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Notícias | Região Juventude abreviada

A morte violenta de uma garota de 25 anos expõe o drama da população em situação de rua

Bárbara Muniz foi encontrada coberta de hematomas, com o corpo ensanguentado, violado, e com uma fratura no crânio, no interior de uma construção abandonada, em São Leopoldo

Por Jean Peixoto
Última atualização: 19.10.2019 às 07:00

Casa abandonada às margens da BR-116 virou local de crime violento Foto: Diego da Rosa/GES
Na tarde de 3 de julho Bárbara estava calada. Naqueles dias, o silêncio imperava. Mas o silêncio dela dizia muito. Talvez fosse o frio do inverno rigoroso que se anunciava, ou talvez fosse o prenúncio do que estava por vir.

Na Estação São Leopoldo, ela se despediu de amigos e partiu. Ninguém sabe ao certo para onde foi, mas Bárbara sempre sabia onde ir. O que ela não sabia é que dentro de poucas horas enfrentaria a mais dura de suas batalhas em meio a uma vida marcada por tantas lutas, entre elas, contra o abuso, o descaso e a drogadição.

Despida de suas roupas e de sua dignidade, Bárbara Muniz foi encontrada coberta de hematomas, com o corpo ensanguentado, violado, e com uma fratura no crânio, no interior de uma construção abandonada, na manhã do dia 4 de julho. Após três meses de internação no Hospital Centenário, no dia 7 de outubro, o fim. A morte de Bárbara entrava para a estatística das vítimas de um mundo que sabe ser cruel com os mais necessitados.

O drama

Na semana que antecedeu o crime, em julho, a jovem de sorriso farto e 25 anos recém completos teve uma recaída nas drogas. Sem ter a quem recorrer, procurou aquele que desde os 6 anos de idade a acompanhara: o vício. Segundo relatos de quem participou de sua trajetória nos serviços de Assistência Social leopoldense, Bárbara teria se tornado notícia na imprensa de Porto Alegre ainda bebê, quando teve os pés roídos por ratos. E na sua problemática trajetória ainda foi vítima de abuso sexual na pré-adolescência. As drogas viraram a fuga.

Saiu de casa aos 8 anos e a rua passou a ser a nova morada, até que foi amparada na Casa de Acolhimento para Crianças e Adolescentes de São Leopoldo. Até participou do Programa Esporte Integral (PEI) da Unisinos.

Enfrentamento

Quando passou a ser atendida pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps), Bárbara participou de encontros com alunos do curso de Psicologia da Unisinos que faziam estágio na unidade. "Eles a abraçaram", lembra uma das profissionais que a atendia. A partir daí, os alunos passaram a incentivar a jovem a desenvolver seu protagonismo e autonomia. Bárbara se tornou popular no meio universitário, participando de palestras, conferências e rodas de conversa sobre temas transversais à sua história.

Antes de completar 18 anos, Bárbara engravidou. Ela foi mãe de um menino. Mas, alguns meses depois, ela perdeu a guarda. Testemunhas contam que uma avó iria adotá-lo, mas ela faleceu no dia em que assinaria os documentos. Depois disso, Bárbara nunca mais teve notícias da criança. Amigos relatam que após a morte da avó ela voltou ao consumo abusivo de substâncias psicoativas. "Ela teve mais de uma gravidez psicológica", lembra uma amiga.

Na fase adulta, Bárbara teve como lar, por alguns anos, o Albergue Municipal de São Leopoldo, no mesmo prédio onde ficava o Centro Pop - Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua - recentemente desativado pelo Município por falta de recursos e pessoal. A jovem foi usuária de crack, mas graças ao atendimento nos serviços de acolhimento se manteve sóbria durante bons períodos. "Ela teve muitos momentos em que esteve bem. Sem usar nada. Mas, nos últimos tempos, tinha voltado ao uso abusivo", comenta a amiga.

Uma jovem admirada

Bàrbara Muniz Foto: Reprodução
"Falante". "Extrovertida". "Carismática". "Carinhosa". "Generosa". Estes são alguns dos adjetivos citados pelas pessoas que conviveram com Bárbara.

Em seu pulso havia um nome tatuado em homenagem a uma amiga, que conhecera em uma das visitas ao gabinete da vice-prefeita, Paulete Souto, que também se tornou amiga. "Conhecia a Bárbara quando veio apresentar algumas demandas do seu bairro. Comecei a acompanhá-la em diversos movimentos que ela fazia junto aos moradores de rua. Era uma menina doce, apesar de todas as dificuldades da vida que levava", comenta Paulete. Uma das amigas de Bárbara conta que procurou incentivá-la a retomar os estudos. "Tentei orientar ela diversas vezes, mas de vez em quando ela sumia. Ela iniciou o EJA (Educação de Jovens e Adultos), em Esteio. Foi uma excelente aluna, mas parou, provavelmente por uma recaída."

Bárbara não tinha paradeiro fixo e nem fazia questão de prestar contas. Para alguns, dizia que morava em uma barraca na calçada do Hospital Centenário. Para outros, que ficava com amigos sob os trilhos do trem. A única certeza que todos tinham era de que ela sempre voltava. Até o dia em que não voltou.

Expectativa de alta de pessoas em situação de rua

Marilene Maia Foto: Divulgação
A professora do curso de Serviço Social da Unisinos e coordenadora do ObservaSinos, Marilene Maia, comenta que há uma perspectiva de crescimento da população em situação de rua e vulnerabilidade social nos próximos anos. "Essa é uma questão que não se resolve apenas com políticas assistenciais, mas também com políticas econômicas." O desemprego é um fator de risco e Marilene comenta que a sociedade, em geral, não se sensibiliza com um adulto em situação de rua. "A mesma sociedade que, quando vê uma criança em situação de pobreza, fica comovida, não reconhece a família como desprotegida. Eles são tachados como perigosos, mas nem sempre se leva em conta que eles não estão assim por opção, mas porque um conjunto de fatores os levou a isso".

Nilson, uma história de superação e lutas

Nilson Lira Foto: Reprodução
Natural de Tupanci do Sul, nordeste gaúcho, Nilson Lira Lopes, 58, compartilhou com Bárbara mais do que os espaços de acolhimento de São Leopoldo. Juntos, ajudaram a construir uma rede de apoio à população em situação de rua. Nascido em família pobre, com 8 irmãos, ainda criança se deparou com o vício do pai alcoólatra. Aos 6 anos, engraxava sapatos para ajudar a família. Aos 18, já era dependente do álcool. Depois da maconha. Aos 28, foi ao Rio ver os fogos de ano-novo. Mas gastou o dinheiro da volta em drogas e viveu nas ruas pela primeira vez. Só voltou ao Sul um ano depois. Integrou o MST e vagou pelo Estado. Em 2006 veio para São Leopoldo morar com a mãe e uma irmã. Aí o crack surgiu. Para sustentar o vício, fazia serviços nas casas. Um dia, drogado, se feriu e não pôde mais trabalhar. Pediu ajuda à mãe, dona Laura, de 79 anos. "Em 2011 decidi parar. Procurei o Cras." A partir daí, mudou a vida e decidiu ajudar outras pessoas que enfrentavam dificuldades semelhantes às suas. Ajudou a fundar o Fórum Municipal dos Usuários do Sistema Único de Assistência Social de São Leopoldo, com forte atuação entre moradores de rua. Bárbara também participou da fundação do Fórum. "E ela acabou morrendo desse jeito. Quantas Bárbaras mais precisarão morrer?", questiona Nilson sobre o trágico fim da jovem que em 25 anos conheceu tão de perto as tragédias da vida.

Como é o atendimento a pessoas em situação de rua

Novo Hamburgo

Os serviços para a população em situação de rua no Município são prestados na Avenida Nicolau Becker, 989. O Centro POP funciona de segunda à sexta, das 8 às 17 horas. Atende aproximadamente 200 pessoas por mês. O serviço de Abordagem Social que localiza e presta atendimento para as pessoas em situação de rua e pode ser acionado pelos telefones (51) 3527-1882/1874 e (51) 9-99929679.

São Leopoldo

Com o fechamento do Centro POP, o município concentra os serviços no Creas e nos Cras na Secretaria de Assistência Social atende no fone (51) 3568-7176. Outro espaço é Albergue Municipal Bom Pastor, que funciona todos os dias das 19h às 7h, na Avenida Caxias do Sul, 194, Bairro Rio dos Sinos. O telefone de contato é (51) 3568-5291 | (51) 8923-0640.

Canoas

O atendimento é no Centro POP da Avenida Rio Grande do Sul, 1770, no Bairro Mathias Velho. O atendimento é de segunda a sexta-feira, das 8 às 12 horas e das 13 às 17 horas. O telefone para contato é (51) 3472-7122. No mesmo endereço funciona o Albergue Municipal, das 19 às 7 horas. O Centro de Referência Especializado atende das 8 às 17 horas, de segunda a sexta-feira, na Rua Major Ernesto Wittrock, 74, Centro, no telefone: (51) 3478-3079.

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