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Notícias | Região Exclusivo

Garantia da Unick é área de posseiros no interior de Goiás

Loteamento de dois mil hectares que só existe no papel é oferecido pela empresa fiadora, a SA Capital, como seguro para os milhares de clientes no Brasil e exterior

Por Silvio Milani
Última atualização: 14.10.2019 às 07:05

Cúpula da Unick é formada pelo presidente, Leidimar Lopes, diretor de Marketing, Danter Silva, e diretor jurídico, Fernando Lusvarghi, que também é dono da SA Capital Foto: Reprodução
Alvo de investigação federal sobre fraudes financeiras e sem pagar milhares de pessoas no Brasil e exterior, a Unick Sociedade de Investimentos, sediada em São Leopoldo, ostenta parceria com uma empresa que deve servir de garantia para o pagamento dos clientes. É a SA Capital, de Bragança Paulista (SP). O problema é que a fiadora, com capital social de apenas R$ 70 mil, também está mergulhada em emaranhado de suspeitas. A começar pelo bem que ela oferece como "seguro". Não é nenhum fundo em dinheiro, mas uma área de terras povoada de imbróglios e demarcada por posseiros no interior de Goiás. Um descompasso diante dos bilhões arrecadados pela Unick com uma multidão de investidores atraídos pela promessa de rendimentos de até 3% ao dia.

O enredo se agrava no evidente conflito de interesses que envolve as duas empresas. O dono da SA Capital, Fernando Marques Lusvarghi, é o assessor jurídico da Unick. Como advogado da operadora de investimentos, ele vai mover ação contra a fiadora da qual é proprietário caso ela não honre com as garantias? Conseguiria ocupar o papel de autor da ação e réu ao mesmo tempo? Mais que procurador da Unick, Lusvarghi aparece como porta-voz dela ao defender a licitude do negócio em vídeos oficiais e palestras para clientes. A reportagem tentou contato com a SA Capital, mas ninguém atendeu ao telefone. Lusvarghi não foi localizado.

Rede confusa de imobiliárias

A cada aplicação, o cliente da Unick recebe um contrato por e-mail com certificado de fiança corporativa. Na documentação, a SA Capital dá como garantia o empreendimento Eldorado de Brasília, que teria dois mil hectares em Cristalina, cidade 280 quilômetros distante de Goiânia. Entram na confusa rede pelo menos três imobiliárias de Brasília, duas com o mesmo Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) e diferentes sócios. Procuradas, elas não se manifestaram. O sócio de uma delas, a Paraíso Sul Empreendimentos Imobiliários, alegou que não faz mais parte do negócio e desconversou sobre a natureza da parceria com a SA Capital e Unick.

Usucapião e propaganda enganosa

O loteamento foi matriculado no Registro de Imóveis em 1958, mas nunca recebeu obra de urbanização. "Aquela imensa área inóspita foi sendo tomada para plantações de soja e milho, ao mesmo tempo que iam sendo vendidos terrenos por imobiliárias. Quem comprou dificilmente vai conseguir a propriedade porque as novas gerações dos invasores têm direito ao usucapião", comenta uma funcionária da Secretaria de Obras de Cristalina. Os lotes garantidos pela Unick, conforme ela, vêm sendo vendidos ao longo dos anos por meio de propaganda enganosa. "As imobiliárias diziam que é perto de Brasília, o que atraiu compradores de vários Estados, mas fica a 100 quilômetros."

Dono foi perguntar se terra existe 

É estranho, mas aconteceu. Um sócio da Paraíso do Sul, então dona do loteamento Eldorado de Brasília, foi ao cartório de Cristalina, há três anos, para obter certidão de que a propriedade existe. O documento, gerado unicamente para dizer que o imóvel é real, foi assinado pelo oficial do Registro de Imóveis em 14 de setembro de 2016.

A promessa é de risco "risco zero"

A Unick divulga a fiadora como um trunfo decisivo para o negócio. "Nossa parceira SA Capital é uma multinacional brasileira privada que proporciona uma garantia real para nossos clientes, fazendo com que sua margem de risco fique igual a zero", diz, em nota, a Unick.


PF rastreia bilhões e empresa se diz honesta

Conforme revelado mês passado pelo Jornal NH, a Polícia Federal rastreia bilhões que teriam sido ocultados pelos diretores da Unick em paraísos fiscais da Europa e América Central. A Unick se diz honesta e reafirma, a cada vídeo nas redes sociais, que vai pagar os mlhares de clientes que não recebem desde julho.

"O que vou fazer com um terreno tão longe?"

Como milhares de clientes, o motorista de aplicativo de 21 anos, morador de Lindolfo Collor, se sentia amparado com a garantia que aparecia em contrato a cada aplicação. Mas questionava a distância da propriedade que teria direito caso não recebesse os rendimentos. Ele diz que perdeu R$ 30 mil.

Diagrama sobre empresas do caso Unick Foto: Arte GES


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