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Um caminhão chamado Ricky

(data estelar 12012020)

Por Gilson Luis Cunha
Publicado em: 12.01.2020 às 07:00 Última atualização: 12.01.2020 às 08:34

Tom Hanks, Ricky Gervais e Anthony Hopkins Foto: Reprodução
Na noite do último dia 5 de janeiro um caminhão atropelou a elite de Hollywood, ao vivo e em alta definição, em algo que bem poderia se chamar “o dia universal da honestidade”. Não é por acaso que, em inglês, o apocalipse, livro da bíblia, é chamado de “livro das revelações”. O momento em que toda a verdade é revelada é um momento limite, sem volta. Pois bem, nessa noite aconteceu a premiação do Globo de Ouro 2020, oferecida aos profissionais que mais se destacaram na TV e o no cinema estadunidense no ano passado. O prêmio é oferecido pela Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood, e, portanto, reflete mais ou menos (ou deveria) a visão da imprensa “mundial”, sobre a indústria do entretenimento. Esses eventos costumam ter um mestre de cerimônias, normalmente um comediante. E o escolhido desse ano, como de outras edições recentes, foi o inglês Ricky Gervais (foto, em pé).

Só que ele não se limitou a fazer óbvio humor politicamente correto, caindo em cima de alvos óbvios ou dos desafetos de Hollywood. Não mesmo. Desta vez, tal qual uma Scania carregada ele atropelou sem dó nem piedade o Olimpo do cinema e da televisão. Seu humor ácido e sua agilidade deixou gente como Tom Hanks e Jonathan Pryce com caras que “não têm preço”. Foram muitas as piadas de Gervais, envolvendo política, machismo, páginas policiais, etc. Mas talvez o pior golpe que partiu de seu microfone tenha sido seu brilhante monólogo de abertura:

Vocês se dizem “despertos” (woke, uma expressão anglófona para “conscientes dos problemas sociais”) mas trabalham para a Apple, Amazon, Disney... se o Estado islâmico lançar um serviço de streaming todos vocês iriam correndo ligar para seus agentes. Vocês não estão em posição de ficar dando lições ao público sobre qualquer coisa.

Ou ainda:

Vocês não sabem nada sobre o mundo real e a maioria de vocês passou menos tempo na escola do que a Greta Thunberg. Então, se você vencer, não use este lugar para fazer um discurso político. Apenas receba seu pequeno prêmio, agradeça ao seu agente e caia fora.

Naquela mesma noite o comediante ganhou quase meio milhão de seguidores no Twitter e esse número continua aumentando. O motivo? O público cansou. Cansou de ser apontado como a causa dos problemas do mundo, por gente que se acha o suprassumo da superioridade moral e que se crê no sagrado dever de dizer como as pessoas devem viver suas vidas.

Algumas semanas antes, o grande Anthony Hopkins (foto), junto com Jonathan Pryce, um dos protagonistas de Dois Papas, da NETFLIX, disse numa entrevista: “As pessoas me fazem perguntas sobre vários assuntos. Eu digo: Não sei. Sou apenas um ator. Não tenho opinião. Atores são muito estúpidos. Minha opinião não vale nada”.

Na premiação do Globo de Ouro, Ricy Gervais reforçou essa afirmação, mas de modo mais apimentado.

As reações não tardaram os “top critics” de TV do site Rotten Tomatoes (sempre ele!) deram a Gervais vários tomates podres, bem como longas e aborrecidas críticas, que só não podem ser chamadas de textões de justiceiros sociais porque foram feitas em sites profissionais (hein?!) e não nas redes sociais. O cara foi chamado de chato, aborrecido, inconveniente, sem graça... O comediante foi acusado de ser machista, racista, homofóbico, e sabe-se lá o que mais. Houve quem o chamasse de “agente da direita conservadora”, o que só denota um completo desligamento da realidade. Gervais é inglês. Oriundo da classe baixa. Pobre, pé-rapado, liso, durango, em bom português: povão. Só para se ter uma ideia, seus anos de estrelato dos dois lados do atlântico não conseguiram apagar seu sotaque de pobre. Sim, na moderna e esclarecida Grã-Bretanha, pobre tem sotaque, uma lembrança de séculos de estrita separação entre as classes sociais. Achar que um cara assim é um “instrumento de uma elite maléfica” é talvez uma piada mais engraçada do que as que ele contou na premiação. Nas palavras do próprio Gervais em uma recente postagem no twitter:

“Como é que provocar imensas corporações e as pessoas mais ricas e privilegiadas do mundo pode ser considerado coisa de direita?”

Como diziam aqueles advogados de filmes americanos dos anos 50: “eu encerro o meu caso”. O discurso de Gervais já está sendo considerado um marco na luta pela liberdade de expressão na indústria do entretenimento. Já não adianta mais a atores, diretores e executivos de estúdio fingirem-se de virgens vestais, sinalizando virtudes que não possuem, tentando ganhar a simpatia do público. À mulher de César não basta ser honesta. Ela precisa PARECER honesta. Bom, fica meio difícil falar pelos pobres, pelas crianças e pelas baleias, ao mesmo tempo em que você depende do dinheiro de investidores que, basicamente, lucram com trabalho (frequentemente infantil) em condições que beiram à escravidão. Isso, talvez, explique a cara de Tom Hanks e de sua esposa (foto). Ou eles podem apenas estar treinando para um concurso de imitação de Stan Laurel (o magro, da dupla O Gordo e O Magro). Vá saber. O que importa é que, agora, nada será como antes. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até domingo que vem.


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