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Notícias | Rio Grande do Sul Noroeste do Estado

Família denuncia médico por morte de idoso com Covid após nebulização com hidroxicloroquina

Lourenço Pereira, de 69 anos, faleceu no dia 22 de março no Hospital de Caridade de Alecrim. Filha diz que médico não pediu autorização da família para tratar pai com tratamento sem eficácia comprovada

Por Joyce Heurich
Publicado em: 05.04.2021 às 13:34 Última atualização: 05.04.2021 às 14:03

Lourenço Pereira morreu de Covid aos 69 anos em Alecrim Foto: Arquivo Pessoal

Familiares de um homem, que morreu com Covid-19, entraram com uma denúncia no Ministério Público do Estado contra um médico que prescreveu nebulizações com hidroxicloroquina. A família afirmou não ter sido comunicada do procedimento. Lourenço Pereira, de 69 anos, faleceu no dia 22 de março, no Hospital de Caridade de Alecrim, na Fronteira Noroeste do Estado.

O tratamento experimental, sem eficácia comprovada cientificamente, foi receitado pelo médico Paulo Gilberto Bochi Dorneles. O Jornal NH tenta contato com o profissional. Recentemente, três pacientes submetidos à mesma técnica morreram em Camaquã.

A filha da vítima, Eliziane Pereira, de 32 anos, conta que a família recebeu poucas informações do hospital sobre o tratamento no período em que o pai esteve internado. Lourenço entrou no hospital na sexta-feira, dia 19 de março, e faleceu três dias depois, na segunda. 

"Todo o procedimento realizado nele, nós só obtivemos informações após o falecimento", afirma. "Foi feita nebulização com hidroxicloroquina, de 6 em 6 horas, foi dividido o comprimido em quatro partes e utilizaram na inalação", detalha Eliziane.

A filha diz que, se consultada, dificilmente a família teria autorizado um tratamento como esse. "Bem provável que não, por saber que esse método não tem comprovação, meu pai estava sendo cobaia", define.

Pelo prontuário médico, o qual teve acesso após o falecimento, a família soube que após a inalação, que começou no sábado, Lourenço também havia sido medicado com hidroxicloroquina por via oral.

"Ele relatou no sábado que estava estranhando que não conseguia ficar sem oxigênio. Ele mencionou que estava se sentindo pior que no dia anterior. Eu acredito que a medicação possa sim ter contribuído", supõe Eliziane. No domingo, o prontuário médico confirma a "piora do quadro respiratório" do paciente.

De acordo com o Conselho Regional de Medicina do RS (Cremers), o tratamento off-label (fora da bula) ou experimental precisa do consentimento do paciente ou da família para ser realizado. O Cremers informa que abrirá uma sindicância para apurar o caso.

Hospital denunciado por descaso

Além do médico, o Hospital de Caridade de Alecrim foi denunciado por descaso. Segundo a filha, o pai dependia do uso de máscara de oxigênio para respirar e, mesmo assim, teria que deixar o leito para buscar as refeições que eram deixadas para ele na porta do quarto, desvinculando-se necessariamente do aparelho nessas ocasiões.

"Meu pai ficou sozinho. Ele ficou sozinho, internou sozinho e ficou até domingo de manhã sozinho. Ele teve que buscar comida até a porta e teve que ir até o banheiro, sem o oxigênio", relata a filha, que se comunicou com o pai por mensagens de áudio.

Como o hospital não conta com Unidade de Terapia Intensiva (UTI), Lourenço ocupou um leito clínico. A família diz que a transferência para um leito de UTI chegou a ser solicitada ao Estado pelo hospital, mas o hospital não informou em que data essa solicitação foi feita. O Jornal NH tenta contato com a instituição.

O que diz o MP

Conforme o Ministério Público do Estado, os familiares do paciente enviaram comunicação do ocorrido ao MP de Santo Cristo, que atende o município de Alecrim. A partir disso, um expediente (Notícia de Fato) foi instaurado. Como a família também protocolou Notícia Crime, o promotor Manoel Figueiredo Antunes irá requisitar instauração de inquérito policial para averiguar a situação em âmbito criminal.

Entidades médicas reprovam medicamento

Em nota divulgada há duas semanas pela Associação Médica Brasileira (AMB), o Comitê Extraordinário de Monitoramento da Covid-19 reafirmou que "medicações como hidroxicloroquina/cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e colchicina, entre outras, não possuem eficácia científica comprovada de benefício no tratamento ou prevenção da COVID-19". O Comitê, que reúne mais de 50 sociedades de especialidade médica, recomendou ainda que a utilização desses fármacos seja banida.


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