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Opinião Alexandre Aguiar

Dois jogos de futebol, dois fracassos civilizatórios

Por Alexandre Aguiar
Última atualização: 17.10.2019 às 13:18

O futebol tem enorme poder de transformação social e existem inúmeros exemplos ao redor do mundo de como o esporte desenha sociedades, impacta regimes políticos e muda a vida de pessoas. De campos de refugiados na Síria aos luxuosos estádios da Europa, o futebol é ao mesmo tempo a esperança de uma vida melhor para milhões de crianças e o retrato das piores mazelas de algum povo. Tão complexo como o mundo, a futebol é uma síntese da diversidade de facetas, para o bem e para o mal, do que somos. Uma história que foi contada brilhantemente pelo jornalista norte-americano Franklin Foer no livro “Como o futebol explica o mundo”, disponível no Brasil, e de leitura recomendada.

Dois jogos nos últimos dias mostraram como o esporte pode retratar com singularidade o fracasso civilizatório e as feridas de nações.

Um ano atrás estive na Coreia do Norte, visitando a capital Pyongyang e outras partes do país mais fechado e misterioso do mundo, governado por uma ditadura comunista que é reputada internacionalmente como a que tem o pior histórico em direitos humanos entre todos os governos do planeta. Um dos tantos locais em que estive, acompanhado das vigilantes e atentas guias do regime, foi o estádio Kim Il-sung, em Pyongyang.

Coreia do Norte e Coreia do Sul ali se enfrentaram nesta semana. Muita expectativa havia antes da partida ante os gestos de reaproximação na península coreana, ainda em estado de guerra oficialmente. Quando estava no Estádio Primeiro de Maio, a poucos metros do ditador Kim Jong-un, para a apresentação de estreia dos chamados Mass Games de 2018, um gigantesco espetáculo de música, acrobracias, ginástica, luzes e fogos, a esperança era de um caminho de paz. No final do show, que mais lembra a abertura de uma Olimpíada, o gigantesco mosaico formado por milhares de crianças e jovens, exibiu o encontro com o aperto de mãos entre os presidentes das duas Coreias. Os dois voltaram a se encontrar depois e o líder do Sul chegou a desfilar em carro aberto pelas ruas de Pyongyang e falar para um estádio Primeiro de Maio lotado durante sua visita oficial ao Norte.

Havia por meses a esperança de que o jogo pudesse aproximar torcedores do Sul e do Norte. Que a entrada de torcedores sul-coreanos fosse permitida no país. Que os dois líderes estivessem no estádio. Que fosse uma grande festa e um exemplo de paz para o mundo, afinal as duas Coreias chegaram a disputar sob uma mesma bandeira esportes nos jogos olímpicos de inverno da Coreia do Sul. Nada disso, contudo, ocorreu.

Como um exemplo do fracasso das negociações de paz até agora e a pouca disposição do regime comunista do Norte em se abrir, o jogo sequer teve televisionamento. Jogaram para um estádio quase vazio em que torcedores do Sul e do Norte não tiveram acesso. Só poucos convidados do regime, como diplomatas, puderam ver a partida. E as fotos e vídeos do confronto que ganharam o mundo vieram pelas lentes de um diplomata sueco. Sequer a seleção do Sul foi permitida viajar diretamente para o Norte. Bastava cruzar a fronteira, numa viagem rápida. Ao contrário, acabou obrigada a ir à Pequim (China) e dali apanhar um avião para Pyongyang. Como todos os demais viajantes. Ah, o jogo acabou num modorrento 0 a 0. Apropriado ao clima político.

O outro jogo de fracasso civilizatório ocorreu na Bulgária. A seleção inglesa foi alvo em grande parte da partida de cânticos e gestos racistas por torcedores búlgaros neonazistas de extrema-direita. As cenas foram enojantes. A mesma Sofia meses atrás testemunhou uma marcha de neonazis com tochas pelas ruas da capital búlgara. O arbitro da partida ofereceu aos ingleses interromper o jogo, mas os atletas da Inglaterra insistiram e alguns de seus atletas negros fizeram os gols da merecida goleada de 6 a 0 sobre a Bulgária. No dia seguinte, um jornal inglês resumiu muito bem em manchete o que foi a partida pela UEFA: Inglaterra 6 X 0 Racismo.

São crescentes os movimentos de extrema-direita, neonazistas e antissemitas, em grande parte da Europa.

Essa fatia podre do tecido social acaba espelhada no futebol e não faltam exemplos de suas presenças em estádios nos últimos anos no continente. Estão presentes entre os ultras, torcidas organizadas criminosas e formada por hooligans, com histórico de racismo e xenofobia, especialmente em países do Leste Europeu.

Para não dizer que inexiste esperança, nesta mesma semana, a entrevista mais repercutida no Brasil foi justamente no futebol e exatamente sobre o tema racismo. O técnico Roger, do Bahia, após a partida contra o Fluminense no domingo, ofereceu aos brasileiros uma aula magna sobre o racismo estrutural existente em nosso país. Um choque de realidade àqueles que ignoram uma triste faceta da vida brasileira. Se você não viu, busque. Está nas redes. Será uma vitória civilizatória para você ouvir aqueles cinco minutos.

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