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Notícias | Região Pirâmide

Escutas mostram que Unick não queria pagar clientes

Enquanto surgem novas evidências de golpe, milhares de lesados ainda se unem para pedir a volta da empresa

Por Silvio Milani
Última atualização: 22.01.2020 às 14:25

Operação Lamanai foi deflagrada na manhã de 17 de outubro Foto: Diego da Rosa/GES
Nas ruínas de uma das maiores pirâmides financeiras do País, que arrecadou aproximadamente R$ 28 bilhões em dois anos, ainda há clientes esperançosos em reaver o dinheiro perdido. Eles se unem aos milhares em redes sociais para pedir a volta da Unick e a soltura dos dirigentes presos há mais de três meses pela Polícia Federal. Só assim, no imaginário dos manifestantes, será possível contornar o prejuízo. Não sabem que, quando o negócio operava, o presidente da empresa criada em Novo Hamburgo, Leidimar Bernardo Lopes, mostrava-se decidido a não pagar clientes, como revelam escutas telefônicas obtidas pela reportagem. Ele é um dos quatro que seguem no presídio.

"Eu nunca falei pra ninguém que devolvia dinheiro pra alguém", disse Leidimar, em setembro último, em conversa com um familiar. A empresa já não pagava os clientes há três meses. Porém oficialmente, em vídeos ao lado da cúpula da organização, o presidente prometia honrar os compromissos. "Nunca se esqueçam disso, se precisarem de qualquer tipo de atendimento, desde pedido de cancelamento de conta até qualquer outro tipo de informação, a empresa está aberta e atende a todos. Estamos aqui prontos para atender vocês. Podem ficar tranquilos", afirmou o presidente, no dia 1º de agosto. Cobranças, ameaças e protestos começavam a abalar a Unick. Poucas semanas antes, ele tinha postado outro vídeo, com menção à empresa garantidora, a SA Capital, para frisar que os investidores estavam protegidos por seguro. "Temos uma equipe de profissionais capacitados. Entrem em contato com nosso suporte. Temos estrutura junto com a SA Capital, em Bragança Paulista, pronta para atender. Vocês assinaram contrato com a empresa. Essa empresa existe. Procurem a empresa."

A queda anunciada

O Jornal NH, que já havia alertado para o golpe em fevereiro, revelou em setembro e no início de outubro que a PF rastreava bilhões ocultados em paraísos fiscais e que a garantia da SA Capital era uma área de posseiros no interior de Goiás. A cada reportagem, um diretor da empresa se pronunciava nas redes sociais para dizer que era "fake news". Na manhã de 17 de outubro, a queda anunciada. A Operação Lamanai da Polícia Federal prendeu nove dos dez procurados do chamado "núcleo de comando" da Unick.

Fé na pirâmide

Mensagens de apoio à empresa acusada de golpe bilionário, postadas nos últimos 30 dias no grupo de Telegram "Unick Academy - Apoio Total", mostram que milhares de vítimas, por incrível que pareça, idolatram a estrutura responsável pelos prejuízos.

Clientes lesados pedem a reativação da Unick e até liberdade para os réus mais conhecidos - o presidente, Leidimar Lopes, e o diretor de Marketing, Danter Silva. Redes sociais do meio trazem bizarrices em tom messiânico, como se os acusados do golpe, uma vez soltos, voltariam para salvar suas vítimas do prejuízo. O mais insólito é que os devaneios não provêm somente de comparsas infiltrados em grupos de WhatsApp e Telegram, como ex-captadores de clientes ainda sob investigação, mas de incautos que perderam casa, carro e economias.

A Unick também representa um enorme casulo de piramideiros. Ela deu cria a várias outras contas de investimentos ilegais, que vão se renovando na medida em que quebram e lesam mais pessoas. Os "empreendedores", muitos deles os chamados "líderes" que cresceram na hierarquia da Unick pela quantidade de investidores captados, se aproveitam do desespero de quem perdeu tudo para oferecer nova esperança nos moldes dos ganhos estratosféricos e irreais do golpe.

Outro fenômeno pós-Unick é o surgimento de uma leva de autodenominados traders. Por meio de agressivo marketing da ostentação, a empresa trouxe a sensação de ascensão e status social aos aplicadores. Era como se, de uma hora para outra, se transformassem em especialistas no mercado financeiro, a despeito da necessidade de qualificação profissional e conhecimento especializado no segmento de ações e moedas para atuar como trader.

Uma das maiores comunidades é o grupo do Telegram "Unick Academy - Apoio Total", que até ontem reunia 5.422 membros. Os mais fervorosos chegam a dizer que a empresa e seus fiéis estão enfrentando uma espécie de calvário rumo à terra prometida. As orações pelos diretores presos, aliás, condizem com a expressiva quantidade de pastores pentecostais na alta hierarquia da Unick. Nenhum foi preso ou denunciado, mas alguns estão entre os 1,2 mil líderes da pirâmide investigados pela PF.

Veja as conversas


Os diálogos

Em conversa com um parente próximo, em setembro, Leidimar reclama da clientela que vinha solicitando cancelamento das contas. Diz que não vai devolver o dinheiro de ninguém e demonstra que essa sempre foi a intenção. Seria o mesmo que uma instituição bancária simplesmente decidir que os correntistas não têm direito a saque. A Unick já não estava sequer remunerando os investimentos dos que, apesar de tudo, mantinham as contas ativas. Nos diálogos, Leidimar e o parente também demonstram preocupação com ameaças de investidores lesados e falam em armas.


Calote programado

Leidimar - Por que os que continuam tão tudo certo aqui? Por que eles quiseram cancelar? Eles que vão se f... agora.

Parente - É.

Leidimar - Não mandei ninguém pedir cancelamento.

Parente - É.

Leidimar - Eu organizei a empresa pra quem quer continuar, não pra quem quer parar.

Parente - Pra quem quer continuar, quem qué fazê as coisa.

Leidimar - Eu nunca falei pra ninguém que devolvia dinheiro pra alguém.

Parente - É.

Leidimar - Ou ouviu eu falando alguma vez isso aí pra alguém? Que se f… agora.


Tensão armada

Parente - Não sei, dá até medo de sair né.

Leidimar - É, tem que se cuidar. Quando ir pra lá, ir com a (inaudível) e com a pistola carregada, e se baterem no carro ou se chegarem perto, não tem que pará. Se furar um pneu, uma coisa, tem que continuar.

Parente - É.

Leidimar - Porque daqui um pouco o cara tá ali atrás e finge um acidentezinho, dá aquela batidinha só pro cara parar e descer.

Parente - É, eles fazem isso aí.

Leidimar - Tem que se fazer de loco eeee lá no meio do mato lá, se alguém se atravessar, tem que meter em cima e tocá-lhe fogo. Não dá pra dá moleza.

Parente - É, já vô carregar os pentes. Carreguei dois pente de bala, vou carregar mais um outro. Eu tô a fim de ir lá pra fora, lá pra Neli uns dia. Ficá pra lá.

 

Leidimar e Danter tentaram vários habeas corpus

Figuras centrais no esquema, Leidimar e o diretor de Marketing, Danter Navar da Silva, já tentaram vários habeas corpus, todos negados. Além de recorrer à 7.ª Vara Federal, onde tramita a causa, já foram para o Tribunal Federal da 4ª Região (TRF-4) e ao Superior Tribunal de Justiça. Juízes, desembargadores e ministros consideraram que, uma vez soltos, poderiam atrapalhar as investigações e aprofundar o processo de ocultação de patrimônio.

 

Mais jovem fez aniversário no presídio

Mais jovem da diretoria, Danter fez aniversário de 24 anos no dia 21 de dezembro na Penitenciária Modulada de Montenegro. Para a PF, ele planejava fuga. "Pode ter remetido ao exterior uma soma significativa de dinheiro, além das já referidas intenções de evadir-se do País", diz um despacho que negou liberdade. Nascido em Sapiranga, Danter foi preso em condomínio de luxo em Porto Alegre, onde estava morando.

Dinheiro sumiu em contas particulares

Informações processuais apontam que não sobrou dinheiro para ressarcir os clientes. Conforme a investigação, bilhões em aplicações sumiram de contas particulares de diretores da Unick e foram convertidas em imóveis para "laranjas" ou remessas ilegais ao exterior. Somente um dos presos, Paulo Sérgio Kroeff, é acusado de lavar mais de R$ 1 bilhão.

Três advogados seguem em casa com tornozeleira

Por falta de cela especial para advogado, três réus ganharam o benefício da prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. Fernando Baum Salomon, de Porto Alegre, e Caren Cristiani Greff de Oliveira, de São Leopoldo, chegaram a ser recolhidos em outubro. Já Fernando Lusvarghi, diretor jurídico da Unick e também dono da SA Capital, não foi localizado no dia da operação e se entregou à PF em 22 de novembro. É monitorado em Bragança Paulista.

Presidente e os outros 14 réus negam crimes

Leidimar Lopes, presidente da Unick Foto: noo
Assim como os outros 14 réus no processo federal por fraudes financeiras, Leidimar Lopes nega as acusações. "A Unick é utilizadora do sistema de marketing multinível de forma legítima", argumenta nos autos.

 


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