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'Maluco das Tampinhas', colecionador do Caí mostra relíquias guardadas em casa

Fotógrafo do Caí tem de objetos médicos a capacetes de guerra

Reportagem: João Carlos Ávila

"O senhor tem capacete de guerra aí?", pergunta o jornalista.

"Tenho da Primeira, Segunda e Terceira guerras mundiais", responde.

"Mas a Terceira Guerra não aconteceu!" exclama.

"Sim, mas já estamos preparados", conclui o colecionador, aos risos.

A conversa é com o fotógrafo Vilson Nunes da Silva, um acumulador por natureza. Uma velha casa no Centro de São Sebastião do Caí se transformou num verdadeiro garimpo para quem curte antiguidades e, mais do que isso, curiosidades. Quem já assistiu a série "Caçadores de Relíquia", do History Channel, com Mike Wolfe e Frank Fritz - antiquários que viajam pelos Estados Unidos em busca de artefatos raros e tesouros - sabe do que estamos falando.

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES

Da calçada em frente ao número 977 da Rua Coronel Guimarães, dá para se ter uma ideia do que tem pela frente na Fotografia Antiguidades. Balanças de armazém, daquelas em que numa bandeja vai a mercadoria e na outra o peso; pé de moleque, peça de ferro utilizada na confecção manual de sapatos e uma pilha de tijolos. Sim, tijolos da extinta Olaria Johan, que teria sido a primeira do município do Vale do Caí. Um a um eles tiveram o nome da empresa escrito à mão.

Ingressar na casa depois da prévia que se vê na frente requer habilidade de contorcionista. Móveis se misturam a relíquias acumuladas ao longo das décadas. De velhas canecas de cozinha, algumas esmaltadas, passando pelos canecões de chopes - tradicionais nos bailes e festivais - câmeras fotográficas analógicas, latas de tudo que é produto e épocas, bem como garrafas, engradados - caixas de madeira onde se transportavam as bebidas. Numa peça, à esquerda, relíquias de guerras, como capacetes utilizados em combates. Vilson conta que muita coisa adquiriu em feiras no Uruguai e na Argentina.

"Desde guri gostava de colecionar coisas. Comprava de tudo. Depois, para não virar acumulador, decidi vender", explica ele, que não sabe dizer a quantidade de coisas que tem.

Uma das loucuras que o fotógrafo fez para engordar sua coleção foi trocar uma motocicleta de 125 cilindradas por 25 mil tampinhas de garrafas. Algumas unidades com a marca do fabricante em relevo, que antecedeu a serigrafia. "Depois apareceram uns caras de Porto Alegre aqui e compraram 500 tampinhas por 10 reais cada", diz, aos risos. O investimento estava recuperado.

Enquanto fala das tampinhas, Vilson estica o braço e de uma prateleira retira uma garrafa de vidro. "Conhece?", pergunta ele. Trata-se de uma garrafa da Sodinha Cassel, bebida feita de limão, considerado o "genuíno refrigerante hamburguez". A indústria que fabricava ficava no bairro Vila Nova, em Novo Hamburgo.

Cantinho das bicicletas

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
Entre as paixões de Vilson, perfiladas numa peça anexa da casa, sua coleção de bicicletas antigas. Destaque para uma Columbia G-5, fabricada em 1900. Aros, para-lamas e guidão são de madeira. A transmissão é por cardan - eixo que gira e, acoplado a uma engrenagem na roda, faz a transmissão, como é utilizado em veículos. A velha bike tem farol de carbureto - material que, molhado, fica efervescente e, ao se dissolver, produz uma espécie de luz, refletida por uma lente. Exigiu viagem até Rio do Sul, Santa Catarina, para buscá-la.

Outra relíquia é uma Adler Planzer de 1936, bicicleta utilizada pela infantaria em combates de guerra. O modelo tem três marchas, com 'ponto morto'. Vilson ainda guarda com carinho uma Adler Zeppelin, modelo que, segundo ele, seria da equipe do mais famoso dos dirigíveis.

O "maluco" das tampinhas

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
A troca de uma moto avaliada em R$ 5 mil por 25 mil tampinhas de garrafas já renderam ao fotógrafo o título de "Maluco das Tampinhas". A primeira vez que o chamaram assim foi numa feira no Mercado Público, em Porto Alegre. Conta que conversava com um colecionador, quando disse de onde era. "Ele então perguntou se eu conhecia o homem que havia feito esta troca. Primeiro disse que não, depois falei que era eu." Em Santa Catarina, em outra feira, aconteceu o mesmo.

Tijolos "escritos" à mão

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
A Olaria Johan é apontada como a primeira fábrica de tijolos de São Sebastião do Caí. As unidades, com o nome da empresa escrito à mão, foram usadas para erguer a primeira Casa Paroquial da Comunidade Luterana do Município. Numa das reformas, foram adquiridos para construção da casa do ex-prefeito Egídio Michaelsen.

Sodinha

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
Até o final dos anos 1970, era comum encontrar nos bares de Novo Hamburgo a Sodinha Cassel. Fabricada com suco de limão pela Cassel Bebidas, do bairro Vila Nova, marcou uma geração.

Não tem preço

Coleção de Vilson Nunes da Silva Foto: Diego da Rosa/GES
Num dos armários, Vilson guarda pequenos bonecos de cerâmica, que são relíquias pessoais. Já tentaram comprá-los, mas estes não têm preço.

Seringaretornável

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
A primeira seringa descartável foi apresentada em 1954. Mas, até a década de 1970, era comum se deparar com unidades de vidro, "retornáveis". Após usada, era esterilizada em aparelho a vapor e guardada em caixas de aço inox. Quem tinha em casa "esterilizava" com água fervente.

Latas e mais latas

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
São dezenas, talvez centenas de latas de várias épocas e diferentes modelos. Do leite em pó ao óleo lubrificante, o fotógrafo guarda de tudo um pouco. Até mesmo da velha cera de assoalho.

Livros

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
Vilson Nunes da Silva também tem um espaço dedicado aos livros. Guarda um raro exemplar do "Curso Graduado De Letra Manuscripta - Composto Para O Uso Da Mocidade Brasileira Por Um Rio-grandense", da Editora Selbach, de 1920.

É carnaval na rádio

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
Outra relíquia é a Revista Carnavalesca da Rádio Progresso de Novo Hamburgo - atual ABC 103.3 FM, de 1956. Trata-se de edição comemorativa ao oitavo aniversário da emissora e trazia as letras de dezenas de marchinhas.

Relógio ponto

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
Indispensável nas empresas, o relógio ponto Rod-Bel era 100% mecânico. Com o cartão ponto do funcionário colocado na fenda em frente ao visor das horas, uma alavanca era acionada. Marcava hora e minuto da entrada e da saída após o expediente de trabalho.

Capacete e viseira russos

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
Em couro marrom, uma das relíquias que o fotógrafo tem no acervo é um capacete que seria de pilotos dos aviões soviéticos MIG. Acompanha uma viseira e um "certificado" todo escrito em russo.

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES

Pé de moleque

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
Também chamada de bigorna de sapateiro, o pé de moleque, em ferro, era utilizado na confecção manual e em reformas de sapato, especialmente no início do século 20. Apesar do formato padrão, tinha vários tamanhos, inclusive alguns específicos para trabalho com botas.

Moderno, mas...

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
Desde 1866 (isso, 155 anos), a Broocks produz acessórios para bicicletas. Destaque para este selim, confeccionado conforme os modelos originais. Vem, inclusive, com certificado de garantia.

Farol de carbureto

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
O carbureto, em contato com a água, produz gás inflamável, o acetileno. Em objeto metálico côncavo com uma lente de vidro gera iluminação. Uma pedra de carbureto garante mais ou menos uma hora de luz.

Bicicleta com"ponto morto"

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
Uma bicicleta Adler da década de 1930 está entre as relíquias do antiquário. Na Segunda Guerra, era utilizada por militares da infantaria. Tem três marchas sequenciais e, o mais incrível, ponto morto. Só vendo mesmo...

O xodó da coleção

Coleção de antiguidades do fotógrafo Vilson Nunes da Silva, de São Sebastião do Caí Foto: Diego da Rosa/GES
Com aro, para-lamas e guidão de madeira, a Colúmbia de 121 anos é a maior relíquia que o fotógrafo tem em sua coleção. Foi adquirida em Rio do Sul, Santa Catarina. É uma bike tipo speed (de velocidade), com transmissão a cardan, equipada com farol de carbureto. Até a base para mantê-la de pé é uma obra de arte.

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