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A picada da mosca azul

Por Jackson Buonocore
Publicado em: 08.04.2021 às 03:00 Última atualização: 08.04.2021 às 09:08

A história da mosca azul vem de uma antiga lenda oriental, que conta que um servo foi picado por ela e, a partir daí, começou a se olhar como o próprio sultão. Deslumbrado, ele se despersonaliza e se acha muito mais importante do que realmente é. Machado de Assis escreve com riqueza de detalhes no seu poema como fica uma pessoa picada pela mosca azul, que acreditava ser "a flor", "a vida", "a glória", a ponto de entrar em êxtase.

Com a mesma ironia literária de Machado, Oscar Wilde no seu romance "O Retrato de Dorian Gray" narra a vida de um jovem inglês que, ao herdar a fortuna do pai, passa a viver os prazeres da alta sociedade londrina. Dorian segue o conselho de um amigo e entrega sua alma ao diabo para ficar eternamente jovem, como num retrato.

Hoje, com as mídias sociais, é possível perceber aqueles que foram picados pela mosca azul ou entregaram sua alma ao diabo, pois eles se proclamam como a "quinta-essência". É por isso que não ficam felizes pelas coisas boas que ocorrem com seus semelhantes, já que a felicidade é um direito só deles.

Assim, os picados pela mosca azul entram num estado de delírio, visto que acreditam que os outros são insignificantes. Aliás, circulam nas suas veias os efeitos do - veneno - desse inseto: xenofobia, racismo, misoginia, homofobia etc, que são atitudes que se caracterizam pelo preconceito.

Além disso, os picados pela mosca azul pensam que são superiores aos outros, uma vez que se intitulam a "final flor", bem como adoram os holofotes e paparicos. É necessário enfatizar que eles apresentam tendências patológicas que têm em comum: o Id que age com impulsividade, irracionalidade e imoralidade, desestruturando o Ego e o Superego.

Em outras palavras, é como diz o provérbio popular: "Quem nunca comeu melado quando come se lambuza", ou seja, é aquele que nunca teve acesso a algum bem ou guloseima ou mesmo posição social, quando passa a tê-lo exagera na dose, abusa de tal bem, ou se farta da tal guloseima ou abusa da nova posição, gerando rupturas, dores de barriga, desconfortos e conflitos.

Mas por que essas pessoas se "acham"? É porque, para elas, os demais são avaliados pela sua conta bancária, pela beleza física, pelo status quo e pelos cargos que ocupam. É como afirmou Machado de Assis no seu derradeiro poema: "Que o pária ensandeceu e que não sabe como perdeu a mosca azul".

Portanto, é como mostram os versos machadianos e o conto de Wilde, que o homem vive seu reflexo, projetando sua própria vaidade, o apego às posições sociais, a utilização da estrutura do poder e do autoritarismo, que não se restringem apenas aos ambientes políticos.


O artigo publicado neste espaço é opinião pessoal e de inteira responsabilidade de seu autor. Por razões de clareza ou espaço poderão ser publicados resumidamente. Artigos podem ser enviados para opiniao@gruposinos.com.br


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