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Opinião Colunistas

Colunistas | Carta aberta aos prefeitos e prefeitas da região

Por Alexandre Aguiar
Última atualização: 27.03.2020 às 00:07

Senhores e senhoras

A epidemia chegou. E avança pelo mundo inteiro. Somente na quinta-feira foram mais 16.980 casos e mais 256 mortes nos Estados Unidos. Mais 8271 casos e mais 718 mortes na Espanha. Mais 6615 casos e 61 mortes na Alemanha. Mais 6153 casos e 712 mortes na Itália. Mais 3922 casos e mais 365 mortes na França. Mais 2389 casos e 157 mortes no Irã. Mais 60.099 casos e mais 2764 mortes em um único dia no mundo com números que não param de aumentar.

Em 19 de janeiro, o mundo tinha 100 casos. Em 24 de janeiro, mil. Em 31 de janeiro já eram 10 mil. Em 12 de fevereiro, 50 mil. Em 6 de março, 100 mil. Em 18 de março, 200 mil. Em 21 de março, 300 mil. Em 24 de março, 400 mil. Em 26 de março, 500 mil. E, hoje, apenas um dia depois de ter sido atingida a marca de 500 mil, podemos chegar a 600 mil. Alguém pode imaginar essa contabilidade daqui a um mês?

O discurso criminoso do presidente da república Jair Bolsonaro, desafiando a ciência ridicularizando a maior crise de saúde no mundo desde a pandemia de Influenza de 1918 e 1919 com termos como “gripezinha” e “resfriadinho”, em que ainda zombou de todos os brasileiros preocupados ao se orgulhar do seu perfil “atlético”, detonou movimento irresponsável e de negação científica intitulado “O Brasil não pode parar”.

Convocações de empresários nas redes sociais chamam para atos nesta sexta-feira em que sublinham os manifestantes estarão de carros, “sem aglomeração” e “sem contato cruzado de pessoas”. Isso é um ultrajante deboche à inteligência alheia. Os senhores empresários pregam distanciamento no protesto em que pedem a retomada das atividades para que os seus empregados se aglomerem diariamente em ônibus e vagões de trem transformados em “latas de sardinha”?”

É compreensível que haja uma preocupação com a economia, com empregos, com fome e miséria, haverá uma brutal recessão e até uma depressão econômica sem precedentes, dias terríveis nos aguardam, mas empresas se reerguem enquanto mortos não ressuscitam. É inaceitável e abjeto que economia seja colocada acima de vidas. A economia é feita por pessoas e não haverá economia com pessoas mortas ou hospitais saturados com o sistema de saúde em colapso. É necessário sim harmonizar interesses, mas hoje nada supera o do direito humano mais sagrado: a vida.

É mais do que evidente que há subnotificação de casos e de mortes no Brasil pelo novo vírus. As redes sociais começam a se encher de relatos de pessoas que perderam entes queridos que jamais foram testados e tiveram como causa mortis declarada pneumonia ou infecção respiratória. Metade dos internados no Brasil e nos Estados Unidos são pessoas em idades economicamente ativas e não idosos, apesar de a grande maioria das vítimas fatais ser de pessoas acima dos 60 anos. Esse vírus pode matar muito menos jovens, mas mata também jovens.

O Ministério da Saúde já antecipou que os casos e mortes vão subir muito. Que estamos no estágio inicial da curva. Que nas palavras do ministério poderá ser uma montanha ou um morro. Os que hoje se mobilizam pelo relaxamento da quarentena, quando ainda a curva está subindo, parecem ignorar todas as lições do exterior. Esse movimento pela retomada da vida normal na nossa região também ocorreu na Itália. Chamou-se “Milão não pode parar”. Hoje, Milão tem 4 mil mortos. É isso que desejamos para as nossas comunidades? Os que pressionam querem parir a montanha, um Everest de casos, e não um morrinho.

Que fique claro! Montanha significa um amontoado de cadáveres. Incapacidade de dar um sepultamento digno a todos. Hospitais em caos. Colapso total da saúde. Cenário de guerra em instalações médicas. Médicos e enfermeiros morrendo após infectados. Acha exagero? Olhe para a Itália. Olhe para a Espanha. Milão tem um sistema de saúde que é avaliado pela OCDE com 9.9 numa escala até 10. Sucumbiu! E o nosso sistema que já em condições normais beira o colapso muitas vezes, como resistirá? Os senhores e senhoras toleram esse cenário porque um presidente da república louco e um agrupamento de empresários refratários da ciência estão a pressionar?

E que fique ainda mais claro, senhor prefeito ou senhora prefeita. Em uma linguagem que você entende e muito bem: cálculo eleitoral. Levantar a quarentena será o seu suicídio político. Empresários podem despejar dinheiro em suas campanhas eleitorais, entretanto morto não vota e familiar de morto não votará em quem, por um decreto, abriu mão da quarentena que fez a epidemia sair de controle e matar pessoas. Quem desafiar toda a ciência terá cadáveres no currículo, além de necrotérios e funerárias inundados de corpos em seu município. Será o fim da sua carreira política! Adiós!

Não desafiem a ciência, senhores e senhoras. Um estudo publicado nesta quinta-feira (26), por economistas do Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos) e do mundialmente renomado MIT (Massachussets Institute of Technolgy) foi explícito: cidades que intervieram mais cedo e mais agressivamente na pandemia de 1918 para conter a doença não sofreram mais economicamente que outras e ainda tiveram suas economia recuperadas mais rapidamente.

Não cedam à marcha da insensatez! Resistam à caravana da ignorância. Não afrontem a ciência. Não coloquem em risco a vida dos seus munícipes. Não joguem suas carreiras na latrina. Deem mais alguns dias para que a quarentena mostre resultados. Esperem a curva descer e se estabilizar. Não repitam Milão, será pior aqui e todos vamos chorar os mortos!!! Será insuportável a dor e o sofrimento. E não desejamos isso. A ninguém!!


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