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Notícias | Rio Grande do Sul VIGILÂNCIA GENÔMICA

RS tem 25 casos confirmados de nova cepa do coronavírus

Estado é o primeiro do País a ter 'cluster' de transmissão local da variante XQ, segundo a Fiocruz

Por Nadine Funck
Publicado em: 02.06.2022 às 19:10 Última atualização: 03.06.2022 às 18:55

Um intensivo trabalho de vigilância genômica desenvolvido por pesquisadores detectou 25 casos da cepa recombinante XQ no Rio Grande do Sul, entre os meses de março e maio deste ano. Trata-se de uma conjunção dos genomas de duas subvariantes da Ômicron: a BA.1.1 e a BA.2. O Estado é o primeiro do País a ter um 'cluster' de transmissão local da cepa XQ, que já havia sido detectada de forma isolada em Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais.

Diagnóstico laboratorial de casos suspeitos do coronavírus
Diagnóstico laboratorial de casos suspeitos do coronavírus Foto: Divulgação/Josué Damacena (IOC/Fiocruz)
Segundo o cientista Fernando Spilki, pró-reitor de Pesquisa, Pós-graduação e Extensão da Universidade Feevale, a XQ possui características de alta transmissibilidade já identificadas nas subvariantes do grupo Ômicron. “Nos impressiona que, mesmo na presença de um amplo predomínio da variante BA.2 (que é muito transmissível), ela está se destacando, por isso queremos continuar monitorando”, justifica.

De acordo com a Fiocruz, os casos foram identificados por meio da análise de amostras referentes aos meses de março a maio, com crescimento gradual: em março, foram detectados dois casos, representando 0,3% dos 324 genomas sequenciados; em abril, oito casos, correspondendo a 8% dos 98 sequenciamentos; e em maio, 15 detecções, o que representou 7% dos 109 casos analisados.

“A identificação ocorreu em diferentes municípios gaúchos, o que sugere uma transmissão local da recombinante XQ no estado”, afirma a pesquisadora do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Paola Resende. O laboratório liderou o esforço de vigilância genômica no Rio Grande do Sul em parceria com o Lacen/RS.

Os achados foram imediatamente informados ao Ministério da Saúde e à Secretaria Estadual da Saúde (SES) do RS. Questionada, a Secretaria não informou em quais cidades os casos foram notificados.

Casos da recombinante XQ já foram detectados mundialmente, em especial no Reino Unido.

Máscara e reforço vacinal como prevenção

Para Spilki, a melhor recomendação para evitar novas infecções pelas variantes do coronavírus é a readaptação ao uso de máscaras em locais fechados. “Precisamos ajudar a vacina: a melhor ferramenta disponível para isso seria a readoção do uso de máscaras em locais fechados”, ressalta.

O professor ainda alerta para a estagnação no número de vacinados no Estado. “Para evitar casos graves, precisamos avançar na vacinação. Estamos com estagnação preocupante em termos do número de pessoas com esquema vacinal completo."

Investigações motivadas por uma cepa identificaram outra

A ação intensificada de vigilância genômica no Rio Grande do Sul começou em fevereiro, quando o Lacen/RS detectou um caso de outra cepa recombinante: a XS, que apresenta uma combinação dos genomas das variantes de preocupação Delta e Ômicron. O objetivo era investigar a possível disseminação da recombinante XS, mas o monitoramento acabou identificando a transmissão da XQ.

Entre fevereiro e maio, 824 genomas do coronavírus referentes a casos registrados no RS foram sequenciados. As análises detectaram 25 casos associados à cepa recombinante XQ e apenas um ligado à cepa recombinante XS. Além disso, os pesquisadores observaram a substituição gradual da linhagem BA.1 (ou sublinhagens da BA.1) pela linhagem BA.2 da variante Ômicron – um movimento que também tem sido percebido internacionalmente e em outros estados brasileiros. Em fevereiro, 97,3% dos casos no RS foram atribuídos à BA.1, contra 2,4% da BA.2. Já em maio, a BA.1 respondeu por 13,8% das infecções, ante 72,5% da BA.2.

Segundo Paola, casos de recombinação genética do coronavírus têm sido identificados com mais frequência desde janeiro deste ano, quando a circulação simultânea de duas variantes do SARS-CoV-2, Delta e Ômicron, foi registrada em diversos países. Na ocasião, foi considerada a possibilidade de surgimento de uma linhagem recombinante, que foi popularmente chamada de “Deltacron”. Porém, o monitoramento genético global mostrou a existência de múltiplas combinações genéticas entre variantes e linhagens do patógeno, que passaram a ser nomeadas com a letra X.

Além das cepas XQ e XS, casos pontuais das cepas recombinantes XF, XE e XG já foram registrados no Brasil. Considerando os achados da cepa XQ no Rio Grande do Sul, os pesquisadores devem manter a vigilância reforçada no estado e investigar, de forma aprofundada, as características do vírus. “Nesse momento, ainda não conseguimos dizer se a XQ foi introduzida de outro país ou foi originada a partir de uma recombinação local. Precisamos ampliar as análises para investigar essa questão”, pontua Paola.

Linhagens sob monitoramento

Além da recombinação, a circulação de diferentes linhagens da variante Ômicron é motivo de alerta. Em maio, os pesquisadores do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do IOC identificaram, no Rio de Janeiro, três cepas classificadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como linhagens sob monitoramento da variante de preocupação (sinalizadas pela sigla em inglês VOC-LUM). São elas: BA.4, BA.5 e BA.1.12.1. Segundo a OMS, essas linhagens exigem atenção e monitoramento prioritários, com foco em investigar se podem representar uma ameaça adicional à saúde pública global em comparação com outros vírus circulantes.

A partir dos achados, o trabalho de vigilância genômica no estado foi intensificado, com o sequenciamento de mais amostras referentes a casos positivos para o SARS-CoV-2.

Porém, Paola ressalta a importância da manutenção da vigilância genômica em todo o país. “A vigilância genômica não pode decair. Precisa ser mantida em todo o território nacional, de forma contínua ao longo do tempo e, tanto quanto possível, em tempo real. Para isso, não é necessário sequenciar o genoma de todos os casos. O que precisamos é ter uma amostragem sistemática em unidades sentinelas para acompanhar o que está acontecendo, em tempo oportuno para possíveis medidas de contenção”, esclarece a pesquisadora. 

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