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Envelhecer é uma conquista, não uma doença

OMS quer que velhice seja classificada como uma enfermidade

Reportagem: Débora Ertel

Neste ano, médicos e entidades ligadas à área da saúde foram surpreendidos pelo anúncio da Organização Mundial da Saúde (OMS) de que a velhice seria classificada como uma doença. Ou seja, na Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), a velhice ganharia um código com validade a partir de janeiro de 2022. Em resumo, daqui a dois meses velhice seria sinônimo de doença. A notícia não agradou e organizações do mundo inteiro enviaram comunicados à OMS pedindo que o assunto seja revisto. Afinal de contas, todo mundo que envelhece é doente?

Eugênia Malinosky dos Santos, 81 anos, esbanja simpatia e boa conversa. Industriária aposentada e praticante de hidroginástica, a moradora de Novo Hamburgo diz não concordar com a comparação. "Não podemos fazer o que o novo faz, temos que saber o nosso limite. Mas chegar nesta fase é muito bom", salienta.

Na verdade, o envelhecimento é uma conquista que o ser humano teve. Hoje vivemos praticamente 30 anos a mais comparando com 1950. É como se fosse um terço da vida de hoje



 O médico João Senger é presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) do Rio Grande do Sul. Ele destaca que a entidade, em nível nacional e também na América Latina, remeteu documento à OMS pedindo que a CID receba outro nome. “Na verdade, o envelhecimento é uma conquista que o ser humano teve. Hoje vivemos praticamente 30 anos a mais comparando com 1950. É como se fosse um terço da vida de hoje”, compara.

João Senger, geriatra e presidente da SBGG RS
João Senger, geriatra e presidente da SBGG RS Foto: Arquivo/GES

De acordo com o especialista, essa alteração já havia sido sugerida em outro momento e tem por detrás uma razão econômica. Senger pontua que nos Estados Unidos é forte a indústria anti-aging (anti-idade), com a venda dos mais variados produtos, em diversos ramos. “Imagina como ia ganhar força essa indústria a partir do momento que se declarasse a velhice como doença, os produtos venderiam muito mais”, pontua. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina já se manifestou contrário a esse tipo de tratamento diversas vezes por falta de evidência científica de eficácia. “Em resumo, existe um lobby forte da economia americana para mudar esse CID. Mas como o mundo inteiro se manifestou contrário, acredito que não será efetivado”, salienta.

Mas se a OMS manter sua posição, Senger classifica como um “desastre” a mudança. Isso impactaria não só na falta de valorização e respeito à velhice, mas também nas pesquisas científicas. “Tudo partiria do pressuposto de que uma pessoa com mais de 60 anos tem um CID e não existiria mais idoso saudável”, resume.

Um erro de comunicação

Para Leandro Minozzo, médico geriatra e professor do curso de Medicina da Feevale, desde o começo houve um erro de compreensão e de comunicação sobre o que a OMS divulgou. De acordo com ele, o órgão tentou ampliar o Código Internacional de Doença (CID) para as situações onde ocorre o óbito por envelhecimento patológico, o que hoje é tratado como senilidade. Mas ao propor a criação de um código novo, com o nome de velhice, gerou essa confusão.

Leandro Minozzo, geriatra, nutrólogo e professor

“Penso que o melhor nome seria fragilidade. Não vejo a OMS querendo desprezar o idoso, pois eles atuam para promover um envelhecimento saudável”, avalia Minozzo.

Para reforçar essa ideia, ele lembra que no ano passado a Organização Pan OMS lançou a Década do Envelhecimento Saudável, que vai até 2030. Uma iniciativa que busca reunir governos, sociedade civil, agências internacionais, profissionais, academia, mídia e setor privado para desenvolver ações que melhorem a vida das pessoas idosas, suas famílias e as comunidades onde que vivem.

“Envelhecer não é uma doença e o velho não pode ser descartado. Os idosos têm sido cada vez mais importantes para a sociedade”, diz o profissional. Para Minozzo, a OMS será sensível às críticas que recebeu quanto a denominação do CID e vai encontrar uma maneira diferente de classificar essa causa de morte.

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Por que uma nova CID?

Existem situações em que o paciente morre e que não há uma causa efetiva, relacionada a uma doença. “São aquelas situações onde a gente escuta por aí: morreu de velho”, explica Senger. Mas na hora de preencher a certidão de óbito o médico precisa colocar o código de CID e é essa questão que a OMS trouxe para debate. “Mas este CID não pode ser chamado de velhice. Eles precisam criar um outro dispositivo, o nome não pode ser esse”, reforça Senger. A CID existe desde 1900.

Conforme a SBGG, no Brasil cerca de três quartos das mortes ocorrem a partir dos 60 anos, tendo como causas doenças cardiovasculares, oncológicas e neurológicas, entre outras. Se todos os motivos forem resumido à velhice, a sociedade corre o risco de enfrentar falta de informação e de investimento para o tratamento destas doenças, alerta a entidade.

Reações contrárias no Brasil

Além da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), mais lideranças brasileiras se manifestaram contrária à declaração da OMS.

Nesta sexta-feira (8), inclusive, a Comissão Intersetorial de Atenção à Saúde nos Ciclos de Vida - Criança, Adolescente, Adulto e Idoso do Conselho Nacional de Saúde (CNS) participará de uma reunião no Departamento de Ações Programáticas Estratégicas do Ministério da Saúde. No encontro, o objetivo é elaborar uma proposta alternativa à inclusão do Código MG2A - Velhice, na CID 11. Entre as argumentação do CNS, é que o envelhecimento da população é um fenômeno global, especialmente acelerado nos últimos 20 anos.

Dados da OMS apontam que o número de pessoas com 60 anos ou mais em todo o mundo dobrou desde 1980 e há previsão de que chegue a 2 bilhões em 2050. Atualmente, mais de 34 milhões de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos são responsáveis por 23% do consumo de bens e serviços no Brasil.

Além disso, a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa e a Comissão Externa de Envelhecimento Ativo e Saudável da Câmara dos Deputados encaminharam, em agosto, uma moção à OMS solicitando a revisão e a alteração do termo velhice no rol da CID-11. No entanto, a OMS não prestou retorno.

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'Eu me sinto muito feliz'

Eugênia Malinosky dos Santos, 81 anos, há três anos começou a praticar atividades físicas em busca de melhor qualidade de vida e alívio para as dores das articulações. Hoje, ela se autodenomina a avó da turma de hidroginástica, por ser a aluna mais velha. Entre um exercício e outro, gosta de jogar conversa fora na piscina.

Viúva há sete anos, mãe de três filhos, com sete netos e sete bisnetos, jamais imaginou chegar à idade que tem hoje. "Eu sempre achava que ia morrer antes que meu marido porque fui muito enferma, com a imunidade baixa", diz.

Ela ajuda a cuidar de três bisnetos, cozinha, lava roupa e faz pão, com uma vida ativa, na companhia da família. "Eu tenho a minha casa, o meu carro. Olha, francamente, eu me sinto muito feliz!", garante.

 
Ela se sente saudável

Faz três dias que a merendeira de escola aposentada, Maria Dalila de Vargas, chegou a sua nova idade: 88 anos. Mãe de cinco filho, com nove netos e cinco bisnetos, faz pouco tempo que aceitou o convite da filha para participar do programa Morro em Movimento, que leva a prática de atividades físicas gratuitas aos bairros de Morro Reuter. “Foi uma vez e gostei, pois me senti bem. Às vezes não consigo me abaixar muito, mas está sendo bom”, conta.

Durante 30 anos trabalhou na Escola Estadual João Wagner e há 22 ficou viúva. Como os pais faleceram cedo, não imagina entrar para o time dos longevos. Tomando medicamento para controlar a pressão, a idosa se considera uma pessoa saudável e diz que está ansiosa pela volta dos bailes da terceira idade. “Eu gosto de dançar. Se tivesse um baile hoje, estaria lá”, garante. Enquanto isso, ela e as amigas se reúnem para jogar bingo uma vez por semana, sendo Maria Dalila a mais experiente da turma. A aposentada se declara uma pessoa contente, com sorte na vida. “Eu acho tudo muito bonito, principalmente os meus filhos, netos e bisnetos, pois são todos muito queridos”, comenta.

  Ela ainda trabalha

A diarista Terezinha de Oliveira, 75 anos, ainda está na ativa. Há 20 anos trabalha em uma casa de família e faz cinco anos que decidiu cuidar com mais empenho da saúde. Além de hidroginástica, ela faz aula de ritmos. Mãe de sete filhos, sendo dois falecidos, com cinco netos, conta que sofre com desgaste nos joelhos e já recebeu recomendação médica para diminuir o ritmo de vida. “Mas se a gente parar, vai ficar se arrastando, né! Daí é que vai ficar doente!”, replica. Enquanto se sente bem, Terezinha conta que não mão das atividades e sente feliz por isso.

  Década do envelhecimento saudável

O período de 2021 a 2030 foi declarado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como Década do Envelhecimento Saudável. A proposta é buscar o apoio da sociedade para o envelhecimento saudável, durante e após a pandemia.

Por meio da OMS, a intenção é buscar mudar a forma como as pessoas pensam, sentem e agem em relação à idade e ao envelhecimento e facilitar a capacidade dos idosos de participar e contribuir com suas comunidades e sociedade. Além disso, o projeto contempla atenção integrada e serviços de saúde primários que atendam às necessidades da pessoa e acesso a cuidados de longa duração para pessoas idosas que deles necessitem.

De acordo com a ONU, o envelhecimento da população afeta os sistemas de saúde, mas também outros aspectos da sociedade, incluindo os mercados de trabalho e financeiros e a demanda por bens e serviços, como educação, habitação, cuidados de longa duração, proteção social e informação. Portanto, requer uma abordagem de toda a sociedade.

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