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Precisamos falar sobre filicídio

Por Níkolas Ruschel Petry
Última atualização: 10.06.2020 às 14:00

Em meio à pandemia, ao colapso do sistema de saúde e da economia, das disfunções políticas, uma nova tragédia: a mãe que confessa o assassinato do filho. Mais uma vez, lembrando todos os casos de Bernardos e Isabellas, nos deparamos com a crueldade da morte de uma criança nas mãos de seus cuidadores. Por que falar de filicídio em meio às demais tragédias sociais? Porque o filicídio acontece todos os dias, debaixo dos narizes da sociedade. É inevitável nos perguntarmos: o que aconteceu? Alguns se perguntam o que leva uma mãe a matar o filho, outros ainda podem questionar o que o filho teria feito. Sim, cuidar de crianças não é fácil, mas nada poderia justificar tamanha barbárie. Primeiro, comecemos a desmistificar o filicídio: diversos autores (cito rapidamente Racovsky, Leclaire e Paim Filho) já se debruçaram sob o tema. Acontece que o filicídio não é novidade, ocorre desde sempre na história, envolvendo inclusive mitos gregos e as histórias bíblicas.

Mesmo assim, notícias como as de Rafael, de Isabella e de Bernardo nos apavoram! E devem mesmo! No entanto, é preciso pensar de que outras formas as crianças estão perdendo a vida nos dias atuais. Basicamente, o filicídio se constitui das dinâmicas do desejo dos pais pelos filhos, apresentando duas formas patológicas: Alienante e em Ato. O filicídio em Ato é o que sofreu Rafael: medicado e enforcado pela própria mãe, ainda contou com seu corpo escondido. Mas ainda temos outra forma, mais delicada e que talvez passa despercebida por nós: os abandonos, as agressões, as altas doses de medicação.

Nossas crianças encontram diversas variações de morte, na mão de seus cuidadores: ficam desamparadas, abandonadas, agredidas, ou hipermedicadas. Assim, sofrem uma morte de outro tipo: a morte psíquica. Paralelamente, a sociedade vê estas ocorrências passarem frente a seus olhos, questionando apenas quando a manchete aponta um caso bárbaro: a criança que o tigre arrancou o braço, o filho morto pelos pais, o bebê esquecido dentro do carro. Devemos nos apavorar com estes casos; devemos pedir justiça. Mas a única forma de conseguir justiça é impedindo que tais casos ocorram novamente.

Antes de acontecer o dito assassinato, a criança já sofre uma série de mortes de outra ordem: muitas vezes, dopadas de medicação "para se acalmar", em outras agredidas, abandonadas ou desamparadas. São estes os casos que podem ter intervenção. As vidas de Bernardo e de Rafael não voltarão, mas as de tantas crianças, que têm suas vidas arrasadas e despedaçadas, ainda podem ter um desfecho diferente.

Mas o que faz um pai ou uma mãe chegar a tal ponto? Talvez nossa sociedade não tenha mais espaço para as crianças serem crianças. Esta é só uma hipótese. Mas o fato é que estes pais e cuidadores não exercem nada disto sozinhos: existe uma família e uma comunidade junto a eles. Quantas mortes de filhos e filhas precisam acontecer, para percebermos que a própria sociedade entrega estas crianças à morte, quando tolera que formas disfarçadas de filicídio ocorram diariamente? Precisamos falar sobre isso. Precisamos questionar o lugar que a criança tem em nossa sociedade, em nossos desejos, em nossa atualidade.


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