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Acidentes com mortes de crianças mostram riscos que elas correm no trânsito

Especialistas destacam que a responsabilidade deve ser compartilhada

Por Bianca Dilly
Última atualização: 08.07.2019 às 17:42

Por Bianca Dilly

 

Os acidentes de trânsito são a principal causa de morte acidental entre crianças e adolescentes de 0 a 14 anos no Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Reflexo destes números, no último final de semana foram registrados dois acidentes com vítimas fatais dentro desta faixa etária na região. No domingo, um menino de 13 anos que andava de bicicleta foi atropelado às margens da BR-116, em São Leopoldo. Ainda no início da tarde de sexta-feira, um garoto de 10 anos foi atingido por um ônibus escolar no bairro Boa Saúde, em Novo Hamburgo, e veio a óbito na madrugada do domingo. Os casos expõem os riscos que os jovens correm ao circular pelo trânsito, seja em uma grande rodovia, ou mesmo dentro das cidades.

Nesse sentido, a mestre em Psicologia com especialização em psicologia do trânsito e fundadora do Instituto Ande Bem, Aurinez Rospide Schmitz, destaca que a responsabilidade pelo movimento das crianças nas ruas deve ser compartilhada. “A primeira coisa que temos que nos dar conta é de que a criança ainda está se desenvolvendo e não tem a maturidade do seu nível neurológico. Ela corre risco real no trânsito, pela incapacidade de avaliar os perigos”, diz.

Por isso, a diretora institucional do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-RS), Diza Gonzaga, lembra da necessidade de atenção para as partes mais vulneráveis do trânsito – pedestres e ciclistas, justamente os envolvidos nos casos dos últimos dias. “O maior deve sempre proteger o menor. Precisamos ter cuidado com a vida, que é muito frágil, e lembrar que o trânsito somos todos nós. Somos todos agentes de vida ou de morte”, relata. No Rio Grande do Sul, em 2018 foram 50 vítimas fatais de 0 a 14 anos de idade. Neste ano, até o mês de abril, são 17 mortes nesta faixa etária no Estado.

Riscos vão desde a imaturidade neurológica, até a estatura

São diversos perigos que os jovens correm no trânsito, de acordo com Aurinez. A psicóloga explica que, por essa razão, a contribuição de todos que utilizam as vias é indispensável. “Sem essa maturidade neurológica, as crianças não têm a capacidade de prever e calcular a distância, velocidade e tempo dos veículos. Assim, elas não conseguem avaliar se é seguro atravessar a rua, por exemplo”, descreve. A importância e o significado de circular no trânsito são temas que devem fazer parte do diálogo de educação e orientação. “Outra questão é a própria distração da criança. Ela vai priorizar qualquer coisa que chame mais a atenção, em detrição do risco que está correndo em meio aos veículos. Mesmo que esteja brincando com os seus amigos, o momento de atravessar a rua não é uma bobagem. É uma atividade séria e de risco, que precisa ser encarada com maior concentração”, acrescenta. Neste ponto, a profissional lembra que a rua não é o local adequado para brincar. “A gente incentiva muito que as praças e parques sejam melhor aproveitados. As crianças devem brincar no pátio, local em que estarão muito mais seguras”, pontua.

A própria estatura da criança é um risco que deve ser levado em consideração por quem está no trânsito. “Qualquer carro estacionado impede que ela veja um veículo se aproximando e precisa se adiantar para enxergar melhor, fazendo com que corra mais perigo. Então, atrapalha a visibilidade da criança e do condutor, o que precisa ser levado em conta”, resume Aurinez. Além disso, a utilização da bicicleta deve ser analisada com cautela. “No momento em que a criança usa a bicicleta, ela está muito mais suscetível, porque pode se desequilibrar, por exemplo. Mas os condutores também fazem parte desse contexto e tem que respeitar a distância de 1,5 metro da bicicleta. É um alerta até para os pais, que devem avaliar as condições do trânsito e da criança para fazer determinado percurso”, evidencia.

 

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A preferencial é das crianças

Segundo Aurinez, aqui cabe a orientação de que é diferente fazer o trajeto da rua em que reside até o supermercado, que seria uma zona de menor fluxo, comparando com a utilização de rodovias. Porém, Diza comenta que ambos os locais apresentam os seus perigos. “Andar nas avenidas é complicado, mas muitas vezes as crianças morrem a caminho da escola. E não é justificativa o motorista dizer que está dentro das normas. Não importa se a placa é de 60 quilômetros por hora e ele está dentro daquilo, a velocidade da via tem que ser dada pelo próprio trânsito. Se tiver uma criança, ele deve reduzir. Prudência é amor à vida. E trânsito é vida”, sublinha. Na maior parte das vezes em que há acidentes com crianças como vítimas fatais no trânsito, Diza ressalta que, da mesma maneira, há adultos envolvidos. “Ou as crianças estão sendo transportadas como passageiras, ou são atropeladas. Nós somos os responsáveis. As crianças podem ser descuidadas, os adultos, não”, aponta. Com tantos riscos, a diretora institucional do Detran-RS frisa que fatos como os de Novo Hamburgo e São Leopoldo não podem ser esquecidos. “As vítimas estavam iniciando agora a caminhada delas na vida. Por isso, temos que destacar que as estatísticas têm rosto e nome. Não podemos ir nos embrutecendo com esses números. Imagino, literalmente, como essas famílias estão hoje”, afirma.

Conforme a criadora da Fundação Thiago Gonzaga, é preciso pensar o que pode ser feito para evitar casos como estes. “É para isso que serve a prevenção. Temos que ensinar desde pequenos, na educação infantil, até a faculdade, a educação do trânsito para a vida”, conclui. Duas dicas que são repassadas pelas profissionais é de vestir as crianças com roupas ou acessórios coloridos, facilitando a identificação nas ruas, assim como pensar em alternativas positivas, como a ida a pé de várias crianças para a escola, mas acompanhadas e supervisionadas por pelo menos um adulto, em uma espécie de 'carona'.

Novo Hamburgo e a educação para o trânsito

Para reduzir os riscos de novos acidentes, Novo Hamburgo desenvolve ações que visam a educação para o trânsito em diferentes níveis. Entre as crianças e adolescentes, a maior parte deste trabalho fica com as escolas municipais, por meio da Secretaria de Educação (Smed). “No final de 2017, criamos o projeto 'Nós somos o trânsito', que vem sendo desenvolvido desde então. Em 2018, os coordenadores do programa Movimentos e Vivências na Educação Integral (Move) participaram de uma formação e se tornaram os multiplicadores da educação para o trânsito no contraturno escolar”, diz a coordenadora da Educação Integrada da Smed, Tânia Donaduzzi. A partir deste projeto, começou a ser realizada neste ano uma gincana com as 50 escolas municipais de ensino fundamental, em parceria com o Centro de Formação de Condutores (CFC) Valderez. “A cada 15 dias, lançamos uma tarefa, abordando as regras e mandamentos do trânsito em atividades lúdicas, como jogos”, acrescenta. Ainda, as escolas promovem projetos paralelos de educação no trânsito.

Já à diretoria de Trânsito, cabem as parcerias com entidades e ações de rua. “Temos feito campanhas pontuais de conscientização, principalmente em datas especiais e nas proximidades de escolas. Em relação à parte da sinalização, todo início de ano letivo procuramos passar nas escolas, rever placas, repintar faixas de segurança e corrigir o que precisa ser feito”, destaca o diretor de Trânsito, Ricardo Schiavon.

Por fim, a Guarda Municipal (GM) realiza fiscalizações e projetos de educação no trânsito. “O nosso foco é a segurança. “Desenvolvemos projetos nas escolas, com uma média de dez instituições por mês. Nestes locais, fazemos palestras, distribuímos materiais informativos e estimulamos a abordagem das crianças com seus pais. Além disso, temos o programa da Guarda Mirim, que tem um encontro por semana”, comenta o inspetor-chefe do setor de Educação da GM, Alexandre Henrique de Almeida.

Tragédias no trânsito

Novo Hamburgo

- Gabriel Thimoteo, de 10 anos, foi atropelado por um ônibus escolar na última sexta-feira (5), no bairro Boa Saúde, em Novo Hamburgo, e chegou a receber atendimento médico, mas não resistiu as ferimentos e morreu na madrugada do domingo.

- De acordo com o boletim de ocorrência, o ônibus trafegava pela Rua do Bosque quando, na altura do cruzamento com a Rua Artur Silveira dos Santos, o garoto teria atravessado a via, sem perceber a aproximação do veículo.

- Ainda na sexta-feira, a Prefeitura divulgou nota informando que o veículo que atropelou o menino era de “uma empresa terceirizada de transporte escolar” e que “a empresa está com a documentação em dia e a criança não estava em horário escolar”.

- Gabriel era estudante do 4º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Boa Saúde, que decretou estado de luto e suspendeu as aulas na segunda-feira.


São Leopoldo

- Um adolescente de 13 anos, de identidade não divulgada, morreu no início da tarde do último domingo (7), após ser atropelado por um veículo na via lateral à BR-116, no trecho de São Leopoldo.

- A vítima transitava de bicicleta pela contramão, quando foi atingida por veiculo Ford Ka, com placas de São Leopoldo, que transitava na pista lateral sentido interior-capital.

- A condutora do veículo, de 79 anos, fez o teste do bafômetro, que deu resultado negativo.

- O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou a prestar atendimento ao jovem, que não resistiu aos ferimentos.

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