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Notícias | Região INVESTIGAÇÃO

Cabeleireira desaparecida teria sido levada no porta-malas do próprio carro em Estância Velha

Ex-companheiro, solto mês passado pela Justiça, é suspeito de matar a profissional, admirada na família pela reviravolta na vida

Por Silvio Milani
Publicado em: 11.01.2022 às 22:03 Última atualização: 12.01.2022 às 15:14

Com duas condenações por tráfico de drogas no Vale do Sinos, cumpridas há pouco tempo, a moradora de Estância Velha Lourdes Clenir de Oliveira Melo, 48 anos, é considerada pela família um exemplo de redenção. Faxineira em creche e cabeleireira nas horas vagas, estava perto de realizar o sonho de abrir salão de beleza em casa, no bairro Rincão dos Ilhéus. A religião era outro apego recente. Ela está desaparecida desde segunda-feira (10). Teria sido levada no porta-malas do próprio carro pelo ex-companheiro, em caso tratado pela Polícia como feminicídio.

Lourdes Clenir de Oliveira Melo, 48 anos, na última foto postada em suas redes sociais, em Estância Velha
Lourdes Clenir de Oliveira Melo, 48 anos, na última foto postada em suas redes sociais, em Estância Velha Foto: Reprodução
“Estamos aflitos, já nos conformando com o pior, mas não desistimos de procurar e apelar por notícias”, lamenta o sobrinho Lucas Samuel Melo, 29. Ele conta que Lourdes não queria mais saber do ex-companheiro - um caminhoneiro que saiu da prisão há cerca de um ano - porque ele personificava o que ela queria deixar no passado. “Ele bebe, não trabalha e não quer ir para a igreja. Tudo o que minha tia não queria mais. Ela mudou completamente de vida.”

Caminho

O sobrinho, parentes e amigos mobilizaram uma corrente nas redes sociais para obter informações. “Ela sofreu demais na cadeia. Não devia mais nada. E não queria mais isso. Trabalhava na limpeza da creche perto da casa dela e fez dois cursos de cabeleireira. Já tinha todo o material e atendia a domicílio, conquistando cada vez mais clientes. O projeto era o salão de beleza. Estava no caminho certo.” A tia, conforme frisa, era uma pessoa independente. “Tinha a casa e o carro dela. Trabalhava para conquistar as coisas. É muito triste sumir dessa forma.” A família anuncia um número para informações: (51) 99826-0966.

Religião e família nas redes sociais

Em uma rede social, Lourdes tem como principais postagens convites para cultos e orações na igreja pentecostal que frequentava, no bairro Sol Nascente, e fotos com netas, que moram em Santa Catarina. É o Estado onde vivem os três filhos da cabeleireira – duas mulheres e um homem. “Mas a maior parte da família está aqui em Estância. Minha tia tem irmãos aqui, com meu pai”, observa Lucas. A última postagem, na manhã de segunda, pouco antes do desaparecimento, foi anúncio de evento nesta quarta-feira na igreja, intitulado ‘Entregando o meu futuro nas mãos de Deus'.

“Já temos autoria”, afirma delegado

Segundo o delegado de Estância Velha, Rafael Sauthier, a investigação está bem encaminhada. “Já temos autoria. A suspeita é que possa ter ocorrido um feminicídio. A Polícia está tentando localizar a vítima e identificar o paradeiro do autor”, declara ele, que prefere não detalhar provas levantadas para preservar a investigação. “Nada tem a ver com a traficância que ela exercia no passado. Tudo indica que ela não estava mais no crime, tanto que está empregada como faxineira em uma escola infantil.” E reitera: “o desaparecimento está relacionado ao ex-companheiro”.

Suspeito chegou a ser preso por ameaçar vítima, mas juíza soltou

A reportagem apurou que, no dia 19 de dezembro, o ex-companheiro foi detido por ameaça contra a cabeleireira, mas a juíza de Ivoti, Larissa de Moraes Morais, que responde por Estância, não homologou a prisão em flagrante. Deu liberdade ao acusado e Medida Protetiva de Urgência (MPU) à vítima.

De acordo com relatos, teria sido bem mais que ameaça. O homem teria agredido e até roubado objetos da casa. “Solto, ele logo descumpriu a medida. Começou a azedar a vida da Lourdes, mas ela, com medo, não denunciou. Agora pode estar morta”, comenta um amigo.

Invasão, sangue na casa e corpo no porta-malas

O desaparecimento da cabeleireira é atribuído a mais uma medida protetiva ignorada pelo ex-companheiro. Possivelmente a última. Ele teria chegado de moto à casa dela, na Rua São Cristóvão, e invadido a residência, por volta das 10 horas de segunda.

O agressor teria matado Lourdes dentro de casa. O corpo teria sido colocado no porta-malas do carro da vítima, um Corsa. Manchas de sangue no pátio indicam os últimos passos na propriedade.

A ocorrência do desaparecimento foi registrada no mesmo dia, no fim da tarde, por uma sobrinha. A casa estava aberta. O WhatsApp da moradora continuava ativo, mas não respondia.

À noite, surgiram testemunhos de pessoas que ouviram gritos na casa pela manhã. Também foi encontrado o espelho retrovisor do Corsa quebrado na saída do pátio. O homem teria batido ao passar pelo portão.

Crimes do passado

Quando morava em Ivoti, na Rua Pedro Weber, bairro Concórdia, Lourdes foi presa em casa com 19 papelotes de cocaína. Era conhecida como Nezinha. Conforme as investigações, ela usava o imóvel alugado como ponto de tráfico. Ela teria ainda oferecido o Astra dela, que estava na garagem, como tentativa de suborno a um policial civil. A sentença saiu em junho de 2010. A então juíza da cidade, Célia Perotto, condenou a ré a seis anos e dois meses no regime fechado.

Na tarde de 20 de fevereiro de 2009, na Travessa Viela, bairro Rincão dos Ilhéus, em Estância, ainda em liberdade provisória pelo caso de Ivoti, Nesinha foi presa com outra mulher e um homem com mais droga. Eram 177 papelotes de cocaína, 145 pedras de crack, 23 papelotes de maconha e um pequeno tijolo da erva. Em novembro de 2011, a juíza Rosali Libardi condenou Lourdes a sete anos no regime fechado.

As duas penas já foram cumpridas. Parentes e amigos afirmam que o crime ficou no passado. Assim como o codinome Nezinha.

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