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Unick contratou policial federal aposentado para espionar investigação

Pirâmide financeira contou com serviços de agente ligado a ex-diretores da PF, dentro de uma rede de intrigas, traições e falcatruas Reportagem: Silvio Milani

Na medida em que avançam as investigações sobre a Unick Sociedade de Investimentos, a Polícia Federal vai escavando uma tumba cada vez mais profunda de falcatruas, intrigas, traição e até espionagem. A maior pirâmide financeira do País, arquitetada em Novo Hamburgo, chegou a contratar empresa de inteligência corporativa para monitorar as investigações. O dono, policial federal aposentado, é ligado a ex-diretores da PF e mencionava contatos com autoridades do alto escalão da República. Ele caiu em escutas com gestores da Unick, antes das prisões da cúpula da pirâmide, e contaria com colegas inativos na equipe de arapongagem. Ainda não foi denunciado.

Conforme as investigações, o policial aposentado teria sido contratado pelo advogado agora apontado como espécie de gestor internacional da Unick, Fernando Baum Salomon, em 22 de maio deste ano, um dia após a deflagração da Operação Egypto, contra a outra pirâmide de Novo Hamburgo, a InDeal, que teve cinco sócios e cinco colaboradores próximos presos. Salomon teria demonstrado preocupação sobre possível investigação também em relação à Unick e pedido para o policial apurar.

Vantagem

Segundo a PF, Salomon foi específico. Queria saber se havia inquérito contra ele e o presidente da Unick, Leidimar Bernardo Lopes. O delegado Aldronei Rodrigues, responsável pela Operação Lamanai, que derrubou a Unick em 17 de outubro, acredita que o policial inativo conseguiu obter informações sigilosas para o cliente, pois, após os primeiros contatos, Salomon evitou diálogos que o envolvessem com fraudes financeiras. O inquérito indica que o contratado conseguiu dados das investigações com colegas da ativa, mas não especifica quais. Uma das vantagens seria a apreensão de somente R$ 200 milhões da organização criminosa, entre bens e dinheiro, num montante de R$ 28 bilhões movimentados. No pacote da espionagem, segundo a PF, havia ainda os serviços de um hacker

"Dá um aperto, mas não mata"

Com o passar do tempo, as interceptações telefônicas mostraram contatos mais frequentes para que os detetives cobrassem um líder da alta hierarquia da Unick, responsável pela captação de centenas de clientes, suspeito de desviar a arrecadação para conta particular. Líder da categoria "duplo diamante", ele próprio se encarregava de remunerar os investidores, conforme considerasse conveniente. Ou seja, mantinha uma pirâmide dentro da pirâmide, assim como outros líderes pelo País. A ideia era pegar pesado nas ameaças, com agressões físicas, se necessário. "Dá um aperto, mas não mata", foi o conselho dado por um diretor da Unick ao policial.

 

Escutas

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Advogado seria chefe oculto do esquema

 

O advogado Fernando Baum Salomon, 54 anos, está em prisão domiciliar em Porto Alegre Foto: Reprodução
Não foi à toa que o advogado porto-alegrense Fernando Baum Salomon, 54 anos, teria contratado e gerido o serviço de espionagem em favor da Unick. As investigações da PF o revelam como um dos principais gestores da pirâmide financeira. Seria o responsável pelas operações mais sofisticadas da empresa, como sua internacionalização. De acordo com as investigações, arrumou uma offshore no Panamá e abriu contas em Belize por meio de um doleiro conhecido da PF em outras operações por fraudes financeiras. Além dos dois países da América Central, boa parte do patrimônio da Unick teria sido também ocultado em paraísos fiscais na Europa, como Mônaco e Luxemburgo. Ainda conforme o inquérito, o advogado ajudou a lavar dinheiro com a compra de ações do banco do Estado de Santa Catarina (Besc).

Mas Salomon não aparecia. Não gravava vídeos nem dava efusivas palestras, como o presidente, Leidimar Bernardo Lopes, 39, o diretor de Marketing, Danter Silva, 23, e o diretor Jurídico, Fernando Marques Lusvarghi, 33. Por serem advogados, Salomon e Lusvarghi estão em prisão domiciliar, com tornozeleira eletrônica, pois não havia disponibilidade das chamadas salas de estado-maior destinadas a presos da categoria. Outra advogada denunciada, apontada como aliada de Salomon, é a leopoldense Caren Cristiani Greff de Oliveira, 36, também submetida a monitoramento eletrônico em casa. Já Leidimar e Danter seguem na cadeia.

Defesa nega crimes

A defesa de Fernando Salomon afirma que ele não exercia função de gestor na Unick. "Meu cliente foi contratado pelo Leidimar, em meados de 2018, para trabalhar na regularização da Unick junto à CVM. Ou seja, como advogado da empresa, que já tinha mais de um ano. Decisões sobre quando e onde atuar jamais passaram pelo doutor Fernando", declara o defensor, Rodrigo Mariano da Rocha Santos. Ele também nega que Salomon tenha contratado policial federal inativo para a Unick. "Esse agente é amigo de muitos anos do doutor Fernando. E houve a contratação da empresa de inteligência dele, mas para localizar o patrimônio de um cliente que não pagou honorários advocatícios. E sem qualquer uso de violência ou ameaça."

 

Policial também nega

“Nunca trabalhei para a Unick”, declarou, ontem à tarde, o policial federal aposentado. Mas você não foi contratado pelo advogado Fernando Salomon? Não conhece ele? O agente fica em silêncio por 15 segundos e responde que não tem nada a declarar.

Agente tinha trânsito com delegados influentes

Trechos do processo ainda sob sigilo são taxativos ao mencionar possíveis vínculos do detetive. "Tal policial federal inativo possui contatos com a alta cúpula da Polícia Federal e também pertence a uma ordem hermética, a qual a atuação mais branda que conhecemos se dá no campo do tráfico de influência." Os documentos trazem nomes. Aludem que o principal contato do investigador da Unick seria Leandro Daiello Coimbra, ex-diretor geral da PF. O delegado se aposentou em novembro de 2017 e começou a advogar no ano passado em São Paulo. A reportagem ligou para o escritório, mas não conseguiu contato com ele. Apesar de citar delegados aposentados da cúpula da PF como contatos do agente da Unick, o processo não faz qualquer menção à interferência deles na investigação contra a pirâmide financeira.

PROCURADOR

Em conversa interceptada no dia 14 de outubro último, o investigador da Unick diz que falaria com o procurador da República em Novo Hamburgo, Celso Tres, para prejudicar Salomon caso não pagasse pelos serviços contratados. O relatório do inquérito, porém, isenta Tres de qualquer envolvimento. "Ocorre que o procurador da República Celso Tres, afora o fato de não haver qualquer indício de desvio funcional de sua parte, atua na Subseção Judiciária de Novo Hamburgo, de sorte que fica afastada qualquer possibilidade de ingerência sobre a investigação em curso." Tres foi a primeira autoridade a denunciar publicamente, em fevereiro no Jornal NH, esquema gigantesco de pirâmides financeiras no Vale do Sinos. "Não sei quem é (policial aposentado). Na Unick não tivemos participação alguma na apuração, assim como sempre alertei que a InDeal era fraude", comenta o procurador.

Clima tenso e ameaças na cúpula

Em meio à avalanche de reclamações de clientes que pararam de receber pagamentos, a partir de junho, o clima só piorava na cúpula da "família Unick". Em ambiente de fraudes, conforme a PF, um começou a desconfiar do outro. Em conversa com a colega Caren, Fernando Salomon refere-se a Leidimar mais de uma vez como "burro", entre outros adjetivos depreciativos. A situação chegou ao ponto de uma preocupação inusitada. A ex-mulher de um diretor ameaçava entregar o esquema à Polícia.

 

Brigas teriam ampliado foco da arapongagem

O crescimento faraônico em dois anos, com R$ 28 bilhões arrecadados de aproximadamente 1,5 milhão de clientes, foi proporcional às brigas e disputas que se distendiam na cúpula da Unick. A discussão mais ríspida aconteceu no início do ano, quando Salomon descobriu que Danter teria tentado acordo com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia do governo que regula o mercado de capitais, responsável por advertências e proibições à Unick de operar com investimentos. O advogado chamou a atenção do diretor de Marketing, que teria sido defendido por Leidimar. Salomon reclamou que, sem saber da iniciativa de Danter, teria ido depois ao CVM com argumentos diferentes, colocando a Unick em contradição diante do órgão. E, com as crises internas aumentando, Salomon teria ampliado as atribuições da espionagem privada. Além de monitorar as investigações federais, o policial inativo e sua equipe deveriam ficar de olho nos passos de Leidimar, Danter e aliados.

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