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Notícias | Região Entrevista

Nadine,um ano depois

Primeira chefe da Polícia Civil gaúcha mantém prioridade no combate à violência doméstica, no trabalho integrado e na humanização do atendimento nas DPs

Por Débora Ertel e Silvio Milani
Última atualização: 07.12.2019 às 20:16

Delegada Nadine Anflor Foto: Juarez Machado/GES
"Está preparada?"

"Para quê?"

"Para ser chefe de Polícia. Não conta para ninguém. Vamos anunciar às 3 da tarde."

O convite do vice-governador eleito Ranolfo Vieira Júnior à delegada Nadine Anflor, em breve diálogo na manhã de 20 de dezembro do ano passado, marcava o início de uma nova era na Polícia Civil gaúcha. Pela primeira vez uma mulher assumiria a instituição, que completou 178 anos na última terça-feira.

Eram 9 horas. Pega de surpresa, Nadine aceita e reserva o intervalo de almoço para levar a notícia ao marido e ao filho. "Temos uma nova missão na família agora. Fui convidada para a Chefia e já vão me anunciar às 15 horas", comunica ela ao marido, Elmo, servidor do Judiciário, e ao filho, Carlos Eduardo, então com 8 anos. Mesmo assustado, Elmo apoia. "Vai. A gente está contigo." Então o anúncio é feito à tarde por Eduardo Leite.

Quase um ano depois, a delegada destaca a queda nos principais índices de criminalidade, frisa a necessidade de integração interna e com outros órgãos de segurança, cita um processo contínuo de humanização do atendimento ao público nas delegacias e mantém o foco na prioridade de sua gestão: o combate à violência doméstica.

De sorriso fácil, rosto sereno e voz firme, Nadine tem a carreira marcada pelo pioneirismo. Também foi a primeira mulher a presidir a Associação dos Delegados de Polícia (Asdep), entre 2015 e 2017, e a primeira coordenadora das Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher (Deam) de todo o Estado, de 2010 a 2013. Ao representar a Polícia Civil em seminário internacional de segurança pública, em 2011, teve papel decisivo para que agentes grávidas não precisassem participar de operações. "A gente fez uma pauta sobre isso. As mulheres estavam de barrigão e iam fazer operação. Bota como colete? Não tem como! Não há o equipamento para grávida", recorda.

Postura

Delegada Nadine Anflor Foto: Juarez Machado/GES
Nadine é natural de Getúlio Vargas e tem 43 anos. Estreou como delegada em Santo Antônio da Patrulha, em 2004. Debutar na Polícia Civil já no posto máximo não a assusta. "Me sinto lisonjeada por ter quebrado essa barreira." Enfrentou situações de preconceito, como a do preso por Maria da Penha que se negou a ser interrogado por uma mulher. Por outro lado, garante que nunca sofreu assédio na Polícia. "Embora sei que ocorre na instituição, nunca deixei que acontecesse comigo. A postura também faz com que a gente interrompa isso." As mulheres já são 38% dos mais de 5 mil policiais civis gaúchos.

Para Nadine Anflor, comunidade deve se sentir acolhidano serviço público da delegacia e segura para colaborarcom informações úteis a investigações

Como a senhora avalia seu primeiro ano de gestão?

Nadine Tagliari Farias Anflor - Ao longo do ano buscamos estabelecer mais integração. Conseguimos trocar mais informações entre departamentos operacionais, por exemplo, como Denarc e Delegacia de Homicídios. Muitas informações interessam a ambos. Os crimes são muito interligados. Mas não só integração entre policiais civis e departamentos, também entre os órgãos de segurança pública e com todo sistema de justiça criminal, trocando mais informações entre Brigada Militar e Polícia Civil, que sempre tiveram alguma rixa. Cada uma com suas atribuições constitucionais, conseguimos aproximar as polícias de modo geral. A queda de indicadores de criminalidade em 2019 foi pelo trabalho dessas corporações e integração.

E a criminalidade no Vale do Sinos?

Nadine - Novo Hamburgo e São Leopoldo, que estão entre os 18 municípios mais violentos do Estado, são contemplados com o programa estruturante RS Seguro. Nesses 18 tivemos os mesmos indicadores da curva de criminalidade que no Estado. Chegamos à conclusão de que, se diminuíssemos a criminalidade neles, automaticamente reduziríamos no Estado. E é exatamente o que acontece.

Mas não migra para as cidades próximas?

Nadine - Migra, mas não de uma forma tão intensa. Conseguimos observar que, quando a gente atua em determinado lugar e prendemos os líderes, a criminalidade cai efetivamente. Podem até migrar, um ou outro, ou até se reestruturar em determinado local, mas leva um certo tempo.

Quais os crimes que mais preocupam?

Nadine - Temos exemplos no Estado como um todo, com redução de 12% de feminicídio, 24% de homicídio e mais de 30% de roubos de veículos na comparação de 2019 com 2018. São indicadores muito expressivos de que funcionou a integração e a prioridade de ação em determinados locais.

E quais devem ser combatidos com mais força?

Nadine - Os CVLIs (crimes violentos letais intencionais) têm que ser prioridade de qualquer polícia no mundo. A gente sabe que um lugar seguro se mede pelo indicador de homicídios. A gente amplia as prioridades nos CVLIs para outros crimes. Daí trazemos o latrocínio, que na minha concepção é um dos piores, de matar para subtrair determinado objeto. Tivemos indicadores em queda no latrocínio e no Vale do Sinos não é diferente.

Como combater homicídios?

Nadine - Quase 90% dos homicídios são ligados ao tráfico de drogas. O trabalho de investigação policial é o que efetivamente faz com que se reduza. Não que o trabalho preventivo não seja importante, é fundamental, mas o homicídio se reduz investigando, identificando os autores e os segregando. A descapitalização do crime organizado é essencial. A gente precisa tirar o dinheiro para diminuir o poder. Em 2019, avançamos muito nessa estratégia dentro do Deic, com a criação da DCCOR (Divisão Estadual de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro).

Corrupção está em toda parte.

Nadine - Sim, também entre agentes públicos. Há uma criminalidade macro que fomenta. O combate à corrupção se dá principalmente com repressão ao crime de lavagem de dinheiro. No Vale do Sinos, devemos inaugurar ainda este ano a Draco (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas), instalada na regional em São Leopoldo.

E quanto ao atendimento nas delegacias?

Nadine - Se falei na integração que já conseguimos, a gente melhorou muito o atendimento, está mais humanizado. A pessoa deve ser bem atendida numa delegacia. Somos servidores públicos. A gente está ali para servir ao público. A gente precisa ter espaços adequados. E aí fico muito feliz porque a Central de Polícia de Novo Hamburgo está sendo reformada. É uma situação que nos deixa tranquilos no Vale do Sinos porque sabemos que os delegados e agentes já eram extremamente comprometidos com a qualidade e mesmo assim estão buscando inovações, ampliando o espaço para ser mais acolhedor e agradável.

Como deve ser a recepção nos plantões?

Nadine - Primeira coisa é ter espaço adequado. Segundo, Temos falta de efetivo histórica. A gente também precisa ampliar e ampliou os serviços on-line. A nossa delegacia on-line, que hoje possui inúmeras ocorrências, até o fim do ano terá ainda mais para poderem ser registradas pelo celular, com o compromisso de em até duas horas estarem chanceladas. Precisamos deixar os balcões das delegacias para os crimes mais graves, que dependem de um acolhimento pessoal, que precisam daquele contato entre policial e vítima.

Por que a senhora decidiu ser policial?

Nadine - Acho que sempre fui policial e não sabia (risos). Sou a irmã mais velha e também a mais velha dos primos. Desde criança fomos criados juntos. Talvez até por exigência dos meus pais e tios, eu tinha que ser exemplo e me sentia responsável por eles. Sempre briguei pelo justo, pelo correto. Já tinha traços de polícia para que tudo andasse na linha. Acabei fazendo Direito e vindo para Porto Alegre. Num primeiro momento queria ser promotora de Justiça. Fiz concurso para assessora do Ministério Público e tive a sorte de trabalhar por dois anos na Vara do Júri de Porto Alegre com o grande promotor de Justiça, o doutor Marcelo Ribeiro. E lá, pegando todos os inquéritos, vi o quanto era importante o trabalho da Polícia. Observava que era aquele trabalho feito no calor dos fatos que condenava ou absolvia o autor dos fatos. Me encantei com os inquéritos e decidi fazer concurso para delegada de Polícia. Ingressei em 2004.

É pouco tempo para chegar à Chefia.

Nadine - Sim, mais pelo fato de ser mulher. Dentro da nossa instituição já somos chefes de investigação, chefes de cartório, mas não tínhamos diretoras de departamentos operacionais, que são 12. Agora, pela primeira vez, são divididos em seis homens e seis mulheres na direção.

A divisão foi proposital?

Nadine - Foi algo muito natural. Quando sentamos, eu e o delegado Fábio, nosso subchefe de Polícia, conversávamos sobre quem convidaríamos para nossa equipe. E sempre aparecia um homem e uma mulher. Pela competência. Uma feliz coincidência.

Depois da chefia da instituição, o que acontece?

Nadine - Eu vou permanecer na minha instituição. Pode ter certeza que vou continuar ajudando. Estou no topo, mas posso voltar para uma delegacia e não terei problema em fazer isso. Inclusive tenho visitado algumas regionais e dito: "Quando eu sair da chefia me esperem, eu gostei daqui." A vida é assim. Não penso em me aposentar, nem em ir embora. Tenho muito o que fazer. Temos a possibilidade dos ex-chefes atuarem no Conselho Superior da Polícia Civil, que julga os policiais.

Nadine revela que já foi convidada para disputar eleições de diversos cargos. "E eu sempre digo que só tenho um partido. Ele se chama PC: Polícia Civil."

Delegada Nadine Anflor Foto: Juarez Machado/GES

A senhora já sofreu discriminação no trabalho?

Nadine - Todas nós sofremos de alguma forma. Lembro da minha primeira semana em Santo Antônio da Patrulha. Atendi um cidadão no balcão, ao lado de um agente, que estava registrando ocorrência de furto, em outubro de 2004. Lembro como se fosse hoje. Aprendendo ainda, entrando na instituição, fiquei do lado do policial. O cidadão olhou para mim e disse. "Obrigado, moça, eu gostaria de falar com o delegado." O policial me olhou, olhei para ele e disse: "Eu sou a delegada de Polícia de Santo Antônio da Patrulha. Muito prazer." E estendi a mão. Mas ele insistiu que queria falar com o delegado, porque nunca havia tido mulher no cargo. Estava surpreso. Não queria acreditar. Só acreditou quando levei ele para meu gabinete. Depois me pediu desculpas. Ficou tudo certo, mas foi marcante. Depois outros fatos que vão acontecendo.

E ofensa grave?

Nadine - Ah, se eu disser que fui maltratada ou desrespeitada, não. Eu não deixava isso acontecer. Se eu sentia que podia vir alguma ofensa, levantava a cabeça, entendeu? Sempre fui muito amável, gosto de pessoas, mas profissionalmente, se tiver que me impor, eu vou. A gente tem que ter tato. Lembro de outro caso, no plantão em Gravataí. Chegou um preso de Maria da Penha, alterado. Me apresentei e disse que o interrogaria. Ele gritava. Disse que não ia falar, porque não fala com mulher, que a mãe nem a mulher mandavam nele, e que não seria uma delegada. Daí eu disse: "Ok, pode tirar a algema, passa para o xadrez e não tem mais conversa. Não vou te ouvir." E lá ficou. Só que imediatamente chegou outra situação de violência doméstica, porém sem os requisitos de flagrante. E esse segundo autor ficou ao lado dele. Esse segundo foi extremamente educado. Registrei a ocorrência e, em meia hora, tive que liberá-lo. Na cabeça do que foi preso em flagrante por violência doméstica e familiar, ficou algo no ar. Pediu para falar com a delegada. Começou a pedir desculpa. Imaginou que o outro foi liberado porque tratou bem. E mesmo na hora da saída para o presídio, 24 horas depois, baixou a cabeça, deu tchau educadamente. Isso me marcou. Eu ainda disse: "Aprende a respeitar tua mulher, tua mãe, para não restar só a cadeia para ti."

Como é a relação com a família? Acaba levando para casa o que vive na Polícia?

Nadine - Acho que, para nós policiais, é muito complicado não levar nada para casa. Mas eu, graças a Deus, tenho uma estrutura familiar, um marido que é companheiro, um filho que é maravilhoso. Eu acho que o maior desafio é educar. Muito mais do que ser uma delegada de Polícia, o desafio é educar esse ser. Quando descobri a gravidez, estava na Delegacia da Mulher. Estava no auge de ser feminista e pensei: bom, vou ter uma filha mulher. Mas, não! É um filho homem. Aí eu vibrei porque essa era mais uma das minhas missões: criar um homem que enxergue um mundo igual. Foi realmente assim e ele tem essa visão. Ele é extremamente educado, cumpridor de regras, pois a mãe é um pouco polícia dentro de casa, mas acho que essa é uma das nossas missões também. Educar e dar liberdade. Tem que dar liberdade, mesmo que ele tenha 9 anos de idade. Aquela liberdade vigiada, mas que traz responsabilidade. Eu sinto que ele vai ser um homem responsável e isso é muito bom para uma mãe. Às vezes eu acho que sou muito dura, mas está certo, pois as crianças precisam efetivamente de regras. Claro que ele sabe do universo, do mundo em que eu vivo, dos perigos. Ele tem o maior orgulho de dizer "a minha mãe é chefe de Polícia". Eu sinto isso nele.

Como frear a violência contra a mulher?

Nadine - É muito triste este tipo de violência porque a gente consegue reduzir todos os indicadores de criminalidade. A gente sabe como diminuir homicídio e roubo de veículo. Mas o crime da violência contra a mulher é muito complicado e não depende só de nós. Depende de uma mudança na sociedade. 70% das mulheres que morrem no Rio Grande do Sul nunca fizeram uma ocorrência policial. Morrem caladas. Então esse é grande desafio. Estamos dentro dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher. O que estamos fazendo? É uma campanha diferente. Chega de dizer para a mulher que ela precisa denunciar. Chega de mostrar aquelas figuras com o olho roxo, o dente quebrado, a mulher lesionada. Isso a gente fez a vida inteira e os indicadores continuam os mesmos. Então a gente chegou à conclusão de que precisa trabalhar uma mudança cultural nos adolescentes. Em Porto Alegre, a campanha já começou com outdoor dizendo: "alerte, denuncie", com a figura de adolescentes. Trazendo aquela ideia que é preciso fazer uma grande rede de proteção. Precisamos trabalhar com os meninos de 7 a 16 anos dizendo que as mulheres são iguais e que não são posse, propriedade. Porque é isso que mata, é esse sentimento de objeto. Então nós vamos trabalhar com isso.

Por que essa realidade?

Nadine - Por vários fatores. Por medo, por dependência econômica, porque amam. Por trás de cada mulher tem uma história, um contexto familiar. Então o que a gente começou a fazer. Vamos abrir novas delegacias da mulher? Não temos efetivo suficiente. Além disso, não temos delegacia da mulher 24 horas. Então, como fazer? A gente voltou a capacitar os plantonistas. Temos 44 delegacias de pronto-atendimento e são nessas delegacias que vamos reforçar esse trabalho. Criamos a Sala das Margaridas, com o simbolismo de a margarida ser uma das flores mais resistentes.

Como é a postura diferenciada no atendimento?

Nadine - Formação. Todas essas Salas das Margaridas só são inauguradas depois de uma capacitação de todos os servidores da região.

Qual sua arma preferida?

Nadine - A minha (risos). É a minha funcional, .40. Tenho uma 9 milímetros também.


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