Publicidade
Botão de Assistente virtual
Notícias | Região Região metropolitana

Desemprego reforça contingente de pessoas em situação de rua nas maiores cidades da região

Ao menos 430 pessoas vivem sem teto nas três em Canoas, Novo Hamburgo e São Leopoldo. Falta de trabalho levou para as ruas pessoas que nunca cogitaram viver nesta condição

Por Ermilo Drews
Publicado em: 11.06.2022 às 08:00

O trabalho acabou. O dinheiro sumiu. O aluguel atrasou. E agora, Lourenço? Nem todo mundo que transforma uma marquise em teto acabou lá por abuso de álcool e drogas, como é o perfil da maioria das cerca de 430 pessoas que vivem nesta condição nas três maiores cidades da região. E possivelmente o número esteja subestimado, já que se refere às pessoas que costumam fazer uso regular dos serviços de acolhimento ofertado pelas prefeituras. Gente que nunca imaginou fazer calçada de cama acabou nesta situação com a pandemia. Gente como Lourenço Vaz, 53 anos.

Pedreiro Lourenço levou para rua ferramentas de trabalho
Pedreiro Lourenço levou para rua ferramentas de trabalho Foto: Ermilo Drews/GES-Especial

Lourenço tem profissão, mas não tem emprego. Os 25 anos de experiência como pedreiro não resistiram à Covid-19. Com oito meses sem trabalho, o dinheiro do seguro acabou e ele se viu numa encruzilhada. Com familiares morando em outro Estado, enxergou nas ruas de Novo Hamburgo uma saída temporária para a situação até então inédita na sua vida.

Com duas mochilas com roupas e uma sacola com ferramentas da lida de décadas, dormiu por três meses atrás das Bancas, referência na área central de Novo Hamburgo. Logo descobriu o Centro de Referência Especializado em População em Situação de Rua, o Centro Pop, que assiste pessoas em situação de rua. Lá começou a imprimir currículos e distribuir em empresas ao longo do dia. À noite, o colchão na calçada virava "casa".

Com 15 dias nas ruas, teve um choque de realidade. "Acordei e vi que haviam levado minha carteira com documentos e celular. Tinha colocado o número em todos os currículos." Mas Lourenço encontrou gente boa no caminho, que zelou pelas mochilas e ferramentas enquanto peregrinava à procura de emprego. E teve apoio do poder público. Há três meses ele está abrigado numa casa que acolhe pessoas em situação de rua que tentam retomar as rédeas da vida. Este tipo de apoio é oferecido também em Canoas e São Leopoldo, que ao lado de Novo Hamburgo concentram a maior população de rua da região.

Abuso de álcool e drogas afeta maioria

Aprisionado pelas drogas, Victor dorme sob uma marquise em um colchão na calçada
Aprisionado pelas drogas, Victor dorme sob uma marquise em um colchão na calçada Foto: Ermilo Drews/GES-Especial

No entanto, nem todo mundo consegue uma vaga num dos abrigos da região. Um dos critérios é que a pessoa esteja sóbria. E a maioria não acabou nas ruas pelo desemprego, mas por uma chaga tão danosa quanto. O álcool e as drogas seguem aprisionando centenas de pessoas nas ruas da região. Victor da Rosa é um deles.

O jovem de 22 anos, com camisa social por debaixo de um moletom em bom estado, vive há pouco mais de um ano nas ruas. Foi nesta época que ele fez uma escolha carregada de tristeza. A droga venceu a persistência da mãe. "Para não atrasar a vida dela, vim morar na rua", diz Victor, que olha para baixo ao falar da mãe.

A vergonha e o remorso são de alguém que sabe que não se troca mãe por nada. Mas Victor não consegue mais escolher o óbvio. "Eu cheiro cocaína. Não é fácil parar", diz o jovem, que prefere seguir não sendo visto. "Foto não chefe, por favor."

Dependência, brigas familiares e discriminação entre os motivos

Diretora de Desenvolvimento Social de Novo Hamburgo, Anete Regina da Cunha afirma que histórias como a de Victor predominam nas ruas. "Quase todos são dependentes de álcool e drogas. Com isso, pedem e vendem alguma coisa na sinaleira para conseguirem manter o vício. Até por isso, a maioria não vai para o abrigo", afirma, citando ainda outros problemas relacionados à saúde mental.

Anete destaca que nos últimos anos aumentou o número de andarilhos que pedem e vendem nos semáforos. São os chamados trecheiros. "São pessoas de outras cidades e até países. Muitos acabaram vindo sem condições de trabalho. A maioria mora com familiares ou conhecidos, acaba pernoitando com eles, mas pede e vende na sinaleira."

Secretário de Cidadania de Canoas, Juliano Gonçalves corrobora que a droga e o álcool, aliados a brigas familiares, são as principais causas. Mas há outras. "Tem até questão da sexualidade. Às vezes, a família não aceita e a pessoa sai de casa", admite. Neste contexto, a Secretaria de Assistência Social de São Leopoldo cita ainda transexuais, migrantes e egressos do sistema prisional.

Kildery não encontrou o emprego prometido e precisou dormir na rua

Kildery mostra, com orgulho, carteira de trabalho preenchida
Kildery mostra, com orgulho, carteira de trabalho preenchida Foto: Ermilo Drews/GES-Especial

No abrigo no Boa Vista, Lourenço conseguiu entrar num processo de seleção em uma empresa de Esteio e está quase com emprego garantido. “Vou participar de uma integração e, tudo dando certo, começo a trabalhar e volto a ter uma casa.”

Quem já conseguiu emprego e também faz planos é o colega de abrigo de Lourenço, Kildery Richerlly, 25. Assim como o pedreiro, o potiguar viu o emprego virar artigo raro no Rio Grande do Norte durante a pandemia. O trabalho como representante comercial desapareceu de uma hora para outra e os R$ 3,5 mil por mês viraram uma lembrança boa da época que nem imaginava em morar na rua.

Com ensino médio completo e curso técnico de mecânica no currículo, ele acreditou num conhecido que o convenceu de que no Sul teria emprego garantido. Não teve. A realidade foi a rua. “Fiquei alguns dias só, logo consegui vir para o abrigo”, conta Kildery. Com qualificação e boa vontade, há um mês conseguiu emprego numa empresa de estacionamento, e já traça planos. “Quero tirar a (carteira de) habilitação, alugar uma casa e, provavelmente, vou começar faculdade de gestão comercial.”

Com a vida entrando nos eixos, o potiguar já sonha com o futuro no Estado que o acolheu, ainda que não do jeito inicialmente sonhado. “Aqui eu já consegui ver que você consegue ter uma estabilidade maior no emprego, vislumbrar uma projeção, então, a meta é construir a estabilidade profissional e financeira aqui no Rio Grande do Sul mesmo.”

Apesar do começo de Kildery no Estado não ter sido dos melhores, ele valoriza a experiência que teve até aqui. “Eu gostei pela questão da humanidade, de ver como funciona na rua, de ver que são diversas histórias e motivos que levam uma pessoa a esta condição. Eu confesso que tinha um preconceito, achava que por estar na rua devia usar alguma droga, mas comecei a ter um olhar mais amplo. Há muito talento, muita gente boa. Isso me tornou mais humilde.”

Recomeçar é possível

Secretário de Cidadania de Canoas, Juliano Gonçalves reforça que o trabalho de recuperação de uma pessoa vivendo nas ruas exige determinação. “Todo dia é uma construção, mas dá frutos. No ano passado conseguimos que 15 voltassem às suas famílias. Onze eram do RS e quatro de outros Estados. Um que a gente consiga tirar da rua já é uma vitória. Imagina 15.”

Além de buscarem restaurar laços familiares, um dos esforços é pela colocação destas pessoas no mercado de trabalho formal. “Conseguimos emprego para 14 deles. Alguns continuaram dormindo no albergue e trabalhando durante o dia até conseguirem autonomia financeira com os pagamentos”, afirma. Ele salienta que a atuação da prefeitura é feita por meio de diferentes secretarias, como Cidadania, Saúde, Segurança e Planejamento e Gestão.

Canoas cria 150 vagas temporárias em ginásio

Local receberá população de rua por tempo indeterminado
Local receberá população de rua por tempo indeterminado Foto: Alisson Moura/PMC

Com cerca de 220 pessoas em situação de rua atualmente, Canoas dispõe de um albergue municipal localizado no bairro Mathias Velho, com capacidade para receber 70 usuários por noite. A estrutura funciona o ano todo e pode ser ampliada para 80 vagas em caso de necessidade. “Funciona de segunda a segunda, de janeiro a janeiro. Abre às 17h30 e fecha às 8 horas”, detalha Gonçalves.

Para reforçar esta estrutura, ao longo do inverno, o ginásio do Colégio La Salle São Paulo atenderá por tempo indeterminado até 150 pessoas em situação de rua diariamente. Elas poderão usar o local a partir deste sábado. O atendimento será sempre das 18h às 7h. O ginásio fica na Rua Lajeado, 1.300, bairro Niterói.

“Temos um micro-ônibus que vai fazer uma circular nos pontos onde mais temos aglomeração de desabrigados. A ideia é que o ginásio fique à disposição até acabar o inverno ou o frio persistir”, observa Gonçalves.

Os desabrigados que chegarem no Colégio São Paulo receberão kit com sabonete, toalha, xampu, escova e pasta de dentes, além de janta e café da manhã. Animais de estimação também poderão ficar longe do frio e da chuva em um espaço pet.

Comunidade pode ajudar

A comunidade também pode ajudar com doações de roupas de inverno que estejam em bom estado. A arrecadação será feita no próprio colégio. Além disso, a população pode comunicar a prefeitura sobre os locais onde forem encontrados desabrigados para que sejam convidados a irem para o ginásio. Contato: (51) 98681-1047.

Novo Hamburgo tem 45 vagas em abrigos

Novo Hamburgo conta atualmente com 45 vagas em abrigos. São 25 num alojamento no bairro Bom Pastor e 20 em outro no Boa Vista. De acordo com a prefeitura, atualmente há 15 vagas disponíveis. Outras 20 seriam criadas num abrigo emergencial no Boa Vista, ampliando a oferta no inverno, mas moradores do entorno pediram que a prefeitura não utilizasse o imóvel para este fim. A administração municipal cedeu à pressão e decidiu reavaliar o local que dará suporte à rede de acolhimento.

Atualmente, a prefeitura de Novo Hamburgo estima que cerca de 40 pessoas vivam nas ruas da cidade, mas quem está nesta condição considera o número subestimado. "Tem o triplo de gente nas ruas em relação às vagas nos abrigos", diz um jovem que prefere não se identificar. "E priorizam quem está encaminhando trabalho", diz outro.

Além das 45 vagas para pernoite, podendo chegar a 65 se o abrigo emergencial sair do papel, o município conta com o Centro Pop, que atende durante o dia na Avenida Nicolau Becker, 989. No local, pessoas na condição de Victor podem se alimentar e fazer a higiene diária. "Uso todos os dias para almoçar e tomar banho", conta o jovem.

A Secretaria de Desenvolvimento Social mantém ainda equipe especializada na abordagem destas pessoas, oferecendo os serviços de acolhimento e até de tratamento, via Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD). Também são desenvolvidos cursos de inserção ao trabalho no Centro Pop e nos próprios abrigos.

Atendimentos em São Leopoldo

São Leopoldo atendeu 490 pessoas em situação de rua diferentes no primeiro trimestre deste ano. Porém, 164 fazem uso mensal dos serviços. Para assistir este público, o município conta com o Centro POP, aberto durante a semana das 7h às 17h, bem como o Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas). O Centro de Referência Especializado para pessoas Adultas em Situação de Rua (Crepar) funciona como albergue das 19h às 7h, contanto com 36 vagas, que podem ser ampliadas para 41 em dias de chuva e frio intenso.

No Centro POP são realizadas 10 oficinas, entre elas uma do "Mundo do Trabalho", que visa orientar, elaborar currículos e ofertar as vagas de empregos disponíveis por empresas e demais órgãos parceiros do serviço. Nos quatro primeiros meses do ano, 55 pessoas foram encaminhadas para oportunidades de emprego.

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.