Publicidade
Notícias | Região Golpe da pirâmide

Novo processo mergulha na lavanderia da Unick

Investigação rastreia movimentações bancárias de R$ 269 milhões entre 26 empresas de fachada

Por Silvio Milani
Publicado em: 16.06.2021 às 21:37

Última sede da pirâmide era suntuosa cobertura no Centro de São Leopoldo Foto: Marcelo Collar/GES-Especial
Apontada como uma das maiores pirâmides financeiras que o País já viu, a Unick Sociedade de Investimentos, de Novo Hamburgo, é também uma tumba de empresas de fachada. O rastreamento de 26 firmas, responsáveis por movimentações bancárias de R$ 269 milhões, fez a Justiça Federal desmembrar o processo e abrir um específico de lavagem de dinheiro, na última sexta-feira, contra os 15 réus da Unick. A ação original segue com os delitos de organização criminosa, evasão de divisas e operação de instituição financeira sem autorização legal.

Com a promessa de rendimentos de até 3 % ao dia, a Unick arrecadou R$ 29 bilhões de mais de um milhão de clientes entre 2017 e 2019. Como toda pirâmide, foi pagando os primeiros para atrair mais investidores, e montou uma lavanderia de negócios para ocultar a maior parte do capital. Enquanto a "família Unick" se desenvolvia nas redes sociais e lotava pavilhões em palestras de motivação para entusiasmados seguidores, os próprios diretores se traíam nos desvios de dinheiro, conforme apurou a Polícia Federal. As crescentes rixas entre os faraós precipitaram a derrocada da pirâmide.

Os negócios descobertos

As aplicações dos investidores circulavam em escritórios de advocacia, assessorias de recursos humanos, consultorias empresariais, empreendimentos imobiliários, corretores de moedas virtuais, prestadoras de serviços de informática, construtora e até uma creche. As 26 empresas identificadas faziam transações de fachada em bancos públicos e privados tradicionais e em corretoras virtuais.

Juíza decidiu abrir outra ação

O relatório do emaranhado de transações obscuras foi montado pelo Ministério Público Federal (MPF) com pedido de aditamento à denúncia no processo contra a Unick, aberto em novembro de 2019. O crime de lavagem de capitais já corria na ação. A juíza substituta da 7ª Vara Federal de Porto Alegre, Karine da Silva Cordeiro, ao receber a denúncia, decidiu desmembrá-lo, no último dia 11, em razão da complexidade das operações.

Os 15 réus estão sendo intimados do novo processo para responderem à acusação no prazo de dez dias. A magistrada autorizou devassa nas 26 empresas identificadas, com possibilidade de ir além dos R$ 269 milhões movimentados. Também aceitou as novas testemunhas de acusação arroladas pelo MPF.

 

Três crimes seguem na causa original

O processo original segue apurando a formatação da "organização criminosa", e remessa de dinheiro para outros países, como Belize e Estados unidos, no crime de "evasão de divisas", além da "operação de instituição financeira sem autorização ilegal". A atividade já gerou multas que assam de R$ 10 milhões aplicadas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia do governo que regulamenta o setor.

 

Jornal revelou creche do irmão do presidente

Em novembro de 2019, o Jornal NH revelou uma escola de educação infantil usada para lavar dinheiro da Unick. Com 70 crianças até os sete anos de idade, a creche de Caxias do Sul tinha várias contas bancárias e recebeu movimentações de 301 investidores entre 2017 e setembro de 2019. Detalhe: o dono era Itamar Bernardo Lopes, 42 anos, irmão do presidente da Unick, Leidimar Bernardo Lopes, 41.

 

Filha do chefe também tinha CNPJs suspeitos

A ré Ana Carolina Lopes, 23, filha do presidente da Unick, tinha uma empresa em Porto Alegre e outra em Xangri-Lá que movimentavam dinheiro dos clientes. No arranjo, havia repasses para o advogado porto-alegrense Fernando Salomon, 55, também réu com suposta empresa de fechada, e para a SA Capital, de Bragança Paulista (SP), que era divulgada pela Unick como a garantidora do capital dos clientes. O "seguro", segundo o advogado Fernando Lusvarghi, 35, sócio da SA Capital e diretor jurídico da Unick, eram lotes de uma propriedade em Goiás. A reportagem apurou que a propriedade era outra fraude nos degraus da pirâmide.

 

Modesta construtora leopoldense recebeu RF$ 38 milhões

Uma modesta construtora do bairro Feitoria, em São Leopoldo, recebeu 28 mil créditos da Unick, entre 2017 e setembro de 2019, que chegaram a R$ 38 milhões. Os dois sócios não figuram como réus, mas vão ter que se explicar.

Era ampla a fachada geográfica da Unick. Além de empresas do Vale do Sinos, Serra e Porto Alegre, tinha de Florianópolis (SC), Recife (PE) e a maioria de São Paulo. É um contexto de situações estranhas. Uma advogada de São Leopoldo abriu escritório na capital paulista, que só recebeu dinheiro da Unick.

 

O caso

A Unick foi fechada em 17 de outubro de 2019 pela Operação Lamanai da Polícia Federal, que prendeu dez membros da cúpula da empresa. Todos foram sendo soltos ao longo dos dias e meses.

No mês seguinte, o Ministério Público fez a denúncia contra 15 réus por fraudes financeiras, que foi aceita pela Justiça. Na última sexta-feira, a juíza da causa aceitou aditamento à denúncia e abriu processo exclusivo para lavagem de dinheiro.

O Ministério Público Federal apura, por meio de inquéritos civis em Novo Hamburgo, os prejuízos causados aos clientes.

A Unick deixou um rastro de depressão entre clientes, iludidos pela promessa de ganhos surreais no mercado financeiro. Há quem tenha vendido a própria casa para aplicar na empresa e perdeu o único patrimônio.

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.