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Donas da Bola F.C.: conheça as garotas que estão ajudando a vencer preconceitos

Última atualização: 16.06.2019 às 17:43

"Não qué brincá de boneca nem pintá na escola. Só qué sabê de driblá, corrê atrás de bola"

Por Gustavo Henemann e Priscila Carvalho

"Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país." Foi o decreto-lei 3.199 de 14 de abril de 1941 que proibiu a prática de diversas atividades esportivas pelas mulheres entre o governo de Getúlio Vargas e 1983. Entre os esportes considerados "masculinos" pelo governo estava o mais popular do Brasil, o futebol. Para vencer o preconceito, foram necessárias muita persistência e uma boa dose de talento. Hoje, o País de Marta, que brilha na Copa do Mundo da França, ainda tem uma dívida histórica com o futebol feminino. No entanto, são atletas como Marta e Cristiane que inspiram uma legião de jogadoras, amadoras e profissionais, a mostrarem que no País do futebol mulher joga bola, sim. Da repórter que tem o esporte como hobby, à fominha que joga em seis times amadores, até profissionais que vivem do ofício, o que as mulheres buscam é igualdade.

Uma carta de pura paixão pelo esporte

Foto por: Inezio
Descrição da foto:
Tímida e um pouco nervosa, a pequena Stephanie Calixto Gatelli, de apenas 9 anos, entrou no Ginásio Municipal Agostinho Cavasotto, em Novo Hamburgo, e em suas mãos carregava todo seu sentimento descrito em palavras numa bela carta entregue à reportagem. O texto intitulado "Minha história no futsal" conta a trajetória da menina até chegar à equipe sub-11 das categorias de base da União Jovem do Rincão (UJR). Mesmo sendo a única menina jogando no time de garotos, isso é um mero detalhe para Stephanie, que faz o que mais gosta desde os quatro anos de idade, quando viu a mãe, Sheila Calixto, 38, brincando de embaixadinhas em casa.

A jovem atleta, que atua como pivô e ala direita, contou porque resolveu escrever um texto sobre sua história. "É minha inspiração no futebol, e é bom escrever sobre a minha paixão e da minha mãe", disse Stephanie, que sonha também em ser professora. Conforme Sheila, ela não perde uma atividade da filha. "Não perco um jogo, um treino, às vezes até coloco ela de castigo, tiro o celular, o videogame, mas não o futebol. Além de ser um esporte, é o que ela quer seguir", afirmou a mãe de Stephanie. Para ela, os estudos estão lado a lado da prática esportiva. "É escola, futebol e inglês. Falei que se ela quer seguir a linha no futebol, e surge uma oportunidade de ir para outro país, ela tem o inglês, que é a língua universal. Ela tem aula todos os sábados", completou Sheila.

Encontro especial

Na última quinta-feira (13), Stephanie teve um encontro especial antes do treino. Ela conheceu a capitã da equipe adulta da UJR/Feevale, Bárbara Gressler, 26, que está há sete anos no grupo universitário, e junto de Sheila, registram o momento. "Acredito que nem a Stephanie falou, é importante ter um segundo plano, ser atleta ou professora. Isso não pode acabar, é o futuro, é o Brasil que precisa crescer, é essencial para uma menina de 9 anos falar isso", ressaltou Bárbara. "Estou indo para minha segunda graduação, já sou formada em Contábeis pelo projeto da UJR/Feevale e agora estou cursando Direito. O diferencial do futsal na minha vida é total", destacou.

A atleta da equipe hamburguense também possui uma história bacana dentro do futsal feminino. "Minha mãe jogava futsal também, mas tudo começou com meus avós que eram ecônomos de um ginásio lá no interior de Santa Maria do Herval. A mãe trabalhava na firma e eu ficava com meus avós, e enquanto eles cuidavam do ginásio, me largavam dentro da quadra e lá eu ficava correndo atrás da bola o dia inteiro. E conforme fui crescendo, torcia para faltar alguém nos horários marcados", revelou Bárbara, que atualmente mora em Dois Irmãos. Para ela, existe ainda muito preconceito, porém é importante que as equipes sigam se renovando. "Estamos renovando nossa equipe a cada ano. Vão chegando meninas de 18, 19 anos na equipe, até menos idade, tem tudo para seguir esse caminho. Acho que existe o preconceito, mas muito menos do que já existia um tempo atrás. Estamos vencendo muitas barreiras", finalizou a capitã Bárbara.

Assista

Nosso amor pela bola é igual

Era 0h35 quando vi, por meio de postagens nas redes sociais, que uma amiga de tantos anos tinha conquistado algo inédito: uma medalha de destaque da partida, no torneio que o time dela estava disputando em Estância Velha. Carina, minha amiga em questão, é goleira de futsal amador, joga desde a escola, seguindo por times da região, depois de adulta. Como a maioria, o que a motiva a jogar é apenas a paixão pelo esporte. Apesar da experiência em competições e de muitos bons jogos que realizou, nunca tinha recebido uma medalha como aquela, de destaque. O feito parece pífio, mas só quem se dedica diariamente a tantas funções e se entrega com o mesmo esmero para o "lazer", entende o que aquela medalha significa. A felicidade da Carina foi a minha felicidade.

E o nosso sentimento se junta ao das nossas amigas todos os domingos, numa rotina que em quatro anos de Devassas F.C. compartilhamos: jogar bola. Mas, você que está lendo esse texto, não se iluda. A repórter aqui joga bola, sim, mas somente porque ama, pois a qualidade eu deixo mesmo pras colegas - minha destreza se assemelha à de um trator em quadra. Enfim, por mais que a gente trabalhe, estude, se estresse fora dos ginásios, dentro deles, é outra história. É amor por jogar, sabe? Cinco minutos que seja. Pra ajudar o time, apenas. Mas jogar, estar com a equipe. Parece tão bobo, né? Coisa de mulherzinha. Não, coisa de quem gosta mesmo. Homem, mulher, criança… Seja quem for.

Por isso que eu, mesmo sem habilidade pra coisa, prezo tanto pelo meu futsal de domingo. Mesmo com algumas dificuldades, eu e as meninas estamos lá. Torcendo por nós mesmas - e pelos namorados que jogam depois também. Da mesma forma que torcemos e gritamos por Cristiane, Formiga, Andressa… e por tantas outras jogadoras, até de outros países. Da mesma forma que nos orgulhamos em saber que são daqui as melhores jogadoras do mundo: Marta, no futebol, e Amandinha, no futsal. Não há diferença. Nosso amor pela bola é igual. Ainda bem que, mesmo que tardiamente, o mundo está percebendo isso.

A "jogadeira" de seis times

"Não qué brincá de boneca nem pintá na escola. Só qué sabê de driblá, corrê atrás de bola." O verso faz parte da música Jogadeira, de composição da jogadora do Corinthians Cacau Fernandes, em parceria com a ex-atleta Gabi Kivitz. O pagode com rimas que falam dos obstáculos vividos pelas mulheres que jogam futebol foi o escolhido pela atacante Cristiane no programa Fantástico, da rede Globo, depois de fazer os três gols da vitória brasileira na estreia da Seleção Feminina de Futebol nessa Copa do Mundo da França. A música se tornou o hino da equipe e também de muitas gurias que se identificam com a letra do hit.

Uma delas é a jovem Ane Gabriele da Rosa Silva, de 20 anos, menina espoleta, cheia de vida e amante da bola. Ane nasceu em Taquari e começou a jogar futebol ainda pequena. Única garota da sua faixa etária na família, compartilhava momentos de diversão com os primos, todos meninos, com quem batia bola no campo dos fundos da casa, no interior da cidade. Aos 10 anos, os pais a colocaram numa escolinha, que abriu portas para o futebol feminino no município: o Pinheiros. Ficou dois anos lá, mas com a saída de muitas meninas, a escolinha acabou fechando. Ane, então, continuou esporadicamente, com as amigas, em outra modalidade: o futsal.

Aos 17 anos, a menina de Taquari foi morar em São Leopoldo. Trabalhava em Canoas e, numa conversa informal, a convite do padrinho do chefe, entrou para o primeiro time na região, o Milan. A habilidade com a bola logo chamou a atenção das amigas, que lhe ofereceram vaga em outros times amadores. Hoje, Ane faz parte de dois times de Canoas, dois de São Leopoldo e um de Sapucaia do Sul. E o sexto compromisso já está engatilhado: no mês que vem jogará em mais uma equipe canoense. Em nenhum dos grupos - assim como ocorre na maioria das equipes amadoras na região -, ela ganha para jogar bola. "Eu jogo por amor mesmo."

Uma leopoldense de seleção brasileira

Praticamente todos os times profissionais de futebol feminino do Estado - e vários do País - tiveram a presença dela. E não só isso. Na maioria deles, ela ajudou a conquistar títulos que marcaram uma geração pouco acostumada com as mulheres em campo. Sandra Gomes dos Santos, a Mancha, é uma leopoldense, cidadã e jogadora do mundo.

Mancha nasceu na década de 70, numa época em que o futebol feminino era proibido por lei no Brasil. Como muitas gurias, começou jogando bola no meio dos meninos, no campo do ABC, no bairro Duque de Caxias, junto dos três irmãos mais velhos. Cresceu e o interesse pelo esporte também. Alheia à vontade da mãe, mas por incentivo do pai, que percebeu a habilidade e disciplina de Mancha, fez testes em alguns times. "Sofri muito preconceito, até dos próprios moradores do bairro", conta.

Um pouco tarde para os padrões atuais, Mancha começou a jogar profissionalmente aos 21 anos de idade. Passou por inúmeras equipes, colocando seu nome na história de todas elas. Entre tantos títulos, conquistou o bicampeonato gaúcho com o Inter, em 1998 e 1999; o campeonato carioca com o Vasco, em 1999; o bicampeonato gaúcho com o Grêmio, em 2000 e 2001, e o campeonato gaúcho com o Juventude, em 2003.

"E o mais importante: a convocação para a seleção, em 2001", lembra ela, citando uma das maiores conquistas da vitoriosa carreira. Pela atuação destacada, a meio-campista foi convocada, aos 27 anos, para jogar um torneio na Coreia do Sul, com a Seleção, tendo colegas de quarto como Cristiane, atual camisa 11 do Brasil.

CAMPEÃ TAMBÉM NO AMADOR

Apesar de defender vários clubes e a famosa amarelinha, o salário das jogadoras na época - e até hoje - era infinitamente menor do que o recebido pelos homens. "Não tínhamos carteira assinada, então, na época de férias, ia para o interior jogar nos clubes menores para conseguir um dinheirinho no mês", recorda. Aos 30 anos, resolveu que era hora de parar com o profissional, mas nunca ficou longe da bola, voltando-se para o futsal amador, onde também ostenta títulos - o time em que joga, Kennedy, foi o primeiro campeão da Liga Feminina de Futsal Amador Leopoldense, em 2017. Agora, com 45 anos, ela vê feliz a evolução de um esporte que ajudou a fazer crescer.

"É uma luta diária"

O futebol sempre esteve ligado à família da meia do Inter Maria Luiza Schwaizer, de 18 anos, que é nascida em Vale Real. Malu, como é conhecida, é irmã do centroavante Pedro Lucas, também do Colorado, e sobrinha do ex-lateral-esquerdo Tida - atual prefeito de Vale Real -, campeão da Copa do Brasil com o Juventude em 1999. Apesar da pouca idade, a atleta que acumula passagens pelo Santos-SP e pelas seleções brasileiras sub-15 e sub-17, tem buscado cada vez mais seu espaço no futebol feminino. Atualmente, ela integra o grupo sub-18 do Inter, que disputará em agosto o Campeonato Brasileiro da categoria.

Para Malu, a vida de uma atleta de futebol feminino é bastante árdua, mas recompensadora, principalmente pelas portas que vêm se abrindo para a modalidade. "Sempre falo que o futebol feminino é uma luta diária. E tanto a Cristiane, a Marta, e nós que estamos chegando agora, lutamos para que o futebol feminino tenha a mesma visibilidade que o futebol masculino, e para essas novas meninas que estão vindo terem uma qualidade de treino melhor do que a gente teve. Quando eu tinha 10 anos de idade não tinha onde jogar, hoje elas têm. O importante é não desistir nunca", destaca Malu.

VISIBILIDADE

Ainda na escolinha de futebol em Vale Real, Malu começou a jogar em meio aos meninos e em parceria com o irmão. "Entrei para jogar bola com o mano, porque nós fazíamos tudo juntos. Nos dois primeiros anos joguei com os meninos, e depois fizemos um time de meninas que jogavam futsal em Vale Real. Quando fui morar em Porto Alegre comecei a jogar na escolinha da Duda Luizelli, que hoje é a coordenadora do futebol feminino no Inter. Acho que toda menina começou jogando com os meninos", assinala. Para Malu, a sua passagem pelo Santos foi fundamental na carreira. "Foi quando descobri o futebol profissional. É um clube incrível, que mudou totalmente minha vida. Parecia que estava começando uma nova vida lá", afirma Malu, que em solo paulista atuou ao lado de atletas da seleção como Maurine e Thais Picarte.

PRECONCEITO

Na opinião de Malu, ainda há muito preconceito com o futebol feminino no Brasil. "Existe muito preconceito. Nosso País é muito machista ainda. Até, agora, na Copa do Mundo, quando lançaram o álbum de figurinhas, teve muito preconceito em relação a isso. Por que as mulheres não deveriam estar ali? Por que mulher tem álbum de Copa? Existe preconceito, mas acho que a nova geração está quebrando essas barreiras e isso está ajudando muito o futebol feminino", pontua a meia do Inter, que celebrou a expansão da modalidade com o Mundial. "Essa visibilidade na Copa é incrível, histórica. Está passando 100% na televisão. É muito legal eu poder voltar do treino e poder assistir aos jogos, e me inspirar nas meninas e ter elas como exemplos", completou Malu.

Profissional valoriza imagem e ganha espaço

A equipe do Grêmio vem firme em um objetivo na temporada 2019, a busca pelo acesso à elite do futebol feminino no País. O time, que é comandado pela hamburguense Patrícia Gusmão, está nas quartas de final do Campeonato Brasileiro A2 e, se avançar às semifinais superando o América-MG, garantirá presença na A1 em 2020. Além de Patrícia, a jovem Luiza Farinon, de 19 anos, nascida em Sapiranga, mas que cresceu em Novo Hamburgo, faz parte do elenco gremista pelo segundo ano consecutivo. Juntas elas querem atingir essa meta - os jogos ocorrem em 14 e 21 de julho - e para isso os treinos não param no Estádio Antônio Vieira Ramos, o Vieirão, em Gravataí, casa do Tricolor feminino.

Conforme a treinadora Patrícia, que foi jogadora e atua há cerca de 20 anos no futebol feminino, as mulheres têm ganho cada vez mais espaço, mas o preconceito sempre foi muito grande. "O futebol sempre foi visto como um meio masculino, então as meninas que sempre jogavam, se tinha aquele preconceito que 'futebol é para meninos, vocês têm que fazer outra coisa'. Hoje tem muitas meninas procurando a modalidade porque as meninas não precisam ser 'masculinas' para jogar. Pode estar com os olhos pintados, ter uma maquiagem. Vemos as meninas da seleção investindo muito na imagem, e quando começaram a cuidar mais conseguiram um espaço muito maior, juntando claro com a parte dentro de campo, porque não adianta ser só bonitinha e não saber jogar", destacou Patrícia.

FUTEBOL COMO COMÉRCIO

Patrícia acredita que para o futebol feminino crescer será preciso um olhar mais comercial para o esporte. "Quando o pessoal começar a ver o futebol feminino como um comércio, quando as empresas investirem e tiverem um retorno, acredito que se terá muito mais visibilidade e vamos conseguir crescer muito mais. Isso está acontecendo agora, as meninas estão sendo utilizadas para fazer propagandas. O próprio comércio poderia investir mais em materiais para as mulheres, porque tem muitas meninas jogando futebol", complementou a técnica do Grêmio.

Apoio da família e meta pessoal

Para a jovem Luiza Farinon, que surgiu para o mundo do futebol no projeto social do Atlético Clube Veterano, do bairro Canudos, tendo passagens pelas seleções brasileiras sub-15 e 17, o preconceito está enraizado em muitas famílias e a dificuldade começa aí. "O que mais envolve o futebol feminino é o preconceito da família, e eu nunca tive isso, sempre fui muito bem apoiada pelos meus pais, primos e tios", apontou a atleta, que antes de chegar ao Tricolor gaúcho atuou dois anos na Chapecoense. De acordo com Luiza, seu grande sonho e busca pessoal é voltar a vestir a camisa verde e amarelo. "Primeiramente é conseguir a vaga para o A1, que é o que o Grêmio almeja. Acredito que se a gente alcançar metas coletivamente, individualmente talvez me destaque e ajude a criar caminhos maiores. Eu gostaria muito de voltar à seleção, já tive uma passagem lá de três anos", observou Luiza.

Novo momento

Para a treinadora tricolor, as atletas da nova geração têm chances que na sua época eram mais escassas. "As meninas de hoje estão vivendo um mundo que eu não tive oportunidade de vivenciar, com grandes clubes de futebol investindo e proporcionando uma estrutura muito boa para podermos trabalhar. Nós temos um estádio para trabalhar todos os dias, as meninas têm alojamento, academia, então isso é muito importante para que a gente possa evoluir. Esse é momento delas procurarem o futebol feminino", acrescentou Patrícia, que durante a vida como atleta passou por clubes como Inter, Juventude, Corinthians, Botucatu (SP) e no futebol da Coreia do Sul.

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