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Notícias | Região São Leopoldo

Pesquisa revela história do planeta através de pedras de 563 milhões de anos

Pesquisadores da Unisinos, da área da Paleontologia, participam de estudos que revelam uma importante coleção de fósseis do período Ediacarano em solo catarinense

Por Alecs Dall'Olmo
Publicado em: 18.10.2020 às 07:00 Última atualização: 18.10.2020 às 11:41

Paim (de frente) mostrando rochas depositadas em um ambiente marinho onde se concluiu que os fósseis não viviam Foto: Paulo Sérgio Gomes Paim/Unisinos/Divulgação
A origem da vida complexa na Terra é tema ainda pouco conhecido. É por isso que a pesquisa para entender um pouco sobre a esfera azul suspensa no espaço é essencial. E, às vezes, as descobertas tiram o fôlego, como destacaram pesquisadores brasileiros, entre eles da Unisinos, que publicaram agora em agosto na revista Gondwana Research uma importante descoberta para área da Paleontologia. "O artigo publicado no periódico Gondwana Research descreve, entre outros elementos bióticos então existentes na bacia do Itajaí, em Santa Catarina, fósseis macroscópicos de três gêneros (Aspidella, Palaeopascichnus e Nimbia) que foram encontrados e datados em 563 milhões de anos de idade.

O artigo tem chamado a atenção da comunidade científica internacional por abordar os macrofósseis mais antigos encontrados em qualquer fragmento continental que um dia fez parte do Gondwana (um dos dois supercontinentes que junto ao de Laurásia agrupou toda a massa terrestre), expandindo assim o intervalo de tempo com registro de vida ediacarana (período geológico entre 630 a 541 milhões de anos atrás) neste supercontinente bem como a área de ocorrência de organismos ediacaranos de corpo mole ao redor do planeta. Além disso, esse artigo traz à tona pistas sobre como os organismos mais antigos da fauna de Ediacara, encontrados em outros continentes em rochas relacionadas a ambientes marinho profundos, poderiam ter migrado para águas mais rasas.

Acontece que ocorre uma íntima associação dos organismos ora descritos, os quais estão associados a rochas vinculadas a ambientes marinho rasos, com abundantes esteiras microbianas, as quais poderiam lhes servir tanto de alimento como de proteção", ressalta Paulo Sérgio Gomes Paim, um dos pesquisadores envolvidos e professor do Programa de Pós-Graduação em Geologia.

Especialidades

Trabalhos como esses, conforme avaliação de Paim, resultam da junção de diversas áreas de atuação e especialidades. Assim, os resultados reportados neste artigo derivam da trajetória dos professores Paim e Farid Chemale Jr, no estudo com rochas (ambos da Unisinos) e Miriam Forancelli Pacheco, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), no estudo de fósseis de idade ediacarana. E isso tudo não começou ontem. Na década de 90, os professores da Unisinos estudaram bacias sedimentares (áreas deprimidas da superfície da terra onde se acumulam sedimentos e uma parte dos organismos são preservados como fósseis) ediacaranas que afloram no sul do Brasil e no sul da África, incluindo a Bacia do Itajaí (SC). E, pela primeira vez, identificaram fósseis nessa última, os quais se tornaram tema do mestrado na Unisinos, de Ana L. Zucatti da Rosa. Há cerca de cinco anos, os professores Farid e Paim foram procurados pela professora Miriam, bióloga e especialista em fósseis do Ediacarano, para participar do projeto de doutorado do biólogo Bruno Becker-Kerber sobre a Bacia do Itajaí. "Retornamos assim à bacia e teve início essa colaboração que, agora, está rendendo seus primeiros frutos", conta Paim.

Trabalhos mostram a diversidade

Os professores Rodrigo Horodyski e Renata Guimarães Netto, assim como a doutoranda Ilana Lehn, todos vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Geologia da Unisinos, desenvolvem pesquisa similar no Estado. Por exemplo, a Ilana encontrou, pela primeira vez, a presença de microfósseis ediacaranos na Bacia do Camaquã, na região central do RS. São trabalhos, na avaliação de Paim, que trazem à tona evidências sobre a biodiversidade da época.

Estudo expande a área de ocorrência

Paim destaca que o estudo expande a área de ocorrência ao redor da Terra de organismos ediacaranos de corpo mole e traz à tona algumas pistas sobre como os organismos mais antigos da fauna de Ediacara, típicos de ambientes marinho profundos, poderiam ter migrado para águas mais rasas, onde a luz do sol poderia penetrar e abundantes esteiras microbianas se desenvolver, podendo assim servir como alimento e proteção.

Os próximos passos e suas relações com as pesquisas

Na avaliação do professor Paim, esse retorno para a Bacia do Itajaí se relaciona ao doutorado do Bruno Becker-Kerber, na foto à esquerda prospectando fósseis em meio as rochas depositadas em um ambiente marinho profundo onde posteriormente se concluiu que os fósseis não viviam, autor principal do artigo. Ele explica que a tese de Bruno envolve também o estudo pormenorizado das esteiras microbianas fossilizadas, tanto sob o ponto de vista do tipo de bactéria com também das razões subjacentes à excelente preservação destas esteiras. "É importante salientar que, em conjunto com os macrofósseis, formavam um ecossistema que tem muito a nos dizer sobre o funcionamento das primeiras comunidades de vida macroscópica complexa de nosso planeta com ênfase nas interações entre micro e macro organismos", explica o professor.

Como as relações das pesquisas iniciaram

"Fazendo um breve histórico, nos meados dos anos 90 desenvolvemos um projeto de pesquisa financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), em conjunto com o Serviço Geológico da África do Sul, no qual comparamos bacias sedimentares de idade Ediacarana do sul da América do Sul e do sul da África, dentre as quais se inclui a Bacia do Itajaí, local onde os fósseis foram encontrados", explica Farid, por meio da comunicação da Unisinos. O trabalho seguiu com um estudo mais detalhado da Bacia do Itajaí, financiado pela Petrobras. "Dentre os resultados desse projeto, descobrimos as primeiras evidências de vida na Bacia do Itajaí, tema esse que serviu de base para um trabalho de conclusão de curso (1999) e para uma dissertação de mestrado, concluída em 2006", destaca Paim.

Desenvolvimento de formas de vida mais complexas no planeta é foco

"O desenvolvimento de organismos fotossintetizantes, capazes de liberar oxigênio para a atmosfera até essa atingir níveis de concentração de O2 similares aos atuais, foi o fator primordial no desenvolvimento de formas de vida mais complexa no planeta. E todos os grupos taxonômicos que hoje conhecemos derivam de organismos, animais ou vegetais, surgidos no Cambriano. Antes desse período, iniciado há 541 milhões de anos, apenas os seres que compunham a Biota de Ediacara podem ser incluídos na categoria de macro organismos com células diversificadas e especializadas. Mas, essa comunidade desapareceu pouco antes da grande explosão de vida do Cambriano. Este trabalho se insere nessa transição, envolvendo os fatores que levaram ao desenvolvimento destas formas de vida mais complexa ocorrida ao longo do Ediacarano e sua transição para o Cambriano", destaca Paim. O envolvimento com o Ediacarano se deu no início da carreira dele na Bacia do Camaquã (RS). "A questão da vida neste período somente veio à tona quando as primeiras evidências começaram a surgir, primeiramente na Bacia do Itajaí, na década de 90. Minha especialidade é deduzir o ambiente nos quais as rochas se depositaram e como estes ambientes variaram no tempo e no espaço."


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