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Notícias | Região Pequeno gigante

Como a falta de chips atinge a economia e a nossa vida

Demanda de eletroeletrônicos aquecida e retomada das montadoras exigem cada vez mais de componentes menores que um grão de arroz. Só que faltam componentes no mundo para tanta tecnologia embutida nos produtos. Resultado são fábricas paradas e até produtos mais caros

Por Ermilo Drews
Publicado em: 12.06.2021 às 07:02 Última atualização: 12.06.2021 às 11:30

HT Micron é uma das poucas empresas no mercado de semicondutores do País Foto: Divulgação
Você pode até não vê-los, mas eles são essenciais para nosso modo de vida hoje. Presentes em smartphones até aeronaves, os semicondutores guiam correntes elétricas, sendo a matéria-prima para a produção de chips presentes em celulares, computadores, videogames, cafeteiras, carros e aviões... Boa parte do que você utiliza tem este tipo de tecnologia embutida.

Agora, imagina se acontece algum problema na produção destes chips? Pois é o que vem ocorrendo. Nos últimos meses, montadoras como General Motors, Volkswagen, Honda e Volvo, após o reaquecimento do mercado, suspenderam produções de veículos em suas fábricas de todo o mundo por falta de componentes, em especial os semicondutores. Um utilitário esportivo de porte médio utiliza cerca de 300 chips destes.

No caso da GM, a fábrica do grupo em Gravataí está parada desde abril e só deve retomar as operações em agosto. A unidade produz o Onix, modelo mais vendido da marca. O problema também afeta empresas de outros segmentos, como Samsung e Sony.

Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi), Rogério Nunes explica que a pandemia aprofundou a necessidade por tecnologia e armazenamento de dados num momento de menor nível de produção mundial por conta das restrições de circulação. “Houve um aumento de consumo não esperado de laptops e notebooks, que mundialmente vinham perdendo volume de vendas a cada ano, e o mesmo ocorreu com os jogos eletrônicos.”

Além disso, Nunes lembra que no primeiro semestre de 2020 algumas fábricas da Ásia, continente que concentra a produção de semicondutores no mundo, foram impactadas pela pandemia. “Essa situação acarretou atrasos nas entregas, já que a indústria de semicondutores precisa de, no mínimo, três a quatro meses para a fabricação dos seus produtos.”

Com a retomada econômica e o crescimento da procura por veículos, as montadoras fizeram a demanda por chips crescer ainda mais. “Globalmente, faltam estes componentes porque aumentou o consumo em todas as partes do mundo”, complementa a diretora de Inovação da Unisinos e CEO do Tecnosinos, Susana Kakuta.

Estão em quase tudo

CIO da HT Micron, uma das poucas empresas brasileiras que atua no mercado de semicondutores e está localizada no complexo do Tecnosinos, em São Leopoldo, Edelweis Ritt explica que este cenário afeta a economia global porque quase tudo o que utilizamos possui este tipo de componente. “Computadores, celulares, TVs, linha branca, carros, câmeras de segurança, equipamentos médicos e industriais, controles, instrumentação agrícola. Existem pouquíssimos setores produtivos que não usam.”

Apesar desta “onipresença”, alguns setores sentem mais. “Há segmentos mais sensíveis, pois embarcam ou utilizam mais tecnologia, a indústria de eletroeletrônicos, por exemplo. Outros são aqueles onde os semicondutores são responsáveis por parcela importante da agregação de valor ao produto, como o setor automotivo”, observa Susana.

Concentração na Ásia

A pandemia expôs a fragilidade da cadeia, com produção concentrada na Ásia. Edelweis conta que uma única empresa, a TSMC, sediada em Taiwan, é responsável por quase a metade dos wafers do mundo - a coreana Samsung e a americana Intel são as principais concorrentes. Wafers são placas de semicondutores feitas de silício e usadas como base para a criação de chips processadores.

A CIO da HT Micron conta que esta concentração fez parte da globalização e da terceirização de algumas tarefas produtivas às empresas asiáticas. “O produto é americano, mas fabricado em Taiwan. O que acontece é que a pandemia mostrou a fragilidade desta cadeia. No início, esta terceirização foi uma forma de baratear custos. Posteriormente, foi identificado como um erro estratégico, o que os EUA tentam reverter hoje na guerra comercial com a China.”

E a aproximação cada vez maior dos Estados Unidos com Taiwan, considerada uma província separatista pela China, acirra ainda mais os ânimos neste ponto do mundo. Ao ponto da revista The Economist chamar Taiwan de o lugar mais perigoso da Terra atualmente. O que traz preocupações humanitárias, ao mercado dos chips e à economia global.

Equilibrar oferta e demanda não é fácil

Com poucas fábricas no mundo, equilibrar oferta e procura pode durar mais tempo do que se gostaria. Recentemente, a Intel, uma das maiores fabricantes de chips, estimou que serão necessários “alguns anos” para a indústria se reequilibrar.

Edelweis explica que um dos gargalos é que as diversas etapas para produção de chips costumam ser feitas em diferentes países, pelo alto custo exigido para dominar todas as fases de produção. “O Brasil não produz wafers ou a pastilha de silício - material básico para fabricação de processadores e outros chips. São quatro empresas que fazem o encapsulamento, que é a última etapa na produção dos chips. A cadeia é bem complexa e cada passo é realizado por empresas especializadas”, detalha.

Na tentativa de estimular a produção, países têm anunciado pacotes de incentivo para abrir mais fábricas de semicondutores e chips. “Os Estados Unidos, a Coreia do Sul, a Índia, o Japão e a União Europeia anunciaram pacotes agressivos. A Índia oferece 1 bilhão de dólares para quem se colocar no país.”

Preços dos insumos subiram até 40 vezes

Chips semicondutores são utilizados em placas com os circuitos eletrônicos de produtos fabricados por empresa de Canoas, que viu valores dos insumos e prazo de entrega aumentarem Foto: PAULO PIRES/GES
Na gama de produtos da Full Gauge Controls, de Canoas, estão controladores de temperatura, umidade e pressão; analisadores da qualidade de energia elétrica, interfaces e conversores, termômetros digitais… Tudo precisa de chips importados da Ásia e dos Estados Unidos.

Vice-diretor da empresa, Rodnei Peres conta que, no caso deles, o tempo de entrega e os preços dos insumos aumentaram. “Somos extremamente cuidadosos com prazos e manutenção de estoque de matérias-primas, então não estamos sofrendo com faltas. Mas temos comprometimento muito maior com ordens de compras até o final de 2022, isso com nosso principal fornecedor. Chegamos a receber mudanças de 40 para 80 semanas no prazo de entrega.” Peres conta que todos os modelos de chips subiram de preço, numa média superior a 10%.

O gestor afirma que esta realidade se impõe desde o começo do ano passado, quando o coronavírus já circulava na Ásia. “Ficamos muito apreensivos no princípio, mas não tivemos impactos negativos. Ano passado foi de recorde de vendas e faturamento, mas não significa que em algum momento não seremos impactados. Nosso trabalho interno minimiza este risco, mas não elimina. Ainda mais dependendo de terceiros.”

Ele acredita que a regularização global no mercado de chips deve levar ao menos mais dois anos. “Como a demanda mundial aumentou mais que a oferta, sofremos com isso. Às vezes, para encontrarmos alternativas, pagamos muito mais caro, até 40 vezes mais o preço de tabela que tínhamos.”

A concentração da indústria de semicondutores na Ásia é considerada um problema. “Para o Ocidente sempre foi conveniente manter a produção de semicondutores na Ásia devido aos baixos custos. Para a China sempre foi conveniente controlar a demanda mundial e impulsionar a produção interna e a exportação de produtos acabados. O mundo custou a acordar e entender que esta dependência é mais maléfica que benéfica.”

Indústria brasileira tem potencial de crescimento

No ano passado, o mercado de semicondutores mundial foi da ordem de US$ 439 bilhões em 2020. No entanto, o Brasil responde por cerca de US$ 10,7 milhões anuais, ou seja, 2,6% do mercado mundial. “Cerca de 90% da demanda do País, atualmente, é atendida por produtos importados, mas apesar de responder por somente 10% da demanda local, a indústria brasileira de semicondutores possui um parque industrial bastante consolidado, registrando desde 2018 faturamento superior a R$ 3 bilhões ao ano, gerando mais de dois mil empregos diretos altamente qualificados de técnicos, engenheiros, mestres, doutores e pesquisadores”, argumenta o presidente da Abisemi, Rogério Nunes.

O dirigente contabiliza que a indústria de semicondutores do País já realizou US$ 2,5 bilhões de investimento em bens de capital, infraestrutura de produção, capacitação de recursos humanos, pesquisa e desenvolvimento. “Somente em pesquisa e desenvolvimento, já foram investidos mais de R$ 670 milhões na criação de polos de tecnologia, frutos da contrapartida das empresas habilitadas no Padis, que é um programa do governo federal voltado ao desenvolvimento tecnológico da indústria de semicondutores e responsável, em grande parte, pelo renascimento do setor no Brasil.”

Para Nunes, a atual escassez de semicondutores é uma excelente oportunidade para tornar o Brasil mais independente na cadeia produtiva. “Poderíamos passar a exportar nossos produtos semicondutores para países europeus, americanos ou mesmo para a China, desde que tenhamos competitividade.” No entanto, para que isso efetivamente aconteça, o dirigente afirma ser primordial a prorrogação do Padis, programa de incentivo que expira no ano que vem, para, ao menos, até 2029. “Será um passo fundamental para o País.”

Governo pretende acabar com estatal de semicondutores

Empresa estatal, Ceitec está em processo de liquidação Foto: Divulgação
O Brasil possui uma estatal que desenvolve tecnologia e fabrica semicondutores. É o Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), criado em 2008 e localizado em Porto Alegre. No entanto, a estatal vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) encontra-se emprocesso de liquidação, determinado pelo governo federal.

A companhia já produziu mais de 130 milhões de unidades. É a única empresa da América Latina a produzir sensores e circuitos integrados em silício. Também produz chips de rastreabilidade animal, de identificação de veículos, identificação pessoal (chip do passaporte) e de patrimônio.
Apesar de um aumento de 154% na produção nos últimos dois anos, a companhia ainda é dependente de recursos do governo federal, que resolveu extingui-la argumentando economia anual de R$ 70 milhões com a medida. No final de abril, 20% dos funcionários foram exonerados. Em outubro de 2020, a Polícia Federal chegou a realizar operação que teve como alvo a Ceitec, que teria beneficiado irregularmente uma empresa privada.

Paralelo a isso, embates na Justiça do Trabalho tentam travar o processo de exonerações, mas, sem apoio político, a tendência é que o processo de extinção ocorra até o final do ano.

Para a Associação dos Colaboradores da Ceitec (Acceitec), a liquidação da estatal é “gravíssimo erro estratégico para o país, e está sendo executada contra todas as evidências da importância dos semicondutores na economia, escancarada na escassez de chips que paralisa as indústrias”.
Presidente da Acceitec, Silvio Luis Santos Junior reclama que a extinção foi decidida sem discussão com a sociedade. “As entidades ligadas à tecnologia são contra, assim como economistas”, afirma. Para ele, a crise global mostrou a importância de se ter uma cadeia produtiva de semicondutores no País. “A extinção do Ceitec seria matar a semente dessa cadeia, o desenvolvimento de tecnologia nacional.”

De acordo com ele, entre os servidores demitidos estão os melhores especialistas em suas áreas. “Essa é uma das ações nefastas que poderão levar, muito brevemente, ao fracasso brasileiro na área de semicondutores, com impacto na geração de empregos em todo o ecossistema da eletrônica do país”, alerta.

Programa de apoio tem continuidade incerta

Para a CEO da Tecnosinos, Susana Kakuta, o Brasil patina na consolidação de uma indústria nacional forte e de impacto global. “Esta é uma indústria que no mundo inteiro precisa ter políticas públicas para suportar a dinâmica de seu desenvolvimento e a competição global. Temos poucas empresas produtoras no Brasil, e é delas que sai parte importante do conteúdo nacional dos eletroeletrônicos aqui produzidos”, admite.

Susana demonstra preocupação com a incerteza da continuidade do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis), previsto para expirar no começo do próximo ano. “Infelizmente, a situacao no Brasil é crítica neste momento. Até agora estamos todos lutando pela prorrogação do Padis.” Ela explica que a prorrogaçãoo depende de nova lei, que precisa ser sancionada ainda este ano, no máximo até final de setembro. Se isso não for feito, Susana acredita que a indústria de semicondutores do Brasil sucumbirá.

Sobre a extinção da Ceitec, Susana considera que aconteceram erros no começo do projeto. “A parte da infraestrutura embarcada na planta já era obsoleta de início e isto delimitou o escopo de produção de semicondutores. Além disso, ser uma empresa estatal numa área em que a dinâmica de mercado impõe velocidade de resposta é uma combinação dificil”, opina. Para ela, a questão central é a perda de recursos de caráter estratégico, especialmente humanos. “Ter uma política nacional nesta área é essencial, No mundo inteiro, ela é incentivada por politicas publicas.”

Na Alemanha, fábrica de 1 bilhão de euros

Enquanto o Brasil desiste de investir na indústria de semicondutores, na Alemanha, a Bosch antecipou em seis meses a inauguração de uma fábrica do componente, que abastecerá outras unidades do grupo, incluindo o Brasil.

A fábrica recebeu 1 bilhão de euros em investimentos (cerca de R$ 6,1 bilhões), parte financiada pelo governo local e por instituições financeiras da União Europeia.

O novo complexo industrial iniciará a produção em julho, inicialmente com semicondutores para produtos eletrônicos Em setembro entrará em operação a linha direcionada à indústria automobilística.

Potências mundiais anunciam investimentos

Para Susana Kakuta, a crise atual é fruto do boom de consumo global decorrente da pandemia. “É uma fase de consumo acima da média e não devera persistir neste pico. Na minha visão, esta é uma crise temporária no tamanho em que esta hoje”, opina. A visão otimista de Susana está alicerçada na preocupação das principais potências com o tema.

Neste sentido, cita os 50 bilhões de dólares que os Estados Unidos pretendem investir em cinco anos para impulsionar a produção e pesquisa de semicondutores. “Estes investimentos, que também começam a aparecer na Europa, devem fazer frente ao aumento do consumo do setor no médio prazo.”

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