eunício Oliveira. O Lula se abraçou com eles, fez acordo com eles, nas eleições de 2018. Não tem coerência de nada, acha que pode fazer e acontecer. Quando pede desculpas por aquela frase infelicíssima, não pede com sinceridade. Ele diz assim, 'se algum dos 210 milhões de brasileiros se ofendeu, peço desculpas'. Como assim, cara pálida? Eu até acho que a gente deve aceitar, mas hoje ele é parte do problema. A sociedade civil brasileira precisa renascer, sair da cooptação, da manipulação de qualquer que seja o partido político e se agigantar. Criar um ambiente na população para que os políticos representem os verdadeiros valores da sociedade.

Jornal NH - Rio Grande do Sul aposta no modelo de distanciamento controlado. Qual a opinião do senhor sobre as medidas adotadas no Estado?
Ciro Gomes - Acho que para quem não viu o bicho de perto é muito difícil basear decisões que são traumáticas e tem contradição, restrições e pressões econômicas fazer as coisas direito. Nós, aqui no Ceará, entramos na pandemia três semanas antes do [restante] do Brasil. Recebemos ao redor de 18 a 20 mil turistas dos Estados Unidos, Espanha e Itália, onde a Covid já tinha explodido. Tentamos impedir, Bolsonaro não permitiu, então passamos três semanas recebendo 18 mil turistas das regiões mais infectadas do mundo e não tínhamos nem o direito de testar, porque Bolsonaro foi para a Justiça e nos proibiu. O Ceará é o primeiro e único estado brasileiro em que a curva inverteu. A gente calcula isso apurando com teste, tem que testar massivamente, quantas pessoas são contaminadas por quem está carregando o vírus, mesmo que não tenha sintoma.
No Rio Grande do Sul, vocês ainda estão subindo. Cada pessoa contamina mais de uma pessoa. Então, enquanto isso não virar uma pessoa contaminando menos de uma pessoa, estatisticamente falando, você tem a curva subindo. Nessas circunstâncias só há uma saída: o isolamento radical. As pessoas que estão interessadas na economia precisam entender, pelo amor de Deus, que com o isolamento mais radical mais rápido a gente volta à normalidade. Nós estamos num 'meia bomba'. Acho que o governador, que tem feito um trabalho respeitável [tenho muito respeito por ele e acho que é um quadro relevante, pegou um Estado numa situação difícil, acho que isso é um projeto de destruição da força política do Rio Grande do Sul, o Piratini virou uma usina de destruição de lideranças], acho que é errado descomprimir agora. Aqui, estamos com capacidade de testar mais alta do Brasil, importando os testes da China, temos menos de 80% dos leitos de UTI ocupados nesse instante, a demanda já caiu. Portanto, aqui, é possível setorialmente descomprimir. Temos base, porque testamos em massa, para saber como evoluiu por bairro a Covid. Na hora que estamos descomprimindo em alguns bairros, estamos decretando lockdown em outros e em outras cidades do Ceará.
Por média, o Brasil é o país que menos testa. O Rio Grande do Sul está testando pouco, Minas Gerais não está testando nada. Portanto, o que está se introduzindo no Brasil é uma segunda onda e isso é o que estão nas simulações de que 80 mil brasileiros em outubro estarão mortos.

Jornal NH - Semana passada o senhor lançou um livro 'Projeto Nacional: o dever da esperança'. O que ele trata especificamente? 
Ciro Gomes -
O livro é uma tentativa de explicar ao povo brasileiro, especialmente aos jovens a quem eu dedico muito esse esforço, o que está acontecendo com o Brasil antes da pandemia, que só agravou os argumentos. Eu tento explicar a raiz estrutural da crise econômica [fica ali evidente que o Brasil vem de um país que era o que mais crescia no mundo capitalista ao longo de 30 anos e depois quebra e entra num interminável ciclo de 'vai e volta'] e permeado de crises políticas. No limite, o Brasil chegou a exaustão de ter mais da metade da população desempregada ou empurrada para a informalidade com indicadores de violência e desestruturação nacional muito graves. A partir desse diagnóstico, proponho caminhos para resolver o problema. Coisas bastante práticas, como virar o jogo, reindustrializar o País [por quais caminhos, quanto custa e de onde viria o dinheiro], os riscos políticos. E afirma a grande necessidade de um diálogo nacional, mesmo entre diferentes, porque é tão complexo e grave o problema porque só uma repactuação nacional, uma reconstitucionalização do País [resolveria]. Mostro o ambiente internacional e especulo sobre o sentido moderno dessas palavras [ou adjetivos] de esquerda e direita que estão virando no caso brasileiro ódio e enfrentamento violento que não leva ninguém para canto nenhum.


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