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Opinião

O Cavaleiro da Triste Figura

Por Gilson Luis Cunha
Publicado em: 04.10.2020 às 04:00

(Data estelar 04102020)

Era uma vez Sir Patrick. Bom, ele ainda não era um Cavaleiro do Império Britânico. Mas era esforçado. De origem humilde, começou seu treinamento como ator aos 11 anos, e a atuar na Royal Shakespeare Company aos 15, em 1966. Foram décadas de aperfeiçoamento, começando bem de baixo, como um daqueles pajens que não fedem nem cheiram na corte de algum nobre inglês, escocês ou dinamarquês, até papéis relevantes, como Romeo, Hamlet, Iago, e, com o tempo, Rei Lear ou o infame MacBeth. Foi uma vida dedicada ao teatro, plena de realizações. Mas Sir Patrick (que ainda não era Sir, lembremo-nos disso) queria mais da vida. Queria grana, money, plata, bufunfa. E quem não quer? Entre o final dos anos 60 e o início dos 80, Sir Patrick começou a atirar para todo lado, participando de programas de TV na Inglaterra e, em seguida, no cinema, em filmes como Excalibur, de John Boorman (1981), DUNA, de David Lynch (1984), e Força Sinistra, de Tobe Hooper (1985). Mesmo assim, sua reputação maior ainda era no teatro. Apesar de uma vida muito confortável como ator, ele não era rico. E não tinha o cacife para produzir suas próprias montagens, como a de “Quem tem medo de Virgínia Woolf? ” projeto cujo o sonho ele acalentava na época.

Em 1987 o produtor Robert H. Justman o viu em uma peça de teatro e o convidou a fazer um teste para algo chamado “Jornada Nas estrelas, A Nova geração”, uma série que começava a ser produzida e sobre a qual ele nada sabia. Foi um choque cultural. Stewart nunca havia assistido ao seriado original, Jornada Nas Estrelas (1966-1969). Ele detestava a maioria de suas falas, principalmente as que envolviam “Techno baboseira” (Technobabble, expressão anglófona usada para descrever recursos de ciência ou tecnologia fictícios usados em algumas obras de ficção científica). Ele também não se ajustava ao resto do elenco. Seu estilo altamente disciplinado contrastava com o do resto do elenco, predominantemente norte-americano. Para piorar as coisas, ele não era o favorito de Gene Roddenberry, o criador da série original e de sua sucessora. Roddenberry queria alguém mais jovem e energético, como um novo capitão Kirk, não “um inglês careca de meia-idade”. O talento e os anos de treinamento duro prevaleceram e nascia Jean-Luc Picard, o primeiro capitão não norte-americano da Frota Estelar. Seu esforço inspirou os colegas de elenco e Stewart, por sua vez, aprendeu a ser menos severo com eles e consigo mesmo. Mas jamais esqueceu a opinião de Roddenberry sobre ele. A imprensa norte-americana o chamava de “desconhecido ator britânico”, embora ele já tivesse uma carreira expressiva. Eram tempos difíceis. A série passou por vários percalços e brigas internas durante a produção.

A primeira temporada reflete isso. Assim como Stewart era um novato na TV norte-americana, o próprio Picard era um novato na USS Enterprise, NCC-1701 D, a quinta nave a receber esse nome no universo de Jornada Nas Estrelas. Seu Picard é turrão, ranzinza e se sente deslocado em “uma nave cheia de crianças”. Ele era, basicamente, o estereótipo do francês asqueroso, mas feito, segundo o próprio Stewart, como “um inglês genérico”.

E a grana começou a entrar. Durante um intervalo entre a primeira e a segunda temporada, Sir Patrick calculou que ganhou mais naquele intervalo do que com dez semanas de atuação em Londres. Mais do que isso: ele passou a ser reconhecido, mesmo fazendo ficção científica, esse “gênero menor”, segundo os narizes empinados. Stewart foi apontado pelos leitores do TV Guide como “o homem mais audacioso da TV. ”

Stewart considerou isso glorioso, levando em conta sua idade e sua calvície. Em uma entrevista a Michael Parkinson, ele expressou gratidão a Gene Roddenberry, quando um repórter disse, "Certamente eles teriam curado a calvície até o século XXIV", ao que Roddenberry respondeu: "No século XXIV, eles não iriam se importar”. Mesmo assim, algo daqueles primeiros tempos permaneceu.

Da segunda temporada em diante, foi “um abraço”. Seguro de seu papel, Stewart foi tornando seu Jean-Luc Picard cada vez mais charmoso e bonachão. Foram sete anos para os quais Sir Patrick não estava preparado. Se, por um lado, ele ficou famoso e “encheu as burras” de dinheiro, por outro, foi um período estressante. Ele odiava Los Angeles, cidade em que vivia e trabalhava, e não fazia nenhum esforço em esconder isso. Ficou espantando ao se dar conta de que, ao longo de sete anos, praticamente só fez um papel. Ele ficou tão marcado pelo papel que teve dificuldades e encontrar outros trabalhos.

Em 1999, veio o convite para viver o professor Charles Xavier, em X-Men, o Filme. De certo modo, Xavier tinha muito a ver com Picard. Ambos são carecas, figuras de autoridade e passam parte expressiva do tempo sentados. Segundo o próprio Stewart, Xavier é, basicamente, igual a Picard e a ele mesmo: “Um inglês de voz, profunda, imponente e careca”.

Em 2001, Stewart é sagrado cavaleiro da Ordem do Império Britânico, por Sua Majestade, Elizabeth II.

X-Men virou uma franquia de sucesso no cinema e Sir Patrick se tornou ainda mais famoso. Mas ainda faltava alguma coisa. Dos anos dois mil em diante, a sede de “desconstrução”, ou pulsão da morte, ou seja lá como você quiser chamar isso, tem afligido seriamente Sir Patrick. Ele fez várias pequenas pontas em comédias na TV e no cinema. Ele queria se livrar de Picard, do mesmo modo que William Shatner se livrou de Kirk ainda nos anos noventa, passando a virar uma figura folclórica, um tirador de sarro e “personalidade da cultura pop”. Ou algo assim. E começou por Picard. Star Trek: Nemesis (2002), o longa que conta a viagem final da Enterprise-E com o elenco de A Nova Geração, é uma despedida melancólica, seja pelo arremedo de história (da qual Stewart é um dos roteiristas) seja pela patetice com que Jean-Luc Picard é retratado. Nada podia ser pior. Pelo menos era o que eu pensava. Mal sabia eu o que o futuro reservava aos fãs.

Em 2017 foi a vez de Stewart matar o Professor Xavier em “Logan”, filme de James Mangold que retrata um “elseworld”, um trágico futuro no qual os X-Men morreram e cabe a um cansado e amargo Wolverine a missão de proteger os poucos mutantes restantes, entre os quais, um idoso professor Xavier, cuja senilidade torna seus poderes descontrolados uma ameaça ao mundo e a si mesmo. Durante a sessão de estreia, Stewart e Hugh Jackman, que vive Logan/Wolverine, experimentaram uma forte emoção ao se despedirem de seus papéis mais icônicos. Foi a catarse deles. Mas ainda faltava matar um personagem.

Em 2019, na Comic Con de San Diego, Sir Patrick, confirma que voltará a viver Jean Luc Picard em uma série sob a batuta de Alex Kurtzman, um dos responsáveis (o termo correto devia ser culpados.) por “Star Trek” Discovery (bem assim, com Star Trek entre aspas). No início os fãs, já castigados com duas temporadas de Discovery, ficaram animados. Mas alegria de pobre dura pouco. É dito que a série não será uma sequência de “A Nova Geração” e que Picard será alguém “muito diferente”. Sir Patrick, não contente em ter feito de seu personagem maior um imbecil, agora se delicia com a possibilidade de humilhá-lo.

A série estreia no Amazon Prime, porque a NETFLIX percebeu a roubada em que se meteu fazendo um contrato com o serviço de Streaming CBS All Access para distribuir “Star Trek” Discovery. Qual é o nível da ruindade? A primeira temporada de Discovery foi recentemente disponibilizada para a TV aberta nos EUA e perdeu até para reprise de programa de calouros. Programa de calouros!

O trabalho de Kurtzmann não é apenas ruim. É ofensivo aos fãs e desrespeitoso com a inteligência do público. Coisas como “sonar no vácuo do espaço” ou um atentado numa instalação militar que sequer é investigado, fazem parte de sua salada. Mesmo assim, resolvi dar uma de advogado do diabo e tentar “rever meus conceitos”. O resultado foi medonho.

A série traz Picard, 20 anos após os acontecimentos de NEMESIS, como um velho doente, amargurado, confuso, que se culpa por uma série de incidentes dos quais não tem qualquer responsabilidade. Pior, como se isso não bastasse, ele é virtualmente enxovalhado por qualquer um (normalmente uma mulher) que entra na história. Chega a dar pena. Dá vontade de invocar o estatuto do idoso.

“Queríamos fazer com que Picard revisse seus privilégios”, dizem os roteiristas, que nunca assistiram A Nova Geração, sob o aplauso de Sir Patrick. Aqui cabe uma reflexão. O que queria o ator? Mais grana? Desejo de destruir o personagem? Usá-lo como plataforma para suas causas políticas? Uma raiva contida de Gene Roddenberry? Parece um pouco de tudo isso, além de uma profunda confusão mental e desprezo pelo personagem que lhe deu fama e fortuna.

E que privilégios seriam esses? Jean-Luc Picard não deve nada a ninguém. Ele doou sua vida à Federação. Não teve família. Protegeu a civilização e seus mais altos valores ao longo de décadas, apenas para ser tratado como um monte de lixo? Logo ele, a epítome da correção política, o mesmo cara que quase chorou quando a entidade cristalina, um contumaz assassino de planetas inteiros, foi destruída pela vingança de uma mãe enlutada? Não faz sentido. Essa flagelação consentida, normalmente infringida por mulheres (sim porque ele tem que rever seus privilégios masculinos!), não faz sentido algum. No século XXIV os males do racismo, do machismo, e outras chagas do mundo atual, foram extintos. Se os roteiristas soubessem disso, não teriam escrito assim.

E não foi por falta de aviso. Mas não adiantou. PICARD, é um espetáculo patético e deprimente. Como série de ação, se arrasta. Como drama, é risível. E como filosofia, tem a profundidade de um pires. A série reescreve e destrói vários personagens queridos do público, apenas para encaixar tudo na agenda política de engenharia social de seus criadores. O próprio Alex Kurtzman admite: “Star Trek é nossa plataforma.” E, no meio de tudo Isso, Sir Patrick sorri, tal qual Dona Maria I, a louca, durante a fuga da corte portuguesa para o Brasil.

As tentativas do público em mudar esse melancólico cenário foram rechaçadas como ataques machistas, racistas, e sabe-se lá quais “istas” mais. Boa parte do público cansou e foi assistir The Orville, a paródia de Star Trek que é mais Star Trek que a atual fase da franquia. No momento, com a pandemia, as filmagens da suposta segunda temporada de “Picard” foram suspensas. E a volta depende de fatores adicionais. Sir Patrick já passou dos 80 anos. Nenhuma agência de seguros quer arcar com o seguro se algo acontecer a ele durante as filmagens. Para piorar, Picard está morto. No último episódio, o personagem morre, mas tem sua memória transferida para um corpo androide, no qual, junto com uma tripulação que inclui uma mãe negligente e viciada em drogas, um capitão de cargueiro alcóolatra, uma cientista homicida (que no final sai leve livre e solta de um crime, sem o devido processo legal, porque “foi por um mundo melhor”), um órfão romulano emasculado por uma ordem de “monjas guerreiras”, entre outras nulidades. Juntos, eles, se as condições permitirem, partirão em novas (e patéticas) aventuras pela galáxia, numa nave feia pra dedéu, se, é claro, Sir Patrick estiver disponível e seus advogados permitirem.

E esse é o fim da linha. Sir Patrick se transformou em um Dom Quixote da vida real, um cavaleiro, não do Império Britânico, mas da Triste Figura, lutando contra moinhos de vento que não existem sequer em sua perturbada cabeça, mas que lhe foram impostos por algum “jênio” do marketing millennial. Ele não tem a menor ideia do que está fazendo. Mas parece ser legal, a grana é boa, e o pessoal de marketing e relações públicas parece estar adorando. Ainda bem que alguém gosta. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até outro domingo.


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