Notícias | Região Mais de R$ 10 bilhões

Vale do Sinos vira líder mundial em pirâmides financeiras

Unick e InDeal, construídas em Novo Hamburgo, mais a D9, derrubada em Sapiranga, deixaram prejuízos bilionários no Brasil e exterior nos últimos dois anos

Por Silvio Milani
Última atualização: 21.10.2019 às 07:54

Agentes federais Foto: nono
O Brasil assistiu, em cinco meses, duas das maiores operações da história da Polícia Federal contra pirâmides financeiras, ambas arquitetadas em Novo Hamburgo. Juntas, passam de R$ 10 bilhões captados com mais de um milhão de investidores. A maior parte do dinheiro sumiu, possivelmente em paraísos fiscais e na conta de laranjas. Nos escombros, ficou uma multidão de clientes desesperados, que não receberam os valores aplicados nem os rendimentos prometidos a juros irreais no mercado de capitais, de, no mínimo, 15% ao mês. Há dois anos, já havia sido derrubada uma pirâmide em Sapiranga, também com vítimas em todo o País. Nenhuma outra região no mundo concentrou os números faraônicos do golpe de 2017 a 2019.

Mas por que o Vale do Sinos? "Por algum motivo, esses estelionatários se sentiram atraídos à região, onde acabaram criando expertise e sucessores", comenta o delegado da 1ª DP de Novo Hamburgo, Tarcísio Kaltbach. Foi ele quem começou, em outubro do ano passado, as investigações contra a Unick Sociedade de Investimentos, considerada a maior pirâmide do mundo nos últimos anos, e a InDeal Consultoria em Mercados Digitais.

"Também acredito que os piramideiros busquem o Vale do Sinos pela concentração de riqueza e o alto poder aquisitivo, além da posição geográfica, que liga Porto Alegre à Serra, atraindo clientela tanto de empresários quanto de pessoas com menor poder aquisitivo", acrescenta Tarcísio. As investigações rapidamente perpassaram os degraus do estelionato e chegaram a crimes contra o sistema financeiro, de competência da Polícia Federal. E o caso das duas empresas foi para a Superintendência Regional da PF, em Porto Alegre, que aprofundou a apuração com apoio da Receita Federal.

"Freio moral"

"Não havia freio moral que os impedissem de continuar", declarou o delegado de Repressão à Corrupção e a Crimes Financeiros, Aldronei Rodrigues, na manhã da última quinta, quando deflagrada operação contra a Unick. Ele se referia à desfaçatez da empresa em continuar vendendo pacotes financeiros mesmo com a proibição e advertências impostas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia do governo que regula o mercado de capitais. A InDeal, fechada cinco meses antes, também com dez presos (cinco sócios e cinco colaboradores próximos), estava na mesma situação irregular.

O caso que acabou em morte brutal

Sapiranga não era a sede mundial da D9 Trader, mas foi um inquérito na Delegacia de Polícia da cidade que fechou a pirâmide e prendeu quatro líderes, em setembro de 2017. "Conseguimos desbaratar o esquema, que tinha atuação em todo o Brasil e vários países", recorda o delegado Fernando Pires Branco, que coordenou a investigação. Até então, era a maior operação no País contra pirâmide financeira.

Apontado como chefe do esquema no Estado, o sapiranguense Márcio Rodrigo dos Santos, 37, obteve liberdade e foi brutalmente assassinado por investidores em Balneário Camboriú, no litoral catarinense. O corpo foi encontrado carbonizado no carro dele, um Audi A4, na madrugada de 12 de setembro do ano passado. O líder no mundo, o baiano Danilo Vunjão Santana Gouveia, 35, já morava nos Emirados Árabes, onde acabou capturado pela Interpol por meio de mandado expedido por Sapiranga. Curte vida de luxo em suposta prisão domiciliar, com os milhões da D9. O Ministério Público de Sapiranga tenta a extradição para o Brasil.

Heranças para amaior de todas

A extinta D9 deixou nítidas heranças para a Unick, que viria a se tornar a maior das pirâmides. A ostentação de carros de luxo, dinheiro, joias e viagens nas redes sociais, no estilo "você também pode", era uma marca da D9 que foi nitidamente copiada pela Unick. O poder de atrair novos clientes, em reuniões que iam de encontros em bairros a grandes eventos, é outra marca comum. Os líderes verborravam com técnicas de convencimento na mais autêntica moda coach.

Coadjuvante se tornou estrela e acabou preso

Mas a maior herança da D9 para a Unick foi no departamento pessoal. Réu na extinta pirâmide de Sapiranga, mas na condição de coadjuvante aprendiz, Danter Navar da Silva, 23 anos, ajudou a construir a gigante de Novo Hamburgo como diretor de Marketing. Com a visibilidade de garoto-propaganda da Unick, se tornou também um dos principais alvos da investigação e acabou preso na operação da semana passada.

Dissidentes perpetuamo golpe

Líderes de segundo escalão da Unick estão se valendo do desespero de investidores lesados para criar e oferecer novas pirâmides financeiras. A prática está escancarada em grupos de WhatsApp de vítimas de vários Estados. A ideia é reaver o prejuízo no topo das estruturas, sendo remunerados pelos que vão entrando. Vão ganhando muito dinheiro até o esquema se sustentar com uma base para pagar os primeiros. Um dia a estrutura rompe, e a maioria sai perdendo. Entre "faraós" e "escravos", o golpe não para.

Faraósda ilusão

Adorados pelos clientes enquanto o negócio rendia, os cabeças das pirâmides teriam conseguido ocultar bilhões de reais em contas laranjas e paraísos fiscais, conforme as investigações. Com eles, a Polícia conseguiu apreender alguns milhões em dinheiro e bens, mas longe do suficiente para pagar os investidores.

D9

Danilo Santana Foto: nono
Quatro foram presos em operação da Polícia Civil de Sapiranga, em setembro de 2017, entre eles Márcio Rodrigo dos Santos. Como foi assassinado, ele não está entre os 23 denunciados pelo Ministério Público, como Danilo Santana, que mora nos Emirados Árabes.

Unick

O triunvirato da Unick está preso, segundo a Polícia Federal, que capturou outros sete na última quinta e cumpriu 65 mandados em São Leopoldo, onde hoje é a sede da empresa, além de Porto Alegre, Canoas, Caxias do Sul, Curitiba (PR), Bragança Paulista (SP), Palmas (TO) e Brasília (DF).

InDeal

Os cinco sócios da InDeal e cinco colaboradores mais próximos foram presos pela PF em operação na manhã de 21 de maio. Eles foram sendo soltos aos poucos até os últimos ganharem liberdade, em agosto. Além deles, há mais seis denunciados pelo Ministério Público Federal.


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TAGS: D9 Indeal Unick
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