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Notícias | Região VIOLÊNCIA

Assassinato em metalúrgica alerta para relações deterioradas e conflitos no trabalho

Especialistas frisam que gestores precisam estar atentos à saúde mental no ambiente corporativo

Por Ermilo Drews
Publicado em: 11.06.2022 às 08:00 Última atualização: 14.06.2022 às 09:50

Todos os dias são noticiados homicídios e mortes violentas no Brasil. Mas o assassinato nesta semana de um metalúrgico na empresa onde trabalhava, em São Leopoldo, chamou atenção pela incredulidade da situação. Um colega da vítima, que seria seu supervisor, a esfaqueou com uma espécie de faca artesanal por motivo fútil. A Polícia acredita que uma discussão pelo horário do café culminou na morte. Casos extremos assim são raros, mas já aconteceram no País. E alertam para os cuidados que precisam haver nas relações no trabalho.

Câmeras de vigilância interna flagraram trabalhador ferido após ser esfaqueado por colega
Câmeras de vigilância interna flagraram trabalhador ferido após ser esfaqueado por colega Foto: Divulgação
Especialista em psicologia organizacional e pesquisadora de Saúde e Trabalho, a professora do curso de Psicologia da Universidade Feevale Carmem Giongo analisa que diversos fatores podem deteriorar relações no ambiente corporativo, mas a maioria está relacionada à gestão do local. "Metas inatingíveis, comportamentos relacionados ao assédio, à violência, à falta de respeito e de solidariedade entre os colegas, a supervalorização e o reconhecimento de desempenho individual, organização que estimula muito a competitividade entre os trabalhadores, enfim, são todas condutas que geram um ambiente inseguro, no qual as pessoas costumam se defender ou atacar. Então, é importante sempre avaliar como é feita a gestão deste trabalho e desta organização", recomenda.

Diretora científica da Sociedade de Psicologia do Rio Grande do Sul, a psicóloga Renata Fedrizzi lembra que o local de trabalho costuma ser o lugar onde as pessoas passam a maior parte do tempo. Por isso, em alguns momentos, pode ser difícil separar questões da vida privada das relacionadas àquele ambiente. "Uma pessoa que está fragilizada ou passando por situações de estresse, pode vir a transparecer em seu ambiente de trabalho, tanto nas relações interpessoais quanto no seu desempenho profissional. É importante levar em consideração a singularidade de cada caso e de cada sujeito, mas, às vezes, o cruzamento entre essas instâncias fragiliza ainda mais o sujeito, que ao se ver sem condições de resolver, pode vir a cometer infrações importantes", pontua.

Renata observa que as relações dentro do trabalho são diversas. Podem se tornar uma amizade sólida ou ir por outro caminho. "A dificuldade de comunicação pode ser um fator que contribui para uma relação conturbada, assim como divergências de opinião podem fazer que o clima no ambiente de trabalho se torne hostil e desconfortável."

O que fazer

Carmen destaca ainda questões peculiares ao âmbito profissional que costumam gerar insatisfações e conflitos; e a importância das empresas estarem atentas. "Como o reconhecimento, não apenas financeiro, mas o social, pelos colegas, pela chefia. Além disso, a rede de solidariedade entre os colegas e, principalmente, um ambiente que respeite a saúde física e mental dos trabalhadores são importantes."

A professora da Feevale sugere a criação de programas nas empresas voltados à saúde mental e espaços de fala e escuta com a participação dos trabalhadores nesta construção. "É preciso pensar em estratégias que auxiliem neste processo."

''O clima organizacional repercute nas pessoas''

A psicóloga Patrícia Spindler observa que, de modo geral, as relações humanas estão fragilizadas, principalmente após o período do isolamento da pandemia. Num contexto destes, nem sempre se está atento às relações interpessoais dos outros. "Bem possível que uma situação extrema seja a gota que fez o copo transbordar e que vinha há algum tempo enchendo, mas, na maioria das vezes, estas situações passam sem que as relações de trabalho percebam ou não dão conta, desvalidando o que ocorre com as pessoas em detrimento da produtividade."

Patrícia pondera que apesar de o comportamento ser mais contido no ambiente profissional, sempre há sinais de que as coisas não andam bem, e a empresa precisa estar comprometida a enfrentar isso. "Quando há conflitos que não são conversados e gerenciados. Quando a rotatividade na empresa é elevada. Quando os afastamentos e atestados médicos ocorrem em alto índice. Quando a carga de horas extras é grande. Quando as pessoas não estão satisfeitas com seu trabalho. Ou seja, não é somente uma responsabilidade individual quando dois colegas entram em conflito. É necessário que a empresa se responsabilize sobre o quanto o clima organizacional repercute nas pessoas", afirma.

A psicóloga admite que nem sempre a gestão da empresa se sente preparada para lidar com os conflitos das relações interpessoais, deixando os problemas passarem, o que contribui para quadros de ansiedade, depressão e Síndrome de Burnout entre trabalhadores. "Realmente, muitas vezes, é preciso um olhar especializado no assunto, como um psicólogo ou gestor de Recursos Humanos", recomenda.

Empresa é responsável por evitar assédio e violência

Carmen frisa a importância das empresas também investirem na formação dos gestores, evitando situações como assédio moral. "Que é uma conduta de hostilidade, de degradar o outro de forma sistemática. E geralmente quem pratica é o gestor. Por isso, é fundamental capacitar os líderes das empresas para identificar condutas de assédio e preveni-las. O assédio moral, o ato de violência dentro do trabalho, são responsabilidades da empresa."

Neste sentido, uma empresa de Sobral, no Ceará, foi condenada em 2018 a indenizar herdeiros de uma funcionária que foi assassinada com golpes de faca durante o expediente por um colega de trabalho. O entendimento da 6ª Turma do Tribunal Superior do Trabalho foi de que a empresa deveria proporcionar segurança e vigilância à integridade física dos seus empregados.

Educação é o caminho, aponta cientista social

Apesar da incredulidade da situação que aconteceu em São Leopoldo, o cientista social e especialista em segurança pública Charles Kieling lembra que a sociedade não é pacífica, por isso, existem regras para controlar as pessoas.

Somam-se a esta característica questões de estresse que podem fomentar mais conflitos, inclusive dentro do trabalho. "Situações como retração do trabalho, privação econômica, escassez de oportunidades no mercado, inflação, ou seja, as pessoas estão passando por situações emocionais que podem afetar a saúde mental e física."

Kieling aponta que diante de situações que impactam no convívio social, como os homicídios, é comum as pessoas opinarem sobre a falta de impunidade. "Pois o desejo é sempre o de eliminar o problema com rapidez ou mesmo de vingar a vítima."

No entanto, para Kieling, o enfrentamento da violência não está nas formas de punição ou legislação penal. Ele defende que a melhor forma de prevenção da violência passa pela educação. "As falhas da educação serão percebidas pela sociedade e necessitarão do trabalho de outras instituições, como da segurança. Como a vulnerabilidade para a formação da cidadania está instalada, a sociedade passa a acreditar que a melhor forma de prevenir ações violentas é andar armado. Essa visão do senso comum se alinha às falhas instaladas."

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