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Cartel da Colômbia se expandia no Vale do Sinos com a cocaína mais cara do mundo

Polícia apurou que a versão preta da droga, apreendida há sete meses em Novo Hamburgo, era somente para exportação à Europa

Reportagem: Silvio Milani

Quando fez a primeira e até hoje única apreensão de cocaína preta no Estado, com um colombiano em Novo Hamburgo, a Polícia Civil não sabia quem compraria os 26 quilos da versão mais cara e rara da droga no mundo. Era uma situação nova e surpreendente. A encomenda avaliada em R$ 6 milhões seria para consumo na região metropolitana? Após sete meses de investigação, a 1ª DP da cidade descobriu e desbaratou uma complexa rede de distribuição para a Europa. O produto era exclusivo para exportação. O inquérito da Operação Açaí foi concluído nesta quarta-feira, com cinco indiciados, e remetido ao fórum.
Mais que apurar a rota internacional e os principais operadores, com entreposto estratégico em Novo Hamburgo e outro sendo montado em São Leopoldo, os policiais viram que o grupo se preparava para aprimorar a logística no Vale do Sinos. E, por incrível que pareça, sem qualquer participação de facção criminosa local ou nacional. Justamente na região conhecida por sediar a maior organização do narcotráfico do Estado.

 

Mercado seleto

Segundo o delegado da 1ª DP de Novo Hamburgo, Tarcísio Kaltbach, o desenvolvimento químico, a produção e a distribuição da cocaína preta são uma obra do Cartel de Cali, na Colômbia, na década de 80. O Brasil nunca interessou como mercado consumidor, dado o valor da droga frente ao baixo poder aquisitivo. Os cocaleiros visam países ricos. Um quilo da substância custa de 30 a 35 mil dólares.

Tarcísio Kaltbach Delegado da 1ª DP de Novo Hamburgo
Tarcísio Kaltbach Delegado da 1ª DP de Novo Hamburgo Foto: Silvio Milani/GES-Especial


“É o valor agregado na alteração da composição química, para que, na versão preta, não seja detectada pelos reagentes nem por cães farejadores. Assim, acaba passando incólume por correios e aeroportos. E, quando chega aos destinatários da Europa, precisa de especialista para a reversão do processo, a fim de que volte a ser a cocaína pura exigida naquele mercado”, explica o delegado. A razão de ser da cocaína preta, reitera Tarcísio, é burlar a fiscalização. “Perde o cheiro característico e até a textura, ficando mais granulada. Essas transformações químicas têm custo. “

Estava sendo aprimorada, a partir do Cartel de Cali, uma estrutura estratégica na nossa região para o tráfico internacional da cocaína preta.
Tarcísio Kaltbach - Delegado da 1ª DP de Novo Hamburgo

 

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Rota da cocaína preta

Avanço perigoso

A América do Sul, porém, vem se tornando importante como rota alternativa para pulverizar os recursos e os rastros. A investigação avançou para possíveis representações também em São Paulo. A “invasão” do cartel colombiano em território brasileiro, de facções não menos violentas, poderia estremecer relações e gerar uma sangrenta guerra continental no submundo do crime? “Sim, mas acredito que essa nossa apreensão estancou os negócios dos colombianos por aqui e, consequentemente, possíveis retaliações entre essas organizações.”

 

 

'É só açaí', repetia o estrangeiro ao ser preso

Gerente de uma churrascaria no Vale do Sinos, o colombiano Fernando Alberto Mendez Rubio, 36 anos, recém tinha chegado do trabalho em casa, no bairro Vila Rosa, em Novo Hamburgo, quando desceu ao portão do condomínio da Rua Caeté para receber encomenda dos Correios, por volta das 17 horas de 2 de fevereiro. Ao colocar a mão no pacote, foi abordado e algemado por agentes da 1ª DP hamburguense. “É só açaí”, repetia o estrangeiro, assustado.

Agentes da 1ª DP hamburguense encontraram droga rara no alto de armário em apartamento de classe média no bairro Vila Rosa
Agentes da 1ª DP hamburguense encontraram droga rara no alto de armário em apartamento de classe média no bairro Vila Rosa Foto: Polícia Civil

Conforme o delegado, o suspeito subiu o elevador insistindo com os quatro policiais que era apenas mercadoria da empresa. No apartamento de classe média, no oitavo andar, realmente havia extratos naturais, cafés, ervas e outros produtos do ramo amontoados em uma espécie de escritório.

 

'Então prova'

No alto de uma estante, o chefe de Investigação, comissário José Urbano Lourenço, avistou embalagem suspeita. Rubio teimou que era açaí, apesar da tonalidade preta. “Então prova esse açaí”, desafiou o policial. “Esse ‘no’”, prontamente respondeu o colombiano, em bom portunhol. Eram 13 quilos de cocaína. Mesma quantidade recém vinda pelos Correios.

Informalmente, o morador confessou. Disse que ganharia R$ 10 mil por remessa. “Reclamou que trabalhava muito e não ia para a frente na vida financeira”, comenta o delegado. O salário na churrascaria era de R$ 2 mil. Há dez anos no Brasil, o colombiano é casado com uma estanciense, com quem tem filha de quatro anos. Na hora, a esposa estava no trabalho, uma companhia de exportação, e a menina, na escolinha.

 

 

Correria no feriado para checar a suspeita

Quando abordaram o colombiano, os policiais já sabiam que a encomenda era cocaína. Mas foi necessária uma correria institucional para chegar à prova. A suspeita surgiu na manhã do mesmo dia, pela Receita Federal, em razão do peso que não coincidia com os papéis. “Mesmo que não tinha qualquer aspecto de droga, desconfiaram em razão do destinatário ser colombiano, pegaram uma amostra nos Correios e nos trouxeram”, recorda Tarcísio. Eram 10 horas.

A substância foi testada na delegacia com o tradicional reagente, mas não ficou azul, como deveria acontecer com cocaína. Se os policiais fossem esperar pelos trâmites de rotina da perícia, a encomenda seria entregue ao colombiano e a suspeita ficaria pelo caminho. E era feriado de Nossa Senhora dos Navegantes em Porto Alegre.


O delegado ligou para o coordenador do IGP (Instituto-Geral de Perícias) em Novo Hamburgo, Tiago Carvalho, com pedido de extrema urgência. “Expliquei a situação para a direção de perícia laboratorial e foi montada estrutura para receber o material com maior brevidade possível”, lembra Carvalho.

Somente no terceiro teste, com a máquina mais avançada, foi detectada cocaína. “Às 13 horas, nossa equipe já estava voltando com o resultado”, recorda o delegado. A partir de então, ficaram monitorando o suspeito até ele receber a encomenda.

 

 

Gerente do tráfico é o padrasto

Na delegacia, com advogada, o colombiano ficou em silêncio. Pelo celular dele, documentos, rotina e contatos analisados, os policiais conseguiram aprofundar provas e elucidar o esquema. Apuraram que a próxima remessa seria para Madri, na Espanha, e a última tinha sido para Istambul, na Turquia. E, principalmente, descobriram a identidade do gerente do cartel responsável por coordenar a rota. É Guilhermo Pabon Rubio, padrasto do preso, que o tem registrado como filho legítimo e é casado com a mãe dele.

Fernando Rubio e Guilhermo Pabon Rubio
Fernando Rubio e Guilhermo Pabon Rubio Foto: Reprodução


“Não há registro oficial da entrada dele no Brasil, apesar de sabermos que transita por Tabatinga”, comenta o delegado. O filho foi solto seis dias depois do flagrante pelo Tribunal de Justiça, em Porto Alegre. Não tinha antecedentes criminais.

Quatro homens e uma mulher indiciados

Além de Fernando e do padrasto Guilhermo, o delegado indiciou outros dois homens e uma mulher. São um então colega de Fernando na churrascaria que aceitou abrir entreposto da droga em São Leopoldo, o homem que fazia as postagens da cocaína em Manaus e uma suposta chefe de boca na favela de Paraisópolis, em São Paulo, que teria recebido produtos do cartel por meio de Fernando.

 

 

"Não tenho vontade de falar"

A reportagem localizou Fernando na tarde desta quarta-feira, mas ele não quis se manifestar. “Na verdade, estou fechando essa parte. Não tenho vontade de falar”, declarou, em tom calmo e educado, dando a entender que teria deixado o tráfico. “Está em aberto ainda”, acrescentou, de forma sucinta, possivelmente referindo-se ao processo judicial que virá pela frente. O padrasto não foi localizado. Sequer a Polícia tem o endereço dele na Colômbia.

 

Empresa de produtos naturais era a fachada

Dono de empresa de produtos naturais registrada em São Leopoldo, o colombiano fazia expressivas encomendas de fornecedora de Cuiabá (MT), especialmente de açaí. A entrega era sempre na moradia em Novo Hamburgo.

“Há pedidos de que chegavam a R$ 10 mil, mas ele não tinha renda para pagar. Então emitia boletos por essa empresa, que o pai quitava em Tabatinga para capitalizar a conta bancária daqui”, exemplifica o delegado.

A fornecedora de Cuiabá não tinha conhecimento de estar abastecendo e ajudando uma fachada do narcotráfico. “Na última remessa de cocaína com as embalagens de açaí, o material ficou retido na Turquia por falta de alvará sanitário, que essa empresa do Mato Grosso prontamente forneceu para a liberação, pensando ser a fruta”, acrescenta Tarcísio.

Além disso, Fernando remetia embalagens de açaí da fornecedora de Cuiabá para São Paulo. “Aparentemente, nosso indiciado aqui não tinha movimentação comercial de produtos naturais. A mercadoria estava amontada no apartamento na Vila Rosa”, salienta o delegado.

Outra estratégia apurada é que a cocaína era enviada ao exterior como açaí para degustação de futuros clientes. Assim, evitava etapas de fiscalização, já que não havia valor comercial declarado.

 


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